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quarta, 02 maio 2018 13:42

CUJÓ - FEIRA MENSAL

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CUJÓ - A FEIRA MENSAL

Como escrevi no meu livro «Cujó, Uma Terra de Riba-Paiva», editado pela Junta de Freguesia em 1993, decorria o ano de 1927 quando uma comissão constituída por Salvador de Carvalho, Samuel Paiva e Pedro Duarte, diligenciou e conseguiu criar uma feira em Cujó a realizar todos os meses no «Largo das Carvalhas» = «Largo das Marinheiras», vizinho da «Eira da Fraga», no fundo do lugar.

 

 

Por razões de vária ordem não me foi possível, na altura, incorporar no livro o «fac-simile» da notícia que, com destaque bastante, o jornal «O Castrense», de 13-11-1927, fez do evento. Mas como «há mais marés do que marinheiros» ele aqui fica, agora, a fim do leitor poder confirmar o empenho que a «Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Castro Daire», encabeçada, na altura, pelo Dr. João Simões d'Oliveira,  pôs no caso, destacando o lugar de realização da feira, a sua  finalidade, os prémios a atribuir nas duas primeiras feiras e a afamada filarmónica de Vila Cova a abrilhantar o evento.

              

Teve assim início nesse ano, de 1927, a feira mensal de Cujó. Mas foi sol de pouca dura. Ao fim de nove meses extinguiu-se. Mas os habitantes de Cujó, sabendo do jeito que lhes fazia vender os vitelos, cabritos ou reses à porta de casa, em vez de se deslocarem à feira quinzenal do «Crasto», ou outra das redondezas, persistem em relançá-la. Constituiu-se uma nova comissão, novamente encabeçada por Salvador de Carvalho, agora coadjuvado por António Alves, José Ramos e António Duarte Pereira. E se o lançamento da feira anterior teve a sua divulgação na imprensa local, a comissão, desta vez, aproveitando a experiência adquirida com os lançamentos anteriores, mandou imprimir prospectos e através deles deu publicidade ao acto, bem como dos prémios pecuniários a atribuir a todos os lavradores que à feira acorressem. A abrilhantar o lançamento estava, desta vez, a banda filarmónica de Lalim.

Houve música, fitas e foguetes. Mas a feira também não vingou. Ao cabo de quatro anos enguiçou novamente. E novamente, em 1958, uma outra comissão formada por Abílio Duarte Pereira, José da Costa, José Duarte da Costa e, mais uma vez, Salvador de Carvalho à cabeça, deitou mãos à obra. E sem o aparato de que se revestiram os «lançamentos» anteriores, desta vez a «feira» veio para ficar. Mas para tal os lavradores, que eram os primeiros beneficiados pela sua existência, comprometeram-se com a comissão em colocar no espaço da feira os seus gados, mesmo que fosse «só para encher» até que ali acorressem os gados das povoações vizinhas atraídos pelas leis da necessidade e do negócio.

A comissão, por acordo prévio com a Câmara Municipal, garantiu aos feirantes que, tal como aconteceu em 1927, ficariam isentas de impostos, o que, desde logo, deu ao evento o carácter de feira franca.

          

Iniciada, essencialmente, para a comercialização de gados, a febre aftosa e a peste suína africana, bem como a consequente legislação proibitiva da circulação de animais no país, veio a terminar com esse tipo de negócio. Mas era tarde para a feira acabar. A estrada, as mudanças sociais, e os novos hábitos de consumo da população, conduziram a Cujó «vendedores ambulantes» com de roupas, chapéus, louças e tudo o mais que ali se vai vendendo e comprando, mês após mês, ano após ano.

Neste princípio do século XXI, quando retrocedo ao ano de 1927, eu que nasci em 1939, e vejo estes esforçados homens de Cujó, entre os quais o meu pai Salvador de Carvalho, nos tempos de estreitas veredas de comunicação e de cultura, a lutarem, com todas as dificuldades próprias da época, para que a sua terra natal fosse posta no mapa das feiras mensais do concelho e no mapa administrativo, como freguesia independente de S. Joaninho, pergunto-me o que mais posso fazer, em sua memória, do que reconhecer-lhes, na web, o quanto eles deram de si em benefício dos interesses colectivos da aldeia, do protagonismo que assumiram na História Local. De outros que, tal como hoje, se importaram e importam somente com a «sua vidinha» não reza a História.

Nota: este texto foi transcrito do meu velho site, onde pernanece há anos,  para este novo site, hoje mesmo.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.