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sábado, 25 maio 2013 17:58

ROL DOS PARDAIS (1)

Escrito por 
pardal pardal Abilio

Num livro das vereações da Câmara de Castro Verde, relativo ao ano de 1680, encontra-se uma decisão dos edis que ao tempo ocupavam o poder e bem assim o resultado dessa decisão, feita no ROL DOS PARDAIS que ficou registado na contracapa de pergaminho do mesmo livro. Eu transcrevo com todo o sabor da época.

«Aos quinze dias do mês de Abril de mil seiscentos e oitenta anos, nesta vila de Castro Verde, perante mim escrivão da Câmara, apareceu Francisco Guerreiro, porteiro deste concelho e por ele me foi dado fé que ele, por virtude e mandado dos oficiais da Câmara desta vila pregoava para toda a vila ao domingo na porta da igreja, saindo a gente da igreja para que todos tivessem notícia do pregão da postura da Câmara sobre os pardais em que o dito porteiro pregou que toda a pessoa, digo, cada morador deste povo, assim da vila como do termo da légua a dentro, trouxesse,  como era obrigado a trazer, em cada um ano, meia dúzia de pardais, sendo novos, e sendo velhos quatro, com pena de duzentos reis para o dito concelho em que seria condenada toda a pessoa que os não trouxesse este presente ano de mil seiscentos e oitenta e os levassem a casa do escrivão da Câmara para os haver por desobrigados e todos aqueles que lhe apresentassem a dita quantia de pardais e de como o dito porteiro, por mando dos ditos oficiais, pôs em execução e apregoando a dita postura da Câmara em que eu escrivão lhe ia ditando ele apregoando de que dou sua fé...»

Esta a decisão tomada naquele dia, mês e ano, mas na contracapa do mesmo livro, ficou o nome dos «contribuintes» e o número de pardais que cada um deles entregou. Ao todo foram 112 moradores, da vila e termo e 1.102 o número de pardais entregues.Ao nome de alguns moradores, para além da identificação da residência, junta-se a sua profissão: alfaiates, tecelões, almocreves, ferradores, sapateiros,  barbeiro, alfaiates, pedreiro, tendeiros.Ora, visando esta decisão a protecção das searas, nas quais os pardais, pelos vistos, faziam forte estragos e eram considerados uma «praga», verifica-se que ela se aplicava a toda a gente, como dizia a letra do «pregão» e não só aos agricultores.Mas o caso deve ter dado que falar no soalheiro vilão, pois a decisão veio a ser alterada posteriormente, e os moradores em vez de entregarem os «pardais inteiros, novos ou velhos», passaram a ser obrigados a entregar somente as «as cabeças» deles.

Não encontrando outra explicação, infiro que tal mudança procurou esvaziar de sentido, quiçá, a suspeita de que os pardais serviam para  saborosas arrozadas em casa do escrivão onde eram entregues. Numa só penada arrumou-se a questão. Uma atitude esclarecedora na relação entre governantes e governados.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.