Trilhos Serranos

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terça, 10 novembro 2020 13:19

ENCRUZILHADAS DA VIDA

Escrito por 

ENCONTROS INESPERADOS

Já contei aqui o meu inesperado encontro com o nosso conterrâneo, Adérito Duarte, numa sala de aula no Externato Marques Agostinho, em Lourenço Marques e aludi à minha surpreendente surpresa. Ele professor e eu aluno.

Mas outro encontro inesperado me esperava, lá, nessas terras distantes. E nem imaginam a reação emotiva que, tão longe da nossa terra, significam encontros desses. É como se fossemos todos da mesma família.

 

Desta vez foi assim.

Cópia de Cujó-2005- reduzidaEstava eu numa esplanada de café - o SCALA - acompanhado da minha mulher, quando, no passeio, do outro lado da avenida - no CONTINENTAL - vejo uma figura que me pareceu ser conhecida. Inconfundível pelo seu andar inclinado, ombros desnivelados por razões que adiante se verão. E disse isso à minha companheira. Resposta dela: “tu sonhas com pessoas da tua terra. Aqui, tão longe, pode lá ser?”

Respondi que ele tinha a alcunha de CORRÉCIO e não gostava nada de se ver assim chamado. Vou tirar a prova. Era pessoa que já não via há muito tempo. Levantei-me da cadeira, caminhei paralelamente, ele no passeio de lá, eu no de cá e, a dado momento, gritei: «ó CORRÉCIO!»

Ele virou a cabeça espantado, atravessou a rua sorridente e identificou-me imediatamente. Não levou a mal tê-lo chamado assim, bem pelo contrário. Fomos almoçar os três e houve ocasião para ele nos contar a sua saga.

Marceneiro de profissão, ciente de ter nas suas mãos o ganha pão, onde quer que parasse, não hesitou em correr mundo. De Cujó rumou a Lisboa. Da capital rumou a Luanda. Arranjou ali emprego, ganhou dinheiro para nova viagem e, ala, logo a seguir, partiu para a África do Sul. Ali fez o mesmo e depois partiu para Lourenço Marques. E ali estava ele a conversar comigo. Trabalhava aqui e ali. Logo que tivesse dinheiro rumaria ao Quénia. E depois logo se veria.

PIÕESVimo-nos mais uma vez ou duas e depois desapareceu.

Soube que retornou à Pátria e, diga-se de passagem, que eu invejei aquele seu espírito de aventura e coragem. Sozinho, fazia as malas e toca a andar. O seu ganha pão e o dinheiro para viagens estava na sua arte, nas suas mãos e não em subsídios ou bolsas de estudo.

E, se alguma moral se pode tirar da história, convém saber que este nosso conterrâneo, de alcunha CORRÉCIO, seguro de ganhar o futuro onde quer que  fosse, tinha sido vítima da tuberculose num tempo em que tal mal não tinha cura. Teve sorte. A doença comeu-lhe um pulmão inteiro, mas deixou-lhe outro nas costas capaz de o manter vivo. Daí o seu andar inclinado.

Nessa época a tubercolose ceifava vidas como actualmente o coronavirus. Eu, em minha casa, vi um jovem chamado Mário, filho da tia Augusta, tísico, pedir ao meu pai: “ó tio Salvador, não me deixe morrer”. Deixou. No seu corpo seco, já não havia músculo onde pudesse espetar-se uma agulha e injetrar-lhe o remédio indicado.

O ZÉ CORRÉCIO, durante tratamento em Cujó, com um só pulmão, foi aconselhado pelos médicos a levantar-se muito cedo e ir para os montes respirar os ares da manhã. E assim fez. E que vontade aquela de viver! Cumpriu à risca as recomendações médicas e resistiu.

FOTOGRAFIADaí o susto que me pregou, do qual nunca mais me esqueci. Sentado junto de um penedo na Santa Bárbara ali estava ele a fazer o tratamento recomendado, a encher o pulmão de oxigénio, quando eu regressava de uma caçada furtiva à espera das perdizes.  Ao deparar com aquele vulto, no lusco fusco da manhã, coloquei a arma no chão julgando tratar-se de algum fiscal da venatória. Segui ao seu encontro. Era ele e disse-me a razão de estar ali. Fazia isso todas as manhãs, havia meses. Curou-se.

E nesse encontro, em Lourenço Marques, veio tudo isso à mesa da refeição e bem assim ter sido ele a primeira pessoa de Cujó a possuir a primeira máquina fotográfica, o primeiro rádio portátil e passear-se com ele, rua acima e rua abaixo, a marcar a diferença. De ter sido ele a possuir a primeira máquina de escrever, uma daquelas máquinas de teclas aneladas, na qual, em casa dele, eu escrevi, pela primeira vez, o meu nome sem recorrer à caneta e ao lápis. De ser ele a engendrar, sem grande sucesso (diga-se em abono da verdade) um torno movido a energia eólica para nele fazer piões. Não funcionava, capazmente, mas valeu a imaginação e criatividade. Tivesse ele estudos e outro galo cantaria.

MÁQUINA-2Todas essas coisas vieram à conversa, lá nas costas de África banhadas pelo Índico. E, meio a rir, meio a sério, eu provocáva-o. “Como querias tu que não te chamassem CORRÉCIO, ó ZÉ?” E ele ria. Outras terras. Outros climas. Outras relações humanas. Outros significados nas palavras.

Com efeito a alcunha de “corrécio”, na sua significação dicionarizada, não é muito abonatória para a pessoa que com ela foi selada. Mas eu, que o conheci pessoalmente (uns anos mais velho do que eu, não sei quantos), ignorando o seu comportamento infantil e o que fez  para merecer tal apelido, conhecendo as suas extravagâncias em relação aos demais conterrâneos, diria que, excluíndo os demais sinónimos, assentava-lhe bem o adjectivo “aventureiro” próprio da figura pícara. E seguro é que, numa aldeia serrana, todo aquele que escapa aos modelos estabelececidos, sujeito está aos anticorpos que lhe acarretam os seus comportamentos sociais. E não me custa a crer que a foto que aqui deixo dos meus pais e sobrinha Aldina tenha sido tirada por ele. Isto atendendo à aparente idade dos fotografados, pois quem é que nessa altura por ali andava de máquina fotográfica na mão?

Avós e netaCreio que regressado à Párria antes de 25 de abril ele teve algum protagonismo político na aldeia. Não confirmo, nem desminto. Que terá algo a ver com a existência do coreto que foi construído no Largo da Feira. Que não terá concitado unanimidade em torno dos seus comportamentos. Que terá falecido com a alcunha de CORRÉCIO colado a si, sem jamais ter entrado numa prisão a cumprir anos de “prisão correcional” como vi tantos outros nos livros onde eram regiatadas as entradas e saídas dos presos e as razões disso e penas sofridas.

Mas, fosse como fosse, com seus defeitos e virtudes, eu, que falo de CUJÓ E DAS SUAS GENTES,  sem olhar a classes, profissões e religiões, comportamentos conformes ou desviantes do todo social, não ficaria bem com a minha consciência, se, em memória da sua pessoa e respeito pelas suas diferenças, pelas suas andanças pela África e do nosso amistoso e inesperado encontro em Lourenço Marques, lá tão longe, não escrevesse estas linhas.

E julgo que que o faço não só por dever de “cronista”, mas também um pouquinho impulsionado pela inveja daquele seu espírito de aventura e de coragem. De pioneirismo e criatividade. E se alguém discordar deste meu juízo, e tenha algo a dizer em contrário, tal como nos casamentos, que o faça agora. Ou, então “que se cale para sempre”.

NOTA: deixo aqui os meus agradecomentos ao amigo José Duarte (conhecido por Zé do Porto) que me «confirmou e elucidou» sobre  alguns pormenores  da vida deste nosso conterrâneo. 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.