Trilhos Serranos

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terça, 08 dezembro 2015 18:57

MEMÓRIAS MINHAS: POESIA, ONDE ESTÁS TU?

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MEMÓRIAS MINHAS - POESIA, ONDE ESTÁS TU 

 

Nada é, pois, como outrora: «nada é igual». E ao sol-por das minhas «infâncias distantes», infâncias na maioria iletradas, condenadas à cultura da terra, a vida, nas suas mudanças constantes, contrapõe-se, agora, o chilreio da pequenada nos jardins de infância, da criançada nas escolas primárias, preparatórias e secundárias.

 

imageA  todos é dado descobrir novos caminhos, novas metas, embora sujeitos aos espartilhos dos meios rurais. O pião, metido na sacola, desce à vila, sobe à serra e, no recreio da escola, que substituiu o terreiro aberto no carquejal, rodopia na roda gizada no chão, ou então, habilidosamente, na palma da mão da criança para quem o bornal e o cajado de antigamente são apenas uma lembrança. 

Imobilizaram-se lagares, pisões e moinhos. As estradas substituíram a maioria dos caminhos. O candeeiro a petróleo foi reformado pela electricidade. A água ao domicílio, esta é a verdade, substituiu fontanários e fontes de chafurdo. E tudo isto (um absurdo!) porque nos meados do século vinte os bens da civilização, digo-o com acinte, estavam ausentes no exílio. Quem diz que não? Isto e muito mais. Tantas mudanças materiais! Tantas coisas boas e belas! E mudanças profundas na mentalidade? Mudanças não superficiais? Essas, que é delas? Quantas interrogações? A Escola exercerá as suas funções, mas no tempo em que o TER domina o SER, que dizer de tal via? Por isso, contra isso se porfia. Por isso recordo o que disse, há dias, um certo senhor, creio que no «Independente».  Cito-o de cor: «faz mais falta um cidadão culto que um cidadão rico». Onde está ele? Pobre ou rico, rural ou urbano, vestido de seda ou grosso pano, não é certamente aquele que, de juízo estulto, lente da vida alheia, expedito no mexerico, só nisso pensa, só nisso se compraz. E se o interlocutor dá o prego, desapontado com a conversa, se o chama à razão, responde com prontidão: «se disser que fui eu, nego»! E não dá descanso. A conversa muda de direcção, passa ao futebol, toma balanço e, feliz e contente, desdobra o rol. Não fala de cor, e para ilustrar o que diz e faz, como exercita a tola, como ilumina a mente, cita, frequentemente, o «Record», o «Jogo», «Bola».

Literatura? Poesia? História, Filosofia? Era o que faltava! Hoje em dia isso manda-se à fava. E se bem vejo, bem leio, bem escuto, o que dá honra, o que dá glória, o que dá estatuto, é a potência do automóvel, a marca dos carros, a roupa de marca, a marca de cigarros (...), a posse do telemóvel.

 
 
É isso. No campo, a poesia, já existia nesse apagão de letras que era a serra no iluminado século das luzes.
Pois.   Então a crença era só nas cruzes e nada de Literatura, de História e Cultura, pois esta era a cultura dos cereais, do centeio e do milho, do linho, do nabo, da criação do gado para primícias, foros, rendas e impostos mais. Ela existia? Existia nas quadras soltas do povo, nas brejeiras cantigas ao desafio, nas irónicas e cáusticas mandas e cabaços carnavalescos, nas doces canções de embalar, no beijo consentido ou roubado, no sexo às escondidas praticado, com pecado ou sem pecado, atrás de uma urgueira ou de uma giesta floridas, atrás dos penedos solitários e depositários de mil segredos, de mil vidas, tudo envolto no inebriante perfume da carqueja, do rosmaninho e do feno, no odorífero cheiro dos rebanhos, do afrodisíaco cheiro do bode tresmalhado pelo cio, poesia que não morre, que escorria e escorre eternamente nas rugas dos montes vales rios e fontes, nas romarias orações e preces de agricultores e pastores, no uivo do lobo, assobio do vento, solidão de pegureiro, na leve e cristalina gota de orvalho, na pesada gota de suor do ferreiro agarrado ao malho, na dor de quem sofre os tormentos neste vale de lágrimas, no sentir da esforçada gente educada para a resignação e sofrimento, nos prantos daquela que ficava ou daquela que partia nas asas de um sonho em busca de outro sonho insegura de voltar ou somente segura de ausente estar presente aconchegadinha no berço da lembrança da nostalgia da terra natal onde cresceu e bebeu parte do mundo e da vida.  

Sim! É que a saudade, esse sentimento impresso no genoma de cada ser, se na mocidade quase não se dá conta de ter, com a idade é chaga que dói, que mói, que rói, de morrer e -  coisa paradoxal! - é tónico vital que alimenta, que alegra, que acalenta, que faz viver.

Abílio/2001 in "Notícias de Castro Daire"


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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.