Trilhos Serranos

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quarta, 30 dezembro 2020 14:52

TEMPO DE FAZER AS MALAS E ABALAR

Escrito por 

PENSAMENTOS

Dias há que me sinto assim como que a fazer as malas, disposto a partir para longe. Assim como que a arrumar a casa, arrumar as estantes da biblioteca, tudo o que é pensamento e imaginação, criador e criatura, e abalar para nunca mais ser visto, nem ouvido, nem ler, nem lido.

É tempo disso. O confinamento imposto pela Covid-19 levou-me a bulir em arquivos materialmente fechados há muito, mas sempre abertos e escancarados em memória e sentimento. E tenho dado conta disso em textos e vídeos publicados, não faço segredo e sem medo, ciente estou de fazê-lo impelido pela consciência, pela obrigação humana, pelos tempos que correm e pelo exercício prolongado da profissão docente.

 PRIMEIRA PARTE

NEVE - CópiaÉ isso. E antes que este meu corpo cansado e pesado, este meu cérebro irrequieto e lesto enrolado em cabelos brancos desapareça feito em cinzas, nas abobadadas ondas do calor do forno crematório, dou por mim no palratório a desmaterializar o pensamento, a sensibilidade e os afectos, meus e de outros. Caminhos andados, esperançosos, percorridos, ora solitário, ora acompanhado. Sonhos realizados no abafado e suado calor de África, amores perdidos, amores  achados, amores por lá deixados, amores de lá trazidos, e, firme e seguro, envelhecer no enroupado e encapotado frio da serra do Montemuro.

A memória, esse repositório de vida, de trabalhos, aventuras e desventuras, gozos, felicidades e tristezas, desbobina-se na máquina do tempo e projeta no ecrã com lente anamórfica - Cinemascope - as imagens do vivido, almejado, gozado, recusado e sofrido.

Hoje a máquina encravou-se e deixou no ecrã, imobilizados, justapostos e/ou sobrepostos, empastados, respigos ligados à minha mocidade. E vejo que, do ZERO aos DEZOITO anos de idade, não passou um só deles sem eu saborear a meiguice e a suavidade da neve. Todos os anos nevava em Cujó. “Batem leve, levemente, como quem chama por mim...”

neve-2Ele era a neve buraqueira a meter-se por tudo quanto era buraco e abertura nas paredes ou nos capeados das coberturas de colmo; ele era a neve pingona a desfazer-se no ar antes de atingir pouso; ele era a neve espessa e pesada, fopas de grosso incêndio, digna de vergar o arvoredo, rainha habituada à vénia vassálica, senhora dos montes e vales, dona das ruas, das portas imobilizadas, abertas somente à força e jeito de pá e enxada. Ele era as “candeias” (estalactites) congeladas, penduradas nos beirais de colmo, tamanhos vários, cristalinas, rendilhados de altar, “chupa-chupas” da criançada, prenda da natureza, pois nenhuma das aldeias da serra, tinha nome no GPS do PAI NATAL. E de nada valia ter. As lareiras não tinham chaminé, pois nas aldeias até o fumo era produto de consumo. Enrodilhado em reduto fechado, secava o fumeiro pendurado nos varões do caniço, sobrado aéreo resultado da experiência e manha camponesa para nele secar a castanha. E aqui se diz com selo de verdade minha, pintava de verniz preto as paredes da cozinha.

E, à falta de prendas e mimos, adultos e crianças, meninas e meninos, postos em bicha, em dia de missa, beijavam o pezinho do MENINO JESUS que, nessa minha idade (alumiada não seu por que luz) esse beijo reunia em si o sabor da INOCÊNCIA, da SANTIDADE e da FALSIDADE. Uma TRINDADE.

Pobrezinho, nascido numa manjedoura, presépio com musgo montado, rodeavam-no, ajoelhados ou de pé, sua mãe Maria e José, pai adotivo, uma vaca e um burrinho, pastores e cordeirinhos vindos a pé por diversos caminhos, e montados dos seus camelos, vindos do oriente, era só olhar e vê-los, os três reis magos oferecendo ouro, incenso e mirra.

SEGUNDA PARTE

 2-AB-Capa-6Irra! Nesse meu tempo, não havia inverno que não prendasse a serra com um nevão digno desse nome. Ele era tão certo que nem um relógio suíço de marca garantida. Quem falava em “alterações climáticas?”

Nós, os serranos, mesmo que ninguém o diga, sabedores disso, fazíamos como a formiga. Colhíamos no verão para consumirmos no inverno. Os animais, eternos companheiros de ajuda no ganha-pão do camponês, não eram esquecidos. Palha e feno suficientes metidos no palheiro das vacas, racionados a contento, lá iam enganando os ruminantes. E, a juntar-se ao engano, somava-se, em cada ano, a palha seca serrotada e misturada com algumas cestas de erva verde segada no hortejo do Salgueirinho, derretida que fosse a neve com a água da fonte do mesmo nome.

E o gado miúdo? As cabras e as ovelhas?

Rama de carvalhiço, fieitos e “cruitas” secas de milho, recolhidas no verão, com sabedoria, sem feitiço nem magia, eram deglutidas que nem figos, naquele tempo de dieta forçada. Neste rebobinar e projetar a fita do tempo no ecrã CINEMASCOPE é justo dizer que até os animais eram vítimas da fome, nesse meu tempo de juventude. Mas dava gosto vê-los deitados, consolados, a ruminar o pasto seco engolido. Coitados!

E se as ovelhas, metidas no seu capote de lã, disfarçavam a magreza, as vacas e as cabras não tinham vestimenta de disfarce. A ossatura saliente dos quadris e das costelas permitia que o pastor, dono e tratador sensível, com dor, visse o esqueleto de cada um, a olho nu. Dispensava radiografia. Não era preciso passar-lhe a mão por cima para saber quantas costelas formavam o arcaboiço desses animais. Coitados!

TERCEIRA PARTE

ForjaA máquina desencravou e um desses invernos arrasta-se no ecrã como filme de longa-metragem. Quinze dias enjaulados pela natureza. O nosso trabalho era rachar lenha, empalhar os animais, levá-los à “auga” dos tanques e assobiar-lhes para beberem muito e ficarem fartos. Ir para a tenda dos RAMALHOS beneficiar do calor da forja, pegar no malho e ajudar o MESTRE a caldear uma enxada ou outra peça de ferro sobre a bigorna e e/ou safra.

Depois era o ajuntamento nos canastros ou na praça. Toda a rapaziada que por perto morava. Grandes e pequenos.

Capucha de burel, calças de burel, casaco de burel, colete de burel, tamancos com chapas e calcanheiras de ferro, orelhas de couro abertas na parte de trás, meias de lã (ditos caturnos) não tardava a termos os pés encharcados e prestes a pontapear as pedras solta ou de parede com as testeiras deles para nos livrarmos da neve que se colava por baixo e os tornava cada vez mais pesados, mais altos e difíceis de arrastar, ruas adiante.

E, não tardavam as bolas de neve começadas nos lugares cimeiros, mais altos. Iniciadas com o tamanho de um punho, era só rebolar caminhos abaixo e não tardaria a tornar-se “rebolo” pesado, só movido à força e jeito que meia dúzia de compinchas, comungando as mesmas intenções, caprichavam em chegar à praça (junto à Tenda dos Ramalhos) com o maior, o mais volumoso que pudesse ser.

RAMALHOE, sendo eu menino, nunca esqueci o “boneco” feito em cima de um “rebolo” desses, ali trazido por um grupo de jovens crescidos que faziam inveja à pequenada. Em certas idades, todos nós temos os nossos ídolos, os nossos heróis.

Desses, só um nome retenho pelo gesto insólito praticado. O Joaquim Tibério. Rebolo na Praça, boneco feito em cima, chapéu na cabeça, um trapo a fingir de gravata, olhos e boca acabados, ele picou o seu dedo indicador e com o sangue saído pintou os lábios da escultura. Assim mesmo, aos olhos de todos os presentes. Quem se lembra disto? Que coragem! A seguir colocou o polegar no sítio da picada e partiu para outra, sempre senhor de si e galhofeiro. Fiquei de olhos esbugalhados. Nunca esqueci tal gesto.

Cresci e todas as vezes que nos cruzávamos, eu lembrava-lhe aquela sua façanha que tanto me impressionou. Aquela e também a de ser ele o responsável pela minha simpatia pelo Sporting. Eu vos conto.

Ele e os rapazes da sua igualha, junto aos canastros da EIRA DAS POMBAS, ali onde fazíamos “ágora” graúdos e miúdos, discutiam futebol. Era no tempo dos CINCO VIOLINOS. Como sabiam eles disso eu não sei. Mas SPORTING era o melhor. Ele era sportinguista. E se ele (o herói que picou o dedo para pintar de vermelho a boca do boneco de neve) era sportinguista, eu a ouvi-lo e a admirá-lo, que outra coisa podia ser?

rodaSaí da terra. Retornei e, com alguns anos de diferença a separar-nos na idade, todas as vezes que nos cruzávamos na aldeia ou na vila, essas coisas vinham sempre à baila rematadas com o infalível “VIVA SPORTING!”

Ele, tal como o Agostinho Ramalho e tantos outros,  já fizeram as malas há um bom par de anos. Embarcaram. As estações e cais de embarque não têm conta, espalhados pelo país e pelo mundo. Ninguém chega de bagagem vazia. Todos ali chegamos de bagagem atestada, abarrotada, inchada de experiências, de mazelas, de virtudes, defeitos, pecados, boas vontades e o seu contrário. Sonhos alegres e felizes de chorar por mais e pesadelos a esquecer. Uma sopa de pedra com ingredientes muitos, no viver e no morrer. Uma pinta deixada por mosca descuidada e porca no globo onde aportamos, planeta que perdido gira no infinito espaço sideral. No momento, só a vasilha da bagagem pesa. O recheio, nem um grama. Nele não entram bens materiais. Entram somente sentimentos, emoções, boas e más ações, tudo o que não tem peso nem medida à escala do homem. O bem e o mal praticados em vida. Usar aqui a metáfora da balança é um absurdo. Só não vê, nem ouve isso o surdo e mudo. Não há ritual ou Pirilamporeza que lhe valha. No embarque tudo se apaga. Tudo embarca, bem o mal embrulhado. Pobre ou pomposamente encaixotado. Não tarda muito, tudo vira “terra, pó, cinza, nada”. Assim o dizem as SAGRADAS LETRAS que misturam muitas verdades e muitas petas.

Pois, mas desfeita a matéria, fica a memória daquilo e daqueles que tiveram a glória de, em vida, deixarem uma ideia viva, um pensamento, um gesto humano, capazes de, num qualquer momento de tempestade ou de bonança, com alguma sorte, aportarem à lembrança e venceram a lei da morte. Serem como o pirilampo que, num terno abrir e fechar de asas, raga o negro manto do esquecimento eterno.

 

EPÍLOGO

1- estante

 

E, chegado ao fim (ainda não me esqueci) retorno ao princípio para repetir  haver dias que me sinto assim como que a arrumar a casa, arrumar as estantes da biblioteca, tudo o que, com capa ou sem capa, é imaginação, pensamento, afeto, criadores e criaturas, e abalar para onde nunca mais seja visto, nem ouvido, nem ler, nem lido.

Mas, claro está, sem o testamento feito à revelia do formulário de antigo tabelião, um notário, um senhor que, a seu jeito e normativos em vigor, começava o seu labor: “Jesus, Maria, José”, afirmando, de seguida, que o testador, sem defeito, deitado ou de pé, estava em “seu juízo perfeito”.

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.