Trilhos Serranos

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quarta, 28 outubro 2020 13:32

RIO PAIVA «POÇOS DOS MOLGOS»

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«POÇO DOS MOLGOS»

No meu livro “Implantação da República em Castro Daire - I” escrevi o texto que se segue com o título que achei adequado ao momento político nacional e os movimentos dos REPUBLICANOS (nacionais e locais) reagindo ao “28  DE MAIO DE 1926” que instaurou a DITADURA em Portugal. As fotos ilustrativas foram acrescentadas agora, porque só neste ano de 2020 me foi possível chegar e estudar esse troço de rio . Assim:

 

PRIMEIRA PARTE

POÇO - Cópia«TARDE E FORA DE HORAS, OS REPUBLICANOS TOCAM A REUNIR

E estando as coisas neste pé, seja a nível nacional, seja a nível local, era preciso animar as hostes republicanas em Castro Daire. Assim, «O Castrense», de 18 de Setembro de 1927, enche a primeira página e algumas outras reportando-se a uma festa da «União dos Republicanos» (...) uma festa que decorreu com elevação e entusiasmo».

Aconteceu na quarta-feira anterior à dada de saída do jornal e o articulista diz que a própria natureza, que tinha andado tão agreste, se quis associar ao evento com «sol ligeiramente picante, como convém para uma festa que vai ser feita à beira rio».

Os ilustres convidados chegaram em automóveis e pelas 15 horas marcharam para o «Poço dos Molgos» na margem direita do Paiva, a menos de um quilómetro desta vila (…) os pescadores já havia horas que percorriam o rio na caça ao peixe delicioso. O Paiva portou-se bem e deu tal abundância de peixe que excedeu em muito as necessidades das dezenas de pessoas que se encontravam junto dele. «O Paiva também é republicano e quis ser gentil com os seus amigos».

APAAli conviveram figuras gradas da República como o tenente Coronel de Engenharia João Tamagnini Barbosa, antigo deputado e antigo ministro e presidente do Ministério; o Dr. António Paiva Gomes, antigo ministro e deputado por este círculo; Dr. Afonso de Melo, Juiz da Relação, antigo ministro e também deputado por este círculo, vogal do diretório do partido Republicano nacionalista, com o seu filho estudante de direito; Dr. Francisco Cruz, antigo deputado nacionalista e Dr. Marques Loureiro, antigo deputado nacionalista; Dr.  Elísio Cardoso Pessoa, que foi Governador Civil de Viseu, com o Governo do Dr. Álvaro de Castro; o Padre João Guerra, abade de Vila Cova, nacionalista e ainda os «nossos conterrâneos, todos republicanos do Partido Democrático, do Partido Nacionalista, ou sem filiação partidária: Exmos. senhores Aires Pinto Marcelino; Dr. Alfredo Pereira dos Santos, Alfredo Rodrigues Ferreira; Dr. Amadeu F. poças e filho; Aarão Figueiredo Simões Oliveira e filhos; Dr. Bernardo Antunes da Silva; Gastão Maria da Fonseca e filho; Dr. José Baptista de Lacerda; José Maria Ferreira do Souto; Dr. José Mário de Oliveira Baptista. Exma. esposa e filhos; Dr. Manuel Carlos Cerdeira e filhos; Manuel Ribeiro Seixas e filho; Dr. Pio Cerdeira de Oliveira Figueiredo e Exma. esposa.

Eram ao todo mais de 40 pessoas, afora o numeroso pessoal empregado na apanha do peixe, transporte de víveres, etc.».

A «caldeirada», que foi feita ali mesmo, ficou a cargo do senhor Dr. Francisco Cruz  «que é um hábil cozinheiro e excelente cavaqueador e bom amigo».

Muita gente ajudou a descascar batatas e prato feito e comigo coube ao mesmo cozinheiro abrir a sessão dos discursos.

«Tendo já feito vários brindes com «tinto da região foi o primeiro a falar. Ele conhecia o meio em que estava e a sua alma de republicano tinha de se expandir e expandiu-se com uma sinceridade impressionante, com palavras cheias de calor e de poesia (…) fez um ataque decidido aos monárquicos pela deslealdade dos seus processos de sempre e pela falta de autoridade que têm para censurarem os republicanos (…) fez votos para o restabelecimento da normalidade constitucional com uma república em que cada um ocupe o lugar a que os seus merecimentos lhe derem direito».

PALESTRA PREPARATÓRIAE seguiram-se, no uso da palavra, os Dr. José Mário de Oliveira Baptista, o Dr. Marques LoureiroDr. Afonso de MeloDr. Elísio Cardoso PessoaDr. António Paiva Gomes, o tenente-coronel Tamagnini Barbosa, o  Dr. Pio Cerdeira de Oliveira Figueiredo e por fim, o Dr. Amadeu F. Poças que afirmou a  «sua solidariedade  com os republicanos, fazendo referência às sombras da noite, que havia hora tinham caído já sobre as nossas cabeças, dizendo que com o belo dia que ali se passou a monarquia morreu também e que naquela ocasião ficava definitivamente enterrada no «Poço dos Molgos», tendo contudo a sorte de lhe não faltar um padre para rezar o «de profundis». (“O Castrense”, nº 593 de 18 de Setembro de 1927).

E assim terminou aquela festa, ali, no Poço dos Molgos, com vivas à República. Mas o eco da «caldeirada», onde se juntaram todos os republicanos desavindos e divididos em partidos, não se ficou pelos recôncavos do rio Paiva. É isso que inferimos do artigo publicado em «O Castrense»,  de 25 de Setembro de 1927, que se reporta ao jornal «Republica Portuguesa», de 16 de Setembro, onde se publica uma notícia dita «Correspondência de Castro Daire».

Ali se diz que, relativamente ao encontro dos republicanos no Poço dos Molgos«justificaram a sua ausência, entre outros, os senhores Dr. Henriques Simões de Oliveira e o Dr. João Simões de Oliveira».

E «O Castrense» responde a isto, dizendo andar o correspondente mal informado, pois não houve nenhuma justificação, nem tinha que haver, pois nenhum desses senhores tinha sido convidado, já não são conhecidos «no seu e nosso concelho como não republicanos». (“O Castrense”, nº 594, de 25 de Setembro de 1927)

 

SEGUNDA PARTE

GOLEIRA-1 - CópiaPara além deste evento político que teve lugar na margem direita do «POÇO DOS MOLGOS» (rio Paiva)  evento de grande significado para a história da implantação da REPÚBLICA EM CASTRO DAIRE, por nele serem intervenientes ex-governantes, ex-ministros e ex-deputados e os republicanos castrenses, anda associado aquele POÇO um acidente com um pescador castrense que, estando a pescar junto à goleira, sítio do rio onde as águas são estranguladas pelos rochedos, obrigando-as a afunilar e a passar por baixo de uma rocha (ver foto) foi atingido por uma pedra solta que resvalou ribanceira abaixo, desprendida  da pedreira existente na moita ainda hoje designada por “ROCHA”, que há dias filmei numa das minhas mal sucedidas pesquisas em busca do caminho que me levasse a esse POÇO.

Recolhi duas versões orais sobre esse acidente das quais farei um vídeo para alojar no Youtube proximamente.  Para lá remeto a paciência dos interessados, a fim de  saberem o sucedido e poderem contar como foi.

GOLEIRA-2 - CópiaPor mim, interrogo-me sobre o nome MOLGOS. E constato que esse POÇO, naquele sítio do rio PAIVA, é estrangulado por dois altos contrafortes laterais, autênticos MÓGOS que, por deturpação, terão dado nome ao poço.

Com efeito, Viterbo, no seu ELUCIDÁRIO diz-nos que “mógos são marcos que dividem e separam um território ou terreno de outros. Ainda hoje são notáveis os “Mógos de Anciens”. Mógo é o mesmo que “moiom”.

É assunto para linguistas e a eles deixo o estudo da matéria, pois sou pouco atreito a «meter foice em seara alheira».

Mas a esse POÇO se liga também uma MESA RETANGULAR que existe junto ao MÓGO da margem direita, cuja foto aqui deixo. É obra de toneladas, certamente tombada da rocha mãe (um dos MÓGOS» donde foi fatiada. MESA-1 - CópiaImpossível de ser para ali transportada, quer pela falta de acessos, quer pelo peso, a mão humana ficou patente no assentamento, nos recortes laterais e num penedo ao lado, rachado, com marcas evidentes de ter ando ali marra e guilho, as tradicionais ferramentas usadas pelos pedreiros, quando se dispunham a desfazer um pendo em fatias.

O senhor José de São Bento, nascido e moleiro que foi na Quinta do mesmo nome (daí ser conhecido por esse apelido), com 87 anos de idade, neste ano de 2020, em conversa tida comigo gravada em vídeo, chamou-lhe “MESA MOURA” E associou-a à COVA DA MOURA, sita na outra margem do rio, a que se liga a lenda por mim tratada no livro “Lendas de Cá, Coisas do Além”. Para esse livro (esgotado) remeto o leitor  e/ou para o vídeo cujo link se segue, alojado no YOUTUBE.

 

LINK «POÇO DOS MOLGOS»

https://youtu.be/bq3T7Bi218U

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.