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sexta, 13 março 2026 12:25

CASTRO DAIRE - CASA DO JUIZ

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CASA DO JUIZ

Quem entrar na vila de Castro Daire pela parte nascente, vindo de Viseu, uns poucos metros à frente da bifurcação que leva para Fareja, encontra um edifício com características singulares

É a «Casa do Juiz», assim chamada porque, nos meados do século XX, ali residiu um magistrado, ainda que o proprietário da morada, tal como nos diz o monograma «SS», colocado no topo da varanda das águas furtadas, nos aponte para os «Silvas» de S. Pedro do Sul, mais tarde «Silvas e Farrecas», negociantes de peixe por grosso.

 

Casa do Juiz - CópiaCASTRO DAIRE- A CASA DO JUIZ

Como é um edifício, com águas furtadas, primeiro andar e rés-do-chão,  cuja edificação está, seguramente, para antes do meu nascimento e, por isso, cedo me intrigou a sua decoração singular, à revelia dos mais edifícios da vila.

E, sem provas documentais escritas que me pudessem satisfazer a curiosidade histórica, todas as respostas que a seu respeito fiz me vieram das fontes orais e das informações contidas nos próprios painéis de azulejos que o decoram. Mas vamos por partes:

  Fontes Orais:

1 - «Aquela casa foi habitada por um juiz e daí ser conhecida por esse nome».

 2- «Foi propriedade dos «Silvas e Farrecas» de S. Pedro do Sul, negociantes de peixe.

3 - E pronto, o povo «aos costumes mais não disse».

 Mas, se as bocas não falaram, fala a fachada do edifício. Colocados de fronte dele, vamos ler os elementos principais pintados nos azulejos:

a) Da nossa direita para a esquerda temos uma varina, descalça, vestida a rigor, com uma canastra na mão esquerda, com a assinatura do artista M.P. Júnior.

b) Logo a seguir temos um carro,  meio de transporte puxado a animais;

c) Ao centro temos dois peixes pendurados pela cabeça, gesto tão vulgar na exibição dos troféus pescados;

e) Depois uma carrinha motorizada;

f) E por último um pescador, descalço, vestido da cabeça aos pés com o seu traje típico, exibindo na mão esquerda o artefacto da sua arte. E tudo feito onde e quando? Na cerâmica «Fonte Nova de Aveiro», no ano de 1921.

 Casa Juiz-a2 - CópiaO varandins do primeiro andar e das águas furtadas, protegidos com guardas a imitar troncos e ramos de sobreiro completam a leitura. O proprietário, comerciante de peixe, natural de S. Pedro do Sul, ligado a Aveiro e ao mar por força do negócio que desenvolvia, quis deixar em Castro Daire, nesta vilória do interior, não apenas as marcas da sua identidade (o monograma), as marcas da sua profissão e naturalidade, mas também uma página de história do seu tempo. É o que se pode depreender dos ícones ligados à pesca (Aveiro), dos sobreiros ligadas à sua terra natal, S. Pedro do Sul e da transição dos transportes de tração animal para os transportes motorizados.

E, de caminho, deixou-nos ainda o nome da fábrica de cerâmica «Fonte Nova» de Aveiro, onde se «cozinharam» os azulejos, a data do seu fabrico, 1921, bem como o nome dos artistas que, desta maneira, da «lei da morte se vão libertando».

E vejam bem! Tudo isto pensado e feito por um negociante de peixe! Um cidadão, cujo nome em concreto ignoro, mas a quem rendo as minhas solenes homenagens de historiador. Ele, a lutar pela vida, a comprar canastras de peixe no litoral, a transportá-las nos carros «puxados a sangue»  ou nos carros motorizados até às terras do interior, a fazer daquela casa azulejada um dos seus pontos de venda por grosso, teve a sensibilidade, a genial ideia de escrever na fachada do seu prédio uma página de história ligada à arte, ao trabalho e aos transportes, no primeiro quartel do século XX. 

E hoje, princípio do século XXI, o que vemos em Castro Daire? Engenheiros, arquitetos, doutores e outros que se dizem possuidores de títulos académicos, a destruírem e/ou a maltratarem o nosso património edificado, histórico e cultural. Mais palavras para quê? É só cirandar pela vila e ver!

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.