Trilhos Serranos

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sexta, 25 maio 2018 08:25

JUSTIÇA UM CASO SÉRIO

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QUEM  ESTUDA...APRENDE...

Em Moçambique (há quantos anos, senhores?) antes de andar por aí espalhada, por tudo quanto é MÍDIA, a lamúria "ALÁ É GRANDE", já ela retumbava nos meus ouvidos proferida por negros quando se julgavam injustiçados por isto ou por aquilo. Apelavam à Justiça Divina já a Justiça Humana estava para eles desacreditada. E parece que não apenas pelos nativos. É isso que vejo no texto que transcrevo de "Ronda de África" de Henrique Galvão. Um belo texto, se calhar para surpresa de muitos que o conhecem apenas como protagonista do assalto ao Santa Maria. A esses remeto-os para o Google a fim de se certificarem das suas andanças pela Política, pela História e Cultura. 

O texto vem mesmo a calhar numa altura em que se fala no Museu dos Coches e do tempo que ele levou a construir. As políticas e as burocracias a emperrarem a engrenagem da máquina da governação e da cultura. Mas não só isso. Anda no ar um cheiro a esturro de requerimentos INDEFERIDOS nos nossos departamentos de JUSTIÇA e não sei mesmo que se, face a essa reiterada INDEFIRIÇÃO, o requerente injustiçado tenha de proceder como o oficial de Justiça que passou por Tete. Ora leiam:

"A psicologia das gentes que viveram e vivem em Tete sofria e sofre naturalmente destemperos e alterações, relativamente a uma psicologia colonial, já de si desviada de uma maneira de ser metropolitana ou europeia. Os indivíduos reagem aqui por nervos e miolos aquecidos, com a distância a pesar-lhes nas almas, por vezes sob as formas mais desconcertantes. Umas vezes o pessimismo doentio, negro que se intromete não só nas ralações sociais como também na apreciação dos problemas, outras vezes, o humorismo irreverente, imbuído de indiferença pelas consequências, cáustico e azedo.
Um alto funcionário judicial colocado em Tete e que por aí "passou" com demora de quase dois anos julgava-se com direito a umas ajudas de custo por serviço prestado anteriormente fora da comarca. A Fazenda, porém, não julgava a mesma coisa e informara sempre contra o desejo do funcionário os numerosos requerimentos que este já fizera, reclamando as ajudas de custo.
Tendo sido nomeado e empossado um novo director, entendeu haver mais uma oportunidade para fazer valer os seus direitos e requereu novamente. Encheu uma folha de papel selado com as suas razões de Direito e, expostas estas, comcluiu assim o requerimento:
"Deve o requerente esclarecer V. Exa. que já requereu o pagamento das referidas ajudas de custo por diferentes vezes. A primeira vez era mui digno director dos Serviços o Exm. Senhor Fulano, que informou contra o requerente. O senhor Fulano faleceu, se V. Exa. bem se recorda, algum tempo depois. A segunda vez era não menos digno director de Fazenda o Exmo. sr. Beltrano, que também, infelizmente, informou mal o requerimento reclamando estas ajudas de custo. S. Exa. sofreu então um grave desastre de automóvel de que resultou a amputação de uma perna. Requereu terceira vez, sendo também mui digno director de Fazenda o Exmo. Senhor Cicrano. Este Ex.mo. senhor, tendo informado contra o requerimento, foi mais tarde, por motivos que não importa referir, reformado compulsiva. Espera o requerente que o mui digno director de Fazenda a quem competir informar agora o requerimento tenha em conta os desígnios da Providência exercidos sobre aqueles seu colegas que justiça lhe negaram" (Henrique Galvão, "Ronda de África", 1941 sgs., fascículo n. 13, pp. 408-411)


Foto de Abílio Pereira de Carvalho.


Cf. Facebook 25/05/2015






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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.