Antes de assentar praça tentou governar a vida em Lisboa como estivador. Concluído o serviço militar regressou à aldeia e aí se estabeleceu com mercearia e taverna, cuja gestão entregou à esposa a fim de se dedicar à profissão de tanoeiro. Fazia pipos, canecos e baldes que depois vendia nas feiras do concelho.
Em 1941 muda-se para a sede do concelho e, como o exercício da sua profissão de tanoeiro o obrigava a comprar madeiras, aproveita as suas deslocações às povoações da serra para comprar porcos, cabritos e outras reses, cujas carnes negociava, depois, com uma casa do Porto. Cinco anos gastos entre madeiras, pipos e carnes, consegue algumas economias e com elas se abalança a montar a fábrica de refrigerantes "Águia do Montemuro". Cansado de fazer e vender vasilhas de madeira vazias, eis a maneira como passou a vender vasilhas cheias, vasilhas não de madeira, mas de vidro com rótulo e logotipo próprios.
A serra do Montemuro com as cinco tetas recortadas em silhueta e uma águia a sobrevoá-la passa a identificar o produto da Fábrica recém fundada, ali, na rua de Santo António. Não houve outra. Dela saíram a laranjada de marca "Valmon", os pirolitos, as gasosas, xaropes e licores nunca mais esquecidos por aqueles que tiveram a sorte de os saborear um dia numa roda de amigos ou ao balcão improvisado das festas e romarias. E muito menos as crianças. As crianças da serra que, por dez tostes, emborcavam um pirolito e se apressavam a partir a garrafa para ficarem com o berlinde que lhe servia de rolha. E as crianças da vila que se arramalhavam à volta da Fábrica aproveitando o mais pequeno descuido para surripiarem garrafas vazias e fazerem a mesma coisa.
Utilizando a laranja selecionada do Algarve, o fabricante procurava na qualidade da matéria-prima, a qualidade do produto acabado. Mas não era só a qualidade da fruta que determinava a qualidade do produto. Valentim Monteiro, que foi criado na serra e na serra pastoreou os magros rebanhos que seus pais possuíam, levando-os a pastar e a beber onde era necessário, sem recorrer a análises feitas por sofisticados laboratórios, mas valendo-se de um saber de "experiência feito", tinha um conhecimento profundo da qualidade das águas que brotavam do ventre da, então, "Serra Mais Desconhecida de Portugal", para utilizarmos o subtítulo que Amorim Girão deu ao estudo que fez sobre o Montemuro. E tal como o melhor do "Scotch Whisky" ‚ a água da Escócia, o melhor dos refrigerantes que saiam da "Águia do Montemuro", apesar da fruta selecionada, era a água que descia dos lençóis que o outeiro da Ouvida, ao tempo arejado e despoluído, ocultava no seu subsolo. Água que descia canalizada até à sede do concelho. Água que, sendo de nascente, era bem diferente da que atualmente se consome, bombada do rio Paiva.
Foi uma Fábrica extemporânea para o meio. Há homens que vivem fora do seu tempo e Valentim Monteiro bem pode ter sido um deles. Indústria familiar, filhos a tornarem-se autónomos por via do casamento, mão-de-obra extrafamiliar mais cara, equipamentos um tanto ou quanto artesanais, sem poderem competir com outras fábricas do ramo com tecnologia mais sofisticada, acabou por se converter numa fábrica de "concentrado de pasta de laranja" e nessa qualidade fornecedora de matéria-prima às fábricas de maior projeção no País. Antes, porém, e por pressão do público consumidor de Castro Daire, que se afeiçoara às bebidas "Valmon", ainda a "Provir, Lda." de Viseu, utilizando o vasilhame da marca original, engarrafou o líquido que saía de Castro Daire em "bidons" com vista a não ser descoberta a fórmula de preparação. Foi por pouco tempo.
Em 1977, acompanhada da sobrinha Odete, que sempre ali trabalhara e, por isso, "estava enfarinhada nessas andançaas", assumiu a gerência da fábrica, Maria Isaura Santos Monteiro Vicente, filha do empresário fundador. Pessoa dinâmica e expansiva, o seu nome há-de estar para sempre ligado ao diploma e à medalha com que foi distinguida em 1988, pela "Quality Control Review Limited, International Quality and Standard Organization» cuja carta, datada em Londres a 25 de Março de 1988, a seguir se transcreve na ¡ntegra:
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EXMA S.
MARIA ISAURA DOS SANTOS MONTEIRO VICENTE
RUA SANTO ANTONIO
3600 CASTRO DAIRE PORTUGAL
REF. INTERNATIONAL QUALITY (FOODS & BEVERAGES) SECUNDA EDITION MEDALHA INTERNACIONAL A QUALIDADE EM PRODUTOS ALIMENT‹CIOS.
"Temos o prazer de comunicar a V. S¦ que a sua empresa foi premiada com a "Medalha Internacional A Qualidade - 88" (INTERNATIONAL QUALITY MEDAL -88) na VIII edição da Seleção Mundial das melhores Marcas dos Produtos Alimentícios e Bebidas, que tradicionalmente outorga nossa Organização, em base a dados de controlo de qualidade recebidos periodicamente em nossos escritórios para a área de Espanha e outros países mediterrânicos.
A entrega desta distinção levar-se-á a término em Barcelona no próximo mês de Abril, dia 29 às 21 horas no Salão Tarragona-Gerona de Hotel Princesa Sofia de Barcelona, dentro duma importante reunião empresarial complementada com uma ceia de gala, com assistência de todos os premiados e imprensa especializada.
A filosofia desta especial consideração anual consiste em distinguir as empresas mais destacadas no sector e que maioritariamente contribuíram para melhorar a qualidade dos seus produtos.
Anexamos ampla informação referida ao evento como o rogo de que sirva-se confirmar-nos sua presençaa a sua maior comodidade. Maior informação poder solicitá-la à nossa representação em Espanha, ao telefone de Madrid (91) 733 80 72/733 78 70 ou a DELTA IBERICA S.A., Paseo de la Castellana, 268, 5C, 28046-Madrid, Atenção do Sr. Rosemberg Orrego".
ass) Rosemberg Orrego (Director)
QUALITY CONTROL REVIEW LIMITED
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Por razões pessoais, que não vêm ao caso, a comtemplada nãão pôde estar presente no Salão do Hotel Princesa Sofia de Barcelona, mas, nem por isso, deixou de receber o prémio atribuído.
O diploma em tamanho de folha A3, escrito em língua inglesa diz o seguinte:
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C E R T I F I C A T E
Quality Contol Review Limited, London (England)
(International Quality and Standard Organization)
Certify that
MARIA ISAURA SANTOS MONTEIRO VICENTE
has been awarded the "International Medal for Quality - Swiss gold Medal for Quality" for quality products and service, during the 1988 annual world selection of quality food and beverage products in London, at Princesa Sofia Hotel, Barcelona 29th April 1988.
Vice President Research director
ass) ass)
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A medalha a que alude a carta e o diploma acima transcritos, está resguardada num estojo de veludo azul e tem os dizeres seguintes:
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SWISS GOLD MEDAL FOR QUALITY
GENEVA
SWITZERLAND
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Legendada numa só face a medalha tem na base dois ramos a enquadrarem duas mãos em concha que, por sua vez, seguram uma laranja circundada, no topo, por uma coroa dentada.
Foi premio que chegou tarde. As amostras analisadas tinham sido recolhidas em plena laboração, mas quando a Empresa foi distinguida já o equipamento nacional "JOMATE", saído da Indústria Mecânica, Lda., com sede em Benevente, tinha imobilizadas as duas turbinas que transformavam as laranjas em pasta.

Tinha ocorrido o 25 de Abril de 1974. A desorganização temporária do aparelho produtivo portuguès estendeu os seus tentáculos até Castro Daire. A firma "Valente & Pereira" com sede em Algés, na altura a principal distribuidora dos produtos "Valmon", deixa de satisfazer os seus compromissos de tesouraria e, em desespero de causa, sem solução para o problema, reconhecedora da qualidade do produto, concede a identificação de algumas firmas suas clientes. E ‚ assim que a partir de 1978, aparecem como distribuidoras dos produtos "Valmon" as firmas de grande prestigio, a saber: a "Uprel de Estareja", a "Santos Quintódio, Lda", de Faro, a "Maias & Maias, Irmãos, Lda.", de Aveiro, e a multinacional "Sipren", de Lisboa.
Os ventos, porém, não sopravam a favor do negócio. Algumas firmas que, depois, vieram a entrar no circuito da distribuição, deixaram de satisfazer os compromissos assumidos e, com algumas dezenas de contos fora dos cofres, desiludida com o comportamento de tais clientes, a fábrica de refrigerantes "Águia do Montemuro", convertida em f brica de "concentrado de pasta da laranja" fecha as portas.
E ‚ assim que, laranjadas, pirolitos, xaropes e licores de marca "Valmon" não falando de uma garrafa ou outra que ficou como documento histérico e dos rótulos do "ANIZ Escarchado", bem como o rotulo da laranjada destinado a informar o consumidor da composição da bebida - "A laranjada Valmon ‚ fabricada com pasta de laranja, essência de laranja, a‡£car castor, ácido cítrico, gás carbónico, água potável e corante. CORADO ARTIFICALMENTE" - só existem na memória das pessoas tal como os equipamentos de produção e engarrafamento.
Do equipamento relacionado com "Fábrica de Concentrado de Pasta de Laranja", resta a lembrança, rótulos avulso, a máquina "JOMATE", umas tantas caldeiras de alumínio e muitos "jerricans" de plástico, aqueles onde era transportada a pasta com destino ás fábricas produtoras de laranjadas e sumos que, antes de serem rotulados com marca própria, ocultavam a "marca" e "rotulo", fruto da iniciativa, do engenho e do trabalho das GENTES DE CASTRO DAIRE.
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