CASA DO JUIZ
Quem entrar na vila de Castro Daire pela parte nascente, vindo de Viseu, uns poucos metros à frente da bifurcação que leva para Fareja, encontra um edifício com características singulares
É a «Casa do Juiz», assim chamada porque, nos meados do século XX, ali residiu um magistrado, ainda que o proprietário da morada, tal como nos diz o monograma «SS», colocado no topo da varanda das águas furtadas, nos aponte para os «Silvas» de S. Pedro do Sul, mais tarde «Silvas e Farrecas», negociantes de peixe por grosso.
CASTRO DAIRE- A CASA DO JUIZ
Como é um edifício, com águas furtadas, primeiro andar e rés-do-chão, cuja edificação está, seguramente, para antes do meu nascimento e, por isso, cedo me intrigou a sua decoração singular, à revelia dos mais edifícios da vila.
E, sem provas documentais escritas que me pudessem satisfazer a curiosidade histórica, todas as respostas que a seu respeito fiz me vieram das fontes orais e das informações contidas nos próprios painéis de azulejos que o decoram. Mas vamos por partes:
Fontes Orais:
1 - «Aquela casa foi habitada por um juiz e daí ser conhecida por esse nome».
2- «Foi propriedade dos «Silvas e Farrecas» de S. Pedro do Sul, negociantes de peixe.
3 - E pronto, o povo «aos costumes mais não disse».
Mas, se as bocas não falaram, fala a fachada do edifício. Colocados de fronte dele, vamos ler os elementos principais pintados nos azulejos:
a) Da nossa direita para a esquerda temos uma varina, descalça, vestida a rigor, com uma canastra na mão esquerda, com a assinatura do artista M.P. Júnior.
b) Logo a seguir temos um carro, meio de transporte puxado a animais;
c) Ao centro temos dois peixes pendurados pela cabeça, gesto tão vulgar na exibição dos troféus pescados;
e) Depois uma carrinha motorizada;
f) E por último um pescador, descalço, vestido da cabeça aos pés com o seu traje típico, exibindo na mão esquerda o artefacto da sua arte. E tudo feito onde e quando? Na cerâmica «Fonte Nova de Aveiro», no ano de 1921.
O varandins do primeiro andar e das águas furtadas, protegidos com guardas a imitar troncos e ramos de sobreiro completam a leitura. O proprietário, comerciante de peixe, natural de S. Pedro do Sul, ligado a Aveiro e ao mar por força do negócio que desenvolvia, quis deixar em Castro Daire, nesta vilória do interior, não apenas as marcas da sua identidade (o monograma), as marcas da sua profissão e naturalidade, mas também uma página de história do seu tempo. É o que se pode depreender dos ícones ligados à pesca (Aveiro), dos sobreiros ligadas à sua terra natal, S. Pedro do Sul e da transição dos transportes de tração animal para os transportes motorizados.
E, de caminho, deixou-nos ainda o nome da fábrica de cerâmica «Fonte Nova» de Aveiro, onde se «cozinharam» os azulejos, a data do seu fabrico, 1921, bem como o nome dos artistas que, desta maneira, da «lei da morte se vão libertando».
E vejam bem! Tudo isto pensado e feito por um negociante de peixe! Um cidadão, cujo nome em concreto ignoro, mas a quem rendo as minhas solenes homenagens de historiador. Ele, a lutar pela vida, a comprar canastras de peixe no litoral, a transportá-las nos carros «puxados a sangue» ou nos carros motorizados até às terras do interior, a fazer daquela casa azulejada um dos seus pontos de venda por grosso, teve a sensibilidade, a genial ideia de escrever na fachada do seu prédio uma página de história ligada à arte, ao trabalho e aos transportes, no primeiro quartel do século XX.
E hoje, princípio do século XXI, o que vemos em Castro Daire? Engenheiros, arquitetos, doutores e outros que se dizem possuidores de títulos académicos, a destruírem e/ou a maltratarem o nosso património edificado, histórico e cultural. Mais palavras para quê? É só cirandar pela vila e ver!