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sexta, 25 setembro 2020 18:03

CUJÓ - GENTE DA TERRA

Escrito por 

ENCONTROS E DESENCONTROS NAS ENCRUZILHADAS DE VIDA

Estaríamos nos anos 50 do século XX e eu rondaria os 10 anos de idade. Eram tempos do pós-guerra, de carência e racionamento em tudo quanto se comia e se gastava por este Portugal afora. Uns, para sobreviverem e outros para manterem o nível de vida que sempre tiveram.

Então, como hoje, a crise nunca é igual para todos e, nessas circunstâncias, regressando eu com o gado Touça fora, vindo dos lados do Rio Mau, encontrei pouco antes do Santo António, sentados e encostados a uns penedos, vários caçadores vindos da zona do Porto a desfazerem o seu farnel.

 

PRIMEIRA PARTE

LATA DE SARDINHASJá escrevi e publiquei o episódio relacionado com esse meu encontro no “Notícias de Castro Daire” e no Facebook, no ano de 2012. Mas hoje deixo aqui uma parte desse mesmo texto, para melhor se compreenderem as razões que justificaram não só essa minha escrita, mas também a sua reposição, hoje mesmo.

É que esse episódio liga-se a um outro que, em 1975, teve lugar no mesmo sítio com protagonistas diferentes. No primeiro caso, não havendo fotógrafo por perto, o episódio ficou registado na PELÍCULA da minha MEMÓRIA e assim o verti a escrito mais tarde, mas segundo teve o privilégio de ficar registado na FOTOGRAFIA que veremos na SEGUNDA PARTE deste trabalho. Mas vamos à PRIMEIRA:

“Nesses 9/10/11 anos de idade, regressava eu com o gado das bandas do Rio Mau e, na Touça, depois de passar aquele caminho fundo que liga ao alto do Santo António, deparei com um grupo de caçadores sentados nuns penedos, a almoçar. Não eram de Cujó. Esses eu os conhecia todos e os cães perdigueiros, bem tratados, nédios de pelo, distinguiam-se claramente dos cães de Cujó, todos coelheiros e quase sempre de costelas vincadas na pele, prontas a serem contadas à vista por qualquer aluno de anatomia, dispensando, para tal, o tato em tal tarefa. Mas, como ia dizendo, ao passar perto deles, descalço e roto, não sei se monco amarelo a pingar do nariz, um deles pergunta-me de supetão:

 - Ó Menino, tens fome?

- Não senhor, respondi-lhe sem hesitar.

 Mas um adulto, vindo da cidade do Porto, vim a sabê-lo mais tarde, bastava olhar para a minha triste figura e ver que só a vergonha de dizer sim, me levou a dizer não.

 - Está bem, mas olha, toma lá esta lata de sardinha e quando tiveres fome, abre-a.

 lata de sardinhaDeu-me a lata de sardinha acompanhada de uma chave. Não me lembro se agradeci ou não. Sei é que a pouca distância do grupo, pus-me a mirar a lata e a vareta que numa das extremidades imitava uma chave em triângulo e na outra tinha uma ranhura como o buraco de uma agulha das grandes. Para que serviria aquilo?

Mirando e andando, ansioso por descobrir como chegar ao produto enlatado, os olhos mais atentos ao objeto do que ao caminho, acabei por dar um pontapé numa pedra e o resultado foi abrir um golpe no dedo grande do pé, pele levantada em alçapão, e o sangue a fazer bolinhas na poeira do caminho.

 Maldita lata! E assim, a viver um momento paradoxal, ansioso por comer o petisco e amaldiçoando a lata que o continha, cheguei à capela de Santo António. Sentei-me, encostei o alçapão da pele ao dedo, comprimi-o por algum tempo e aguardei que ele ficasse onde devia. Depois voltei à lata.

capelaChave tinha eu, mas olho da fechadura é que não havia. E mira daqui, mira dali, lá descobri uma pequenina língua triangular a descer junto ao corpo da lata. Endireitei-a e certifiquei-me que a ranhura da chave encaixava nela perfeitamente. Encaixei-a. E agora? Eu nunca tinha aberto uma lata de sardinha e ignorava o gesto simples de rodar a chave para a tampa começar a abrir e a mostrar o produto. E estava nesse “palpos-de-aranha” quando me lembrei da palavra «milagre» que minha mãe dizia por ver-me sempre a assobiar de estômago vazio. Milagre? Milagre fazem-no os santos e eu estava encostado à ermida de Santo António. Pedi-lhe o milagre de me dizer como abrir aquela «caixão de lata». E fez luz. Comecei a rodar a chave, não sem esforço, pois, por azar meu, aquela era uma das latas de tampa bem soldada. Mas, com esforço, lá consegui chegar às sardinhas.

 Eureka!

 Sabia lá eu o que significava esta palavra?E ali mesmo, no alto do Santo António, a ver Cujó, regalado a olhar para a povoação que nem um rei a olhar para o seu reino, esvaziei a lata, lambi-a, fiquei todo lambuzado, pois nem o óleo desperdicei.

Depois prossegui o regresso a casa, sempre a assobiar, atrás das ovelhas e das cabras… tlim…tlim…tlim...de campainhas ao pescoço. A minha mãe, deve ter notado a diferença. Eu não fui tão sôfrego a mastigar a costumeira hóstia de milho frita na sertã. E, antes de ela me perguntar se estava doente, contei-lhe o sucedido.

 - Ainda há gente boa no mundo, Abílio, gente boa, um milagre.

 Não lhe contei foi o pontapé que dei na pedra e o rasgo na pele resultante disso. Nem valia a pena. Por milagre, o alçapão da pele já estava colado, já não havia sangue e eu sentia ali apenas um formigueiro, um latejar sem dor nem incómodo”.

 

SEGUNDA PARTE

Rio MauPassaram-se anos. Eu, aos 20 de idade, em 1960, abalei para África e só cá vim de férias em 1975. Tinha 36 anos. Com residência temporária na casa dos meus pais, em Cujó, pernas de galgo, tomei o caminho que levava à Lameira de Lobos, desci o Cadouço, atravessei a povoação de Pendilhe e fui fotografar a ANTA, também dita ORCA, sita nos arredores, a caminho de Vila Cova. Dali parti para o Rio Mau e mergulhei no açude que estanca as águas da levada que vai para o MOINHO DA PONTE DA RELVA. Refresquei-me, qual Tarzan num rio da selva (ver foto) e, depois, segui rio acima até ao complexo industrial existente nos lameiros do meu pai, composto por dois moinhos e um pisão em ruínas que vinha do tempo dos meus avós. Foi um saltinho. Fotografei o complexo e parti em direção à aldeia, subindo a encosta do Riscado acima. E até à Touça, foi sempre a subir, num ver se te avias a pisar carreiros e caminhos andados em tempos de criança. Aquilo é que eram pernas!

Aconteceu que, na Touça, chegado aos penedos onde eu encontrei aquele grupo de caçadores do Porto a desfazerem o farnel, como contei na PRIMEIRA PARTE deste registo, andava um PASTORINHO, menino de escola, aparentemente mais novo do que eu, quando vivi esse momento de perspicácia e de SOLIDARIEDADE HUMANAS.

Revi-me nele, muitos anos atrás, e pedi-lhe para se deixar fotografar, segurando um carneiro pelos chifres. Não me conhecia devido a minha ausência da aldeia. Disse-lhe quem era, e ele, confiante, olhar penetrante, posou para a câmara. Feito isso, agradeci-lhe, segui o meu caminho e ele lá ficou com o seu rebanho. Voltei para Moçambique de lá regressei novamente em 1976, e fui colocado como professor, no Alentejo, em Castro Verde, a terra da minha mulher.

Touçca-1975 - CópiaE ainda que todos os anos viesse a Cujó ver a família, nunca mais vi o PASTORINHO da fotografia. E esta se ficou perdida nos arquivos pessoais até aos atuais tempos facebookianos, tão propícios à divulgação de fotos e tudo o mais que é útil e inútil à comunidade. Aqui, nesta plataforma democrática, coabitam pacificamente a futilidade que não interessa ao MENINO JESUS e a coisa séria, de grande interesse pessoal e coletivo.

Sabendo isso, era, portanto, chegada a altura de fazer uma agradável surpresa aquele HERÓI DA SERRA, aquele menino de escola, de Cujó, que, com aquela idade, andava pelos montes a guardar gado, sem medo dos lobos e mais imprevistos ligados ao pastoreio, inclusive o aparecimento de um forasteiro desconhecido a pedir-lhe para se deixar fotografar de mãos firmes a segurar os retorcidos chifres de um carneiro.

E surpresa por surpresa, o surpreendido fui eu. É que, posta a foto no mural “AMIGOS DE CUJÓ”, entre tanta opinião expendida, poucas foram as que, dando palpites, assestaram pontaria, julgo eu, no alvo certo.

Entretanto, e na dúvida, eu, em privado, por correio digital ou mostrando a fotografia pessoalmente, ia diligenciando no sentido de identificar o moço, tornado homem entretanto, com o passar do tempo.

E se umas vozes me garantiram ser “A” outras, de seguida, me diziam ser  “B”.

E eu, face a tanta opinião, só tinha por seguro que esta foto, aparecida assim de repente, surgida do nada, seria uma agradável surpresa e alegria, não só para o fotografado, mas também, eventualmente, para os seus familiares descendentes ou colaterais, caso a vissem e identificassem. O fotografado, não teria esquecido, por certo, esse caso insólito, já que nos montes em redor de Cujó era mais fácil encontrar pútegas a sugar sargaços, do que fotógrafos de tralha às costas e pedir-lhe para se deixar fotografar.

Fiz o que devia e, face ao insucesso da identificação, quer nas diligências pessoais, quer nas sugestões deixadas no MURAL, mantenho o que disse num dos comentários que ali adicionei aos demais lá postos. Assim:

“Tenho feito as minhas diligências em privado para identificar o moço. E excepto duas ou três pessoas que parecem apontar para o alvo certo, eu quase cheguei a pensar que, em 1975, tinha fotografado um FANTASMA, pois sendo de CUJÓ , ninguém identifica o PASTORINHO. E chego a pensar também que ainda estamos naquele tempo em que os naturais sonegavam aos forasteiros a identidade da pessoa procurada, dizendo: “olhe que eu não conheço, meu senhor”. Mas eu não desisto. Hei de lá chegar”.

E parece que sim. Apesar das cuidadas hesitações  de uns e das dogmáticas certezas de outros, eis que, lá do fundo de uma prega da minha MEMÓRIA,  pareceu-me ouvir o menino de escola dizer-me:

- Sou filho da tia Lurdes.

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.