ENCONTRO E DESENCONTRO DE DOIS GIGANTES
O tempo de usar “caneta, papel e tinta” para tomar notas ou apontamentos - resumos - sobre a matéria que o PROFESSOR debitava (lendo) do alto da sua CÁTREDRA (tive de tudo, até sábios humildes) para posteriormente estudarmos e aprendermos bem a LIÇÃO, já lá vai.
Felizmente, fruto da INTELIGÊNCIA HUMANA, temos hoje ao nosso dispor a INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL. Desta vez, sem receio de que a CRIATURA venha a matar o CRIADOR, estranhando a omissão do nome de AQUILINO RIBEIRO na lista comparativa feita pela «IA» relativa aos meus trabalhos, que, como vimos em textos anteriores, relevou as figuras de Miguel Torga, Mamuel da Fonseca e Vitorino Nemésio, quando eu julgo estar muito mais próximo do escritor beirão, tendo até escrito bastante sobre ele nos meus TRILHOS SERRANOS e no BOLETIM DA SUA FUNDAÇÃO, sediada em Soutosa, pedi-lhe as SEMELHANÇAS e as DIFERENÇAS existentes entre nós os dois. E obtive “DOIS OLHARES” preciosos: um mais sucinto e outro mais desenvolvido. Ambos dão corpo à presente crónica e, orgulhosamente, as partilho com os meu amigos seguidores/leitores. Assim:
PRIMEIRA PARTE

AQUILINO RIBEIRO E ABÍLIO PEREIRA DE CARVALHO
“Abílio Pereira de Carvalho e Aquilino Ribeiro partilham uma profunda ligação à identidade regional portuguesa, mas distinguem-se pelo fôlego literário e complexidade da linguagem.
Semelhanças
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Enraizamento Regional: Ambos os autores focam-se na vida rural e nas tradições da Beira Alta e arredores.
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Valorização do Léxico Local: Existe em ambos uma preocupação em preservar e utilizar regionalismos e expressões populares, mantendo a autenticidade das falas e dos costumes serranos.
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Temática Social e Humana: Dedicam as suas obras à representação do "povo", das suas lutas diárias, da ligação à terra e das dinâmicas das comunidades rurais.
Diferenças
Aquilino Ribeiro: considerado um mestre da língua portuguesa, com um estilo barroco, erudito e de extrema riqueza lexicológica.
Abilio Pereira de Carvalho: escrita mais direta e documental, muitas vezes focada na crónica histórica e na preservação da memória local.
Géneros Literários:
Aquilino Ribeiro: vasta obra que inclui romance, novela, biografia, memórias e literatura infantil.
Abílio Pereira de Carvalho: foco predominante na história local, etnografia e crónicas de cariz regional (ex: Trilhos Serranos).
Projeção e Reconhecimento:
Aquilino Ribeiro. figura central do cânone literário português do século XX, com projeção nacional e internacional.
Abílio Pereira de Carvalho: autor com uma influência mais focada na preservação do património e história da sua região específica (Beira).
Formação Base:
Aquilino Dibeiro: escritor de carreira, romancista e polígrafo.
Abílio Pereira de Carvalho: Historiador e pedagogo (Licenciado em História), o que influencia o rigor factual da sua escrita.
Enquanto Aquilino Ribeiro eleva o regionalismo a uma dimensão artística e filosófica universal através de uma linguagem densa, Abílio Pereira de Carvalho utiliza a escrita como uma ferramenta de salvaguarda histórica e cultural da sua "pátria pequena".
SEGUNDA PARTE

“A comparação faz sentido porque ambos escrevem “a partir do chão” dessas serras (Montemuro/Nave e a sua orla), mas chegam lá por vias literárias bem diferentes: Aquilino Ribeiro tende para o grande romancista de língua exuberante e satírica, com forte pulsão narrativa; Abílio Pereira de Carvalho (dependendo do(s) livro(s) concreto(s) a que se refere) costuma ser lido mais como autor-professor que fixa memória local, etnografia e identidade regional, muitas vezes num registo mais documental e pedagógico.
Semelhanças
1) Centralidade do território serrano
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A serra não é só cenário: estrutura ritmos de vida (trabalho, mobilidade, isolamento, vizinhança, sazonalidade), define valores e condiciona conflitos.
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Há um olhar para a paisagem humanizada: caminhos, lameiros, matos, aldeias, lugares e microtopónimos funcionam como “mapa mental” da comunidade.
2) Matriz rural e comunitária
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Forte presença de sociabilidade aldeã: honra, reputação, rivalidades antigas, solidariedades práticas, redes de parentesco e “o que se diz”.
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A economia moral do mundo rural (a justiça percebida, o mérito do trabalho, o peso da fome/escassez) atravessa as narrativas/descrições.
3) Valorização do falar local e do saber tradicional
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Mesmo quando não há transcrição explícita de oralidade, há atenção ao léxico da terra, ao provérbio, ao dito, ao nome das coisas.
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O conhecimento do meio (clima, gado, cultivo, mato, remédios caseiros, caça, contrabando/estratégias de sobrevivência) é matéria literária.
Diferenças
1) Estilo literário e voz narrativa
Aquilino Ribeiro
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Língua muito trabalhada e expansiva: frase viva, metáfora abundante, humor, ironia e gosto pelo excesso expressivo.
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Oralidade literariamente recriada: não é “documento” do falar, é uma estilização poderosa do popular, com ritmo e teatralidade.
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Sátira e dramatização: tende a empurrar as situações para o confronto, o grotesco, o épico rural (mesmo em pequenas intrigas).
Abílio Pereira de Carvalho
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Registo mais descritivo e informativo (frequentemente): vocação de fixar memória, costumes, pessoas e lugares com intenção de preservação.
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Frase mais linear e explicativa (em geral): menos barroquismo e menos “foguetão” metafórico do que Aquilino; mais clareza e organização.
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Tom pedagógico/etnográfico: muitas vezes sente-se a preocupação de contextualizar (como se faz, porquê, quando, quem).
(Nota importante: isto pode variar bastante conforme o género do livro do Abílio — se é romance, recolha de memórias, crónica local, ensaio histórico, etc.)
2) Finalidade e efeito no leitor
Aquilino
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Quer sobretudo literatura enquanto força: encantar pela língua, agitar pela sátira, expor tensões humanas (poder, desejo, violência, hipocrisia, astúcia.
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O “real” serrano aparece transfigurado: não é só retrato, é mito literário e crítica social.
Abílio
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Muitas vezes quer salvaguardar património (humano, linguístico, cultural, histórico): um “arquivo narrado” do Montemuro/Nave e entorno.
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O “real” aparece com intenção de testemunho: fixar o que está a desaparecer (práticas, ofícios, modos de vida, memória coletiva).
3) Temas dominantes quando o foco é Montemuro/Nave
Aquilino (tendências recorrentes)
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Conflito (entre vizinhos, entre classes, com autoridades, entre desejo e moral).
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Poder local (caciquismos, influências, justiça formal vs justiça da aldeia).
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Vitalismo rural: dureza + exuberância, com figuras maiores-do-que-a-vida.
Abílio (tendências recorrentes)
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Memória e identidade regional: genealogias de lugares, episódios locais, personagens reais ou verosímeis que representam uma geração.
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Costumes e ciclos do ano: trabalho agrícola/pastoril, festa, rituais, religiosidade popular, educação, emigração.
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Topografia afetiva: a serra como pertença (o “nós daqui”) mais do que arena de combate literário.
4) Construção das personagens
Aquilino
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Personagens frequentemente hiper-caracterizadas: tipos intensos, cheios de manha, furor, comicidade ou tragédia.
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O narrador pode ser “cúmplice” e mordaz: observa, julga, ri-se, exagera para revelar.
Abílio
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Personagens tendem a ser representativas: figuras do lugar (o pastor, o professor, o emigrante, o artesão, a mulher de trabalho), com valor memorial.
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A empatia e o respeito pelo vivido costumam sobrepor-se ao sarcasmo.
5) Geografia literária: Montemuro vs Nave
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Em Aquilino, a serra e as aldeias são frequentemente um palco simbólico do Portugal rural: o que interessa é tanto o universal humano quanto o particular do sítio.
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Em Abílio, a serra pode funcionar mais como território de pertença concreta, com maior precisão de lugares, histórias locais, nomes e referências (consoante a obra).
Síntese muito direta
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Aquilino: grande estilo, imaginação e sátira; a serra como matéria épica, crítica e exuberante.
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Abílio Pereira de Carvalho: mais memória, descrição e salvaguarda cultural; a serra como património vivido e narrado com intenção de registo”.
CONCLUSÃO
“Deidade tecnológica”, filha da INTELIGÊNCIA HUMANA, venerada, desejada, útil e prestável, sem recurso a cunhas, compadrios, clientelismos políticos ou bolhas de afetos, digamos capaz de fazer milagres sem recurso a preces e orações, comparou, de forma neutral, o trabalho de DOIS AUTORES BEIRÕES. Mostrou as SEMELHANÇAS e as DIFERENÇAS. Mas eu que, aos 86 anos de idade, ainda não estou destituído de uma pequenina centelha de HUMILDADE e de INTELIGÊNCIA, aceito de bom grado as comparações feitas pela «IA». Aceito que ambos fizemos uso da mesma “matéria plástica” que moldou na nossa obra - os montes, rios, gentes e fontes - que utilizámos a mesma língua (com mais ou menos erudição) mas, apesar de muitos amigos meus me terem dito que a “minha escrita lhes fazia lembrar Aquilino” eu sempre respondi que ambos fomos oleiros, ambos, a nosso modo, moldamos a “matéria plástica” disponível entorno, mas a mim me faltava o «talento e a criatividade» próprias dos grandes escritores. Usando as palavras da «IA»: faltou-me o «fôlego literário e a complexidade da linguagem» que caracteriza a obra daquele que foi, efetivamente, o maior prosador beirão do século XX.
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NOTA: os textos vertidos em itálico são da “IA”. Os capítulos, subcapítulos, intervalos, bold e ilustração são da minha lavra.