Trilhos Serranos

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terça, 17 maio 2016 14:42

UTOPIA

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UTOPIA

Ontem, com o título em epígrafe, recebi surpreendentemente do meu ex-professor e Mestre Dr. Francisco Cristóvão Ricardo, o texto que se segue:


IMG 1567«Sou um jovem de 25 anos, licenciado em Sociologia, a tentar fazer o mestrado, desempregado, adorei estudar a História do meu país, admirei como “o plantador de naus a haver”, visionário, projetou a utopia de alargar a linha do horizonte e abrir espaços no mar, em ondas cavernosas, em buscas de povos outros, novas civilizações, novos espaços para a compreensão do mundo, trazendo para a realidade  essa utopia do século XIII. 

Pergunto-me, hoje, se será possível idealizar uma nova utopia que seja realidade para os meus filhos, os teus filhos, os meus netos, os teus netos.

Sei que as utopias têm vida curta, até há pouco tempo, no tempo do meu pai, agricultor, utopia seria uma máquina debulhadora que substituísse as ceifeiras a ceifar, curvadas de dores, o Alentejo do trigo, que substituísse o trilho nas eiras, que separasse palha e grão, que ensacasse o grão já limpo, utopia seria um trator acoplado a múltiplas relhas que substituísse o arado puxado por um mular para lavrar os campos, utopia seria uma moagem mecânica que moesse o trigo que substituísse o velho moinho de velas ao vento.

Para mim, sonho de adolescente, utopia seria ter na palma da mão as novas tecnologias da informação, ter um computador pessoal, telemóveis da última geração, WI-FIsmartphoneIphone, para comunicar e fotografar, vídeos, estas, do meu pai e as minhas, antes, utopias, são hoje realidades. 

FullSizeRenderPergunto-me com que utopia gostaria sonhar, eu, hoje, e que se transformasse em realidade nos tempos mais próximos, penso na paz entre os povos, na erradicação do extremismo jihadista, nas barreiras de muros e de arame farpado para travar a passagem dos refugiados, no fim da violência nos bairros e nas ruas, na abolição das armas letais, na violência doméstica.?

Penso no direito ao trabalho e não no emprego preguiçoso, porque só o trabalho dignifica, liberta e constrói, por isso, aboliria o trabalho a termo, o trabalho precário e das empresas de trabalho precário, aboliria o trabalho sazonal, mascarado de contrato a termo, mas tudo isto é miragem, tudo isto está no reino da utopia.

Penso na corrupção, esse cancro social que corrói, a fuga de capitais para os offshores, privando o país dos impostos, sustentáculos do funcionamento da despesa do Estado com vencimentos e pensões, do investimento que retire a economia do seu estado de anemia, mas tudo isto é miragem, tudo isto está no reino da utopia»

Penso na Justiça, a braços com a Operação Marquês, a operação Atlântico, os Vistos Gold, a Operação Yellow, a operação Aquiles, o enriquecimento injustificado, os Bancos que desapareceram, BPN, BES e Banif, crimes que ocupam grande número de juízes e de procuradores, donde, penso, irão surgir condenações, talvez seja miragem, talvez seja utopia.

Penso no fisco, nesse nosso inimigo de estimação, com ele vamos ao cinema, ao futebol, ao Continente, ao Pingo Doce, ao Mini Preço, à farmácia, ao Rock in Rio, ele vai connosco ao stand de comprar o automóvel, ele confere os nossos rendimentos, o imposto sobre o nosso capital, ele está no IVA desmedido, no imposto sobre produtos petrolíferos, e energéticos, sobre o tabaco, o IMI, imposto sobre os veículos e imposto municipal sobre a transmissão de imóveis, nas contribuições sociais, mas com a despesa sempre a subir, pensar que os impostos irão baixar é miragem, está no reino da utopia.

Penso na Liberdade que foi conquistada há décadas, a liberdade de expressão, de pensamento, de manifestação, julgadas irreversíveis, mas, quando a verdade é ditada pelos grupos editoriais, pelas agência de comunicação, pelo grande capital, a liberdade de expressão e de pensamento do jornalista, a soldo de grupos económicos, é uma miragem, está no reino da utopia.

Por isso, para isso, por ti, para que estas utopias, se tornassem realidades, daria os meus domínios, dias e anos de vida, entusiasmos e fervores, a disponibilidade, a dedicação a uma causa essencial, espalharia os aromas dos campos, os sabores originais, de antes dos tempos, as cores que acrescentaria ao arco-íris, e construiria o mundo de saberes, dos direitos, dos deveres, das garantias e dos prazeres»

Na volta do correio respondi-lhe assim:

Meu caro MESTRE


PICT0055 - CópiaAcabei o pequeno almoço tomado no café, coisa que venho fazendo por rotina. Abri o correio, também, por rotina, e eis que, pela janela dentro do Ipad me entra uma lufada de ar fresco carregado dos aromas da vida, do passado e do presente. Lembro-me de ter aprendido consigo (e isso ter ensinado aos meus alunos) a distinguir um texto estático de um texto cheio de movimento. Um texto com ideias em turbilhão como rio em dias de enxurrada, ou, então, pego de águas estagnadas de rio morto coberto de limos à espera de novas chuvas. E lembro-me da alegria que senti e da alegria que proporcionei quando eles, os meus alunos, numa folha de papel, descobriam que tudo estava lá. Preciso era saber escrever e ler.
Sobre este seu trabalho, esta sua excursão ou incursão nos espaços "mal frequentados" (como diz) não resisti a imaginar-me refastelado num dos bancos de sala do Gil Vicente, em Lourenço Marques, e assistir a um filme onde o realizador, anunciado em cartazes na entrada, a letras grandes - FRANCISCO CRISTÓVÃO RICARDO - com um pé na REALIDADE e outro no CRIATIVIDADE fez desfilar perante nós o mundo inteiro, o actual e o dos tempos idos. O mundo autêntico, tal qual ele é, carregados de pecados, vícios e virtudes em simbiose perfeita com o eterno e utópico mundo dos nossos desejos, das aspirações de toda a gente boa a desejá-lo mais justo e mais humano. Filme com os seus protagonistas todos a "fazerem pela vida". Uns, de rosto encoberto, quais fantasmas que se movem no escuro, ávidos de dominar o MUNDO, não olham a meios para atingir os fins. Outros, vítimas da ganância dos primeiros, laboriosos, rosto descoberto, sem perderem o sentido da justiça e do humano, vão dizendo o que sentem e pensam, enquanto não soa o grito de Ipiranga. E ele soará, no mundo da UTOPIA.
Mande sempre pérolas destas, meu AMIGO. Abraço».

Depois, por entender que se tratava de um texto que dignifica esta minha página, pedi-lhe autorização para publicá-lo aqui. Respondeu-me que nada tinha a opor. E o texto aqui fica para juízo dos leitores e amigos, com uma foto tirada  em Oeiras, em 2008, num encontro proporcionado pelo meu filho Nuro que me levou até junto do PROFESSOR que ele sabia eu tanto apreciava. e que já não nos víamos há muitos anos. A comoção é visível nos olhos de ambos e nos lábios que não conseguiram rasgar-se em sorriso.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.