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quarta, 13 maio 2020 12:57

CUJÓ - MOAGEM MOVIDA A MOTOR DE COMBUSTÃO

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ARQUEOLOGIA INDUSTRIAL

No meu livro “CUJÓ, UMA TERRA DE RIBA-PAIVA” existe um capítulo sobre a indústria moageira tradicional, com referência a todos os moinhos hidráulicos existentes ao longo dos rios Calvo e do rio Mau, mas também a referência à MOAGEM que, por falta de água nos rios, levou o meu pai, Salvador de Carvalho, de parceria com os Tibérios (os Teixeiras) a instalá-la por forma a que nela os cereais fossem transformados em farinha. O meu pai fornecia as instalações, as mós, o correame e mais apetrechos e  os Tibérios o motor da sua malhadeira, primeira e única na povoação, nessa altura.

 

PRIMEIRA PARTE

 

E foi assim que naquela seca prolongada que houve em Portugal registada, seguramente, nos anais meteorológicos portugueses, a qual eu situo, de memória, nos anos de 1955 a 1958, ali afluíam todos os povos em redondo com os seus cereais em cima de animais de carga e, muitos deles, às próprias costas com vista vê-los moídos, bem ou mal.

III-VERSÃO  - REDZConstituída a parceria, a maquia cobrada aos clientes era dividida pelos sócios, segundo acordo prévio, seguramente selado com a palavra dada. A palavra tinha o valor de uma escritura notarial. Mas esse pormenor dizia respeito a adultos e, fedelho que eu era, não metia nisso bedelho, pelo que ignoro em absoluto o articulado desse acordo. Mas se nisso não metia bedelho, eu já não era tão fedelho assim, a ponto de ajudar o meu pai naquelas tarefas e vir a ser o responsável oficial pela qualidade sanitária do produto que saía da “fábrica”.

Eu vos conto. Acabada a parceria inicial, o meu pai comprou um motor e passou a ser único INDUSTRIAL DE MOAGEM coletado nas FINANÇAS com registo diário obrigatório em livro próprio, para controlo do fisco. Com essa finalidade rabiscavam-se na respectiva folha “exel” a quantidade de cereais moídos e as maquias cobradas. Por exigência das entidades sanitárias as instalações da “fábrica” tiveram de ser rebocadas com barro e caiadas no interior. E dado o seu gabarito, integrar no seu corpo laboral um responsável pela qualidade sanitária da produção. E vejam só quem havia de ser? Pois é. Foi cá o Abílio, com 17-18 anos apenas. E para sê-lo, tinha de reunir certas condições de saúde, sem as quais não me seria passada a CÉDULA correspondente, pelas entidades respetivas. Feitos os exames, confirmadas as condições, foi-me passado esse documento pessoal e intransmissível. Isso fez com que,  mesmo antes de possuir Bilhete de Identidade, me  tornasse dono e senhor de uma CADERNETA onde constava a minha identificação com fotografia e tudo.

Quando fui para África, um salto no desconhecido, fiz dela companhia, na esperança de poder-me fazer jeito no primeiro emprego. Não foi necessária e, viajando comigo de mala em mala, de casa em casa, por lá se perdeu numa das minhas andanças por terras estranhas.

1-Máquina vapor-livro-A - CópiaDeixo aqui o registo, não só porque ele é historicamente verdadeiro, mas também para os meus amigos (aqueles que o são), a partir de agora, poderem incluir no meu “currículum vitae”, pré-liceal e pré-universitário, a minha honrosa profissão de MOLEIRO, até hoje omissa naquele que publiquei no meu site. E, de caminho, ele serve também para os meus inimigos de estimação, me poderem colar nas costas mais um rótulo, semelhantemente ao de “fogueiro”, como fizeram, ao saberem que fui o responsável pela descoberta, restauro e exposição, no Jardim Público, da MÁQUINA A VAPOR proveniente da Serração dos Casais da D. Inês. Com efeito, no trabalho académico de “investigação aplicada” centrado na “Arqueologia Industrial” levado a cabo durante a minha “licença sabática” enquanto professor da Escola Preparatória de Castro Daire, corri o concelho em busca de peças industriais fora de uso. E foi assim que, descoberta a peça, o proprietário dessa Serração se prontificou a oferecê-la ao Município, destinada a HOMENAGEAR todos os EMPRESÁRIOS MADEIREIROS do concelho. E lá está ela.

A sua história foi pormenorizadamente escrita por mim, publicada no jornal “Notícias de Castro Daire” e no livro "Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura", editado pela Executivo Municipal, mas este, com outras prioridades em mente, não se deu ao cuidado de fazer dela um simples desdobrável para oferecer aos turistas e forasteiros que, de passagem por aqui, hoje, exigem mais do que “bolo podre” e “cantigas à desgarrada”. E também para as próprias pessoas cá da terra não lhe chamarem uma MÁQUINA DE COMBOIO, como já vi escrito e ouvi de orelha.

 

SEGUNDA PARTE

Adiante. Volto à referência da MOAGEM do meu pai, em Cujó e ao livro citado, para dizer que não deixei nele qualquer ilustração. Quando o escrevi, em 1993, a MOAGEM já não existia. Toda desmantelada, dela restavam somente algumas peças soltas, nomeadamente a “engrenagem dentada” industrial que, à semelhança dos moinhos hidráulicos, desempenhava a função de rodízio (ver ilistração acima).

ROLAMENTOSE também o “par de rolamentos” (ver foto ao lado) onde girava um veio com políeis de madeira artesanais, colocadas entre o motor e as mós, com diâmetros distintos, capazes de compatibilizarem as rotações do motor com as rotações desejáveis e adequadas à mó andadeira, a fim da farinha sair em condições de ser peneirada e seguir as restante fases necessárias ao fabrico do pão.

Sincronizar essas rotações não foi coisa fácil. A engenharia técnica estava a quilómetros de distância e, ainda que, por perto, os artesãos manejassem bem o metro, o compasso e o esquadro, tudo se fazia por "cálculo” e por «tentativas». E várias foram as políeis de desdobramento de velocidade que entraram e saíram do veio dos rolamentos, até se chegar aquela que estaria mais ou menos no ponto. Mais ou menos, pois, diga-se, em abono da verdade, que farinha semelhante à que saía das mós hidráulicas, jamais saiu da MOAGEM do meu pai.

Porém, do mal o menos, sem água nos rios, todos secos em redondo, as taleigas de cereais, vindas das povoações vizinhas,  empilhavam-se encostadas ao longo das paredes interiores, cuja brancura dada pela cal era reforçada com a faúlha que se esgueirava do barrete de zinco que cobria, por inteiro, o par de mós – a fixa e a andadeira. Nesse barrete, só havia duas aberturas. A primeira era a que dava entrada ao cereal no olho da mó de cima, ali chamado pelo estreloiçar do chamadouro assente na quelha. A segunda era aquela onde se metia a boca do saco que recolhia a farinha. Mas, mesmo assim, nada retinha esse “pó de talco” que empoava todo o interior do edifício, inclusive o teto. Ali, na moagem do meu pai, naqueles dois ou três verões de seca prolongada, não foi preciso esperar pela neve de inverno para ver tudo branco, à minha volta. Um espetáculo que, talvez por sê-lo fora de tempo, por similitude, jamais me saiu da memória. O meu pai, sempre em redor das mós, era uma figura exótica ao fim do dia. Semelhante só um urso polar, cuja existência eu, então, desconhecia. Todo branco. Roupa, pele, bigode, sobrancelhas, olhos, ouvidos, narinas, tudo se disfarçava sob aquela fina camada de pó voador que aterrava e se pegava a tudo quanto era sítio de poisar. Um espetáculo único.

E claro está que quem tal viu e ali trabalhou, mantivesse na memória tudo isso e também as peças de todo aquele engenho e seu funcionamento. Por isso, à falta de registo fotográfico (câmaras fotográficas, à época, em Cujó, que é delas?) aqui deixo hoje o seu “esquiço” como ilustração, feita no Paint,  que faltou na edição do meu livro acima referido.

Das peças soltas que restavam em 1993, recolhi e guardei o “par de rolamentos” acima descritos. E mostrados. Eles aqui ficam também. E são prova material daquilo que tenho por assente, mesmo que não venha escrito nos livros dos sábios. As coisas, todas elas, “são a nossa extensão humana”. E descartáveis e inúteis que se tornam depois de  cumprida a missão para que foram concebidas, merecem ser conservadas, sejam elas velharias ou peças museu, pois, em qual quer caso, nunca deixam de ser um hino à inteligência humana.

TERCEIRA PARTE

Para além do que dito está, dois episódios me ligam estreitamente a este engenho. O primeiro já o contei nas crónicas que escrevi sobre a minha ligação juvenil  à ESTRADA NACIONAL Nº 2.

BURRO-REDZ - Cópiaa) E o caso foi eu ter sido incumbido pelo meu pai de ir a Lamego comprar duas latas de tratol, de 20 litros cada, metidas num par de cangalhas colocadas sobre a albarda de um burro emprestado para o efeito, semelhantemente à alimária cuja foto ilustra este apontamento e retirei da Internet, data vénia, ao autor.

Eu teria os meus 16 anos de idade. E ouvi bem as palavras do meu pai: «vais daqui até à Relva, dali a Vale Abrigoso, segues até ao Mezio e ali apanhas a estrada que vai para Lamego. É só segui-la. Chegado à cidade encontras um homem de pedra muito grande (estátua do soldado desconhecido) e aí viras à direita até ao fundo da Avenida. Lá, no lado esquerdo, numa casa, vês duas mulheres cada uma com um braço levantado e um candeeiro na mão. Ao lado delas existe uma taverna. É lá que vendem o tratol. Mandas encher as latas, pagas e regressas".

Vejam só! Tomei rumo e fui direitinho ao destino. Às vezes, quando penso nisso, interrogo-me se eu era um rapazinho esperto, ou se a esperteza era do burro que, se calhar,  já conhecia o caminho de cor e salteado por razões do seu ofício.

Mas burro, burrinho, fui seguramente eu quando, no regresso, promovido a almocreve, sensível ao esforço do animal, resolvi aliviá-lo da carga, por algum tempo. E vai daí, tirei-lhe as latas de cima do lombo e pu-las no chão, para recuperar forças. Estaríamos a meio caminho e se eu, bípede, estava cansado de dar ao pé, o quadrúpede devia sentir o mesmo de dar á pata.

Tirar as latas das cangalhas e colocá-las no chão, foi tarefa fácil. Carregá-las novamente é que foi o cabo dos trabalhos. Metida uma lata na cangalha respetiva, sem contrapeso do lado oposto, a albarda rodava e eu não conseguia chegar à boca da outra para nela encaixar a contra-carga. Fiz várias tentativas e nada. Quase entrei em pânico, pois o facto de estar parado  na ESTRADA NACIONAL Nº 2 pouco me valia, já que, nesse tempo, só de longe em longe passava um carro ou pessoa a quem eu pudesse pedir ajuda.

Sem ter a quem pedir auxílio teria de resolver o problema sozinho. E, rápido a pensar, desembrulhei a encrenca. Aproximei o burro da parede para que, lateralmente, uma das canhalhas ficasse resvés com ela. Coloquei as duas latas no chão em posição conveniente e depois de encaixar no sítio a do lado da parede, encostei o ombro ao burro e pressionei o seu corpo contra ela, para que a albarda não tombasse para lá. O burro cedeu, a albarda não descaiu e eu, de seguida, consegui encaixar a segunda vasilha. Enfim, equilibrei a carga e pés e patas a caminho. O motor teria combustível para mais uns dias.

b) O outro episódio nunca o escrevi, mas já o tenho contado oralmente muitas vezes em roda de amigos. E foi que procedendo eu à limpeza da parte superior do motor, no sítio onde se enroscava a vela de ignição, toquei ocasionalmente nela, apanhei um pequeno choque e vi saltar a faísca do meu dedo para a parte metálica mais próxima. Estava longe de saber que o corpo humano é um excelente condutor de energia, mas o caso despertou-me curiosidade. O choque não era de recear e vai de repetir intencionalmente a ação. Outro choque e outra faísca a sair do meu dedo. Só que cada faísca desviada do motor implicava a falta de explosão e o correspondente impulso no pistão que empurrava a biela e ela a cambota para o manter em movimento. À falta de corrente o motor soluçava.

MOTOR-3 - Cópia - CópiaMas, com soluços ou sem eles, eu é que não desistia da experiência. E se a primeira faísca saltou do dedo da mão que procedia à limpeza para a parte metálica próxima, não tardou que eu apertasse a vela com os dedos da mão direita e apontasse o dedo da esquerda a outra peça metálica distante. O caso resultava. O meu corpo era literalmente atravessado pela faísca.

Sabido isso, não raras vezes pus o motor a soluçar só para ver tão insólito fenómeno. E então pensei. Se a faísca atravessa o meu corpo e salta pela ponta do dedo, também há-se saltar por outro lado. Pus-me a jeito e com uma das mãos na vela e outra a segurar ...isso mesmo, aquilo que estão a pensar...e foi um regalo ver faiscar daquele jeito aquilo que nunca deixou de fazê-lo a vida inteira, sempre que havia vontade e oportunidade. E, case study  ainda hoje faz faísca.

Certo, porém, é que poucos ou nenhuns jovens passaram por essa experiência. Primeiro, porque os seus pais não tiveram uma moagem movida a motor de combustão. Segundo, porque eu aproveitando a experiência de uma faísca ao acaso, repeti intencionalmente a experiência, aprendi o que não sabia e posso dizer, com selo de garantia, que terei sido um dos poucos felizardos (senão o único) a fazer faísca por um sítio nunca pensado nem visto. Inaudito.

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.