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terça, 19 novembro 2013 14:55

O HOMEM DA NAVE (1)

Escrito por 

O CONTO QUE VOS CONTO

PRIMEIRA PARTE

A magia semeada pelas montanhas e pelos bosques não falta por estes sítios. É só descobri-la e colhê-la. Nestes lugares, ora assustadores, ora deslumbrantes, há sempre algo de novo que se depara ao passante, seja ele pastor, lenhador, pedreiro, explorador, caçador ou simplesmente eremita temporário que, nos tempos modernos, tal como os da Idade Média, aqui procura refúgio, fugindo da selva humana citadina, empestada de todos os poluentes físicos e morais.
Desta vez, os nossos olhos, esvoaçando pelas quebradas da Nave atrás de perdizes, quedaram-se num penedo de forma bizarra. Ele tanto parecia um  tortulho, um gasalho na sua juventude de «frade», à espera da idade adulta para assumir a forma de chapéu de chuva aberto, como parecia um pénis humano gigante fossilizado e, ainda, algo de semelhante ao foguetão que, do Cabo Canaveral,  lançou  no o espaço a primeira nave em direcção à lua.

Face ao achado, deixámos, por momentos, as perdizes em paz e dirigimos toda a nossa atenção para a inesperada descoberta. Que estranha coisa aquela! Não havia nela sinal de escopro de escultor humano, Macário, Cutileiro ou qualquer outro qualquer artista real ou de ficção, e, portanto, escultura humana não era. Não era uma peça daquelas ditas do «património construído», desse património urbano, torres, pontes, castelos, mosteiros, catedrais, igrejas e solares, que são a atracção clássica dos turistas, curiosos e estudiosos, raramente interessados nas coisas mágicas e encantatórias da natureza, das montanhas e dos bosques. O tamanho e o seu aspecto hirto e teso, levantado do chão e de ponta virada às nuvens, elevou à nuvens a nossa imaginação que, cada um de per si, nele víamos coisas diferentes, em resultado da nossa escolaridade, leituras feitas e experiência de vida.

Pénis-RedzO meu primo, Manuel Carvalho Soares, anos seguidos meu companheiro nestes andurriais da serra,  ligado profissionalmente à ciência médica, conhecedor de bisturis e de pinças, que fez a tropa em terras banhadas pelo Pacífico, que atravessou o Atlântico e o Índico,  que viu corpos mortos e mutilados, que lidou com suturas, pontos e ligaduras, ademais conhecedor das intoxicações resultantes da ingestão de cogumelos venenosos, inclinava-se para ver ali um tortulho, um gasalho, um «frade» petrificado e, ao mesmo tempo, o membro sexual masculino fossilizado de um gigante.

E ironizando com o achado, conhecendo alguns escritos meus sobre Aquilino Ribeiro, lançou-me o repto: olha lá,  tens aqui o Bilhete de Identidade d'«O Homem da Nave», um dos «Avós dos Nossos Avós», aludindo a duas obras do Mestre e desafiando-me a escrever algo sobre o assunto, semelhantemente às crónicas que, em 2008, eu havia publicado no Boletim Trimestral da Fundação, com o nome do escritor, sedeada em Soutosa, graças ao seu filho Aníbal.

Ambos caçadores encartados, a palmilhar seguramente os mesmos terrenos que, em vida, terão sido pisados pelo escritor, nós, que por convite e não por oferecimento, integrámos, por algum tempo, os órgãos sociais da Fundação Aquilino Ribeiro, nutrimos por este autor uma especial e natural simpatia e admiração.  E a sugestão que me foi feita para me embrenhar os tempos míticos dos gigantes na companhia de alguns protagonistas humanos que Aquilino tão magistralmente retratou nos seus livros, era uma forma de lhe prestarmos uma homenagem, de lhe associarmos uma outra grandeza, de mostrarmos  mais uma vez, a sua relação com a serra, com o mundo campesino e ao seu interesse pelo estudo do passado, próximo e longínquo, até aos avós dos nossos avós. Homenagem que seria extensiva ao filho primogénito, Aníbal, que, numa atitude descentralizadora, ao invés dos políticos e intelectuais que, por todas as vias, entornam Portugal para o mar e para Lisboa, deixou o «bem bom» alfacinha e veio entocar-se e morrer em Soutosa, neste interior de couves tronchas,  quase desertificado, terras «onde já nem os lobos uivam». Aqui, onde o pai montou a sua «banca de trabalho», quando os «lobos uivavam», aqui, até se lhe esgotar parte do bornal e da cabacinha, na sua condição de romeiro na estrada de Santiago estelar, metafísica e terrena.

E acrescia que essa homenagem, prestada por nós, assim, para não fugir à saibreira onde ele recolheu o barro para modelar as personagens da sua ficção, seria prestada «in loco», em plena serra, ornamentada com o aroma lilás da urze e rosmaninho, o aroma amarelo da carqueja, da giesta e do tojo e não numa qualquer mesa redonda de anfiteatro citadino,  ornamentada com flores de estufa, com adjectivos e metáforas rebuscadas por académicos eruditos,  estudiosos da obra aquiliniana, mas bastante longe do ambiente natural, erótico e pagão que as impregna. Algumas delas de cabo a rabo. Uma maneira rústica, muito nossa, de sermos aquilinianos, já que aquilinianos, se o adjectivo extravasar o sentido comum, há para todos os gostos: uns que lêem, estudam, comentam e divulgam a obra do escritor; outros que simplesmente o lêem e se encantam com as suas narrativas; outros que coleccionam os seus livros e nunca os leram; outros que utilizam sua obra como degraus na ascensão académica; outros que o citam ou parafraseiam; outros que vivem à sua sobra, tirando dela proveito e prestígio; outros que, repassando os seus livros em joeira de malha fina, mostram que tudo sabem sobre o autor e a obra, mas cheira a léguas que não se identificam com a ruralidade quotidiana expressa em muitas delas; outros, como eu, que salivamos os frutos dessa grande árvore da nossa Floresta das Letras, que silabamos a sua escrita  e não censuramos, nem omitimos o silabário revestido de erotismo, cheiro a sexo, ironia acutilante e denúncia da hipocrisia social do seu tempo, repúdio dos falsos valores éticos apregoados, mas não seguidos, para exemplo; outros que nunca o tendo lido, nem conhecido, com ele se identificam, como ele se mostram pessoas de carácter, de personalidade, «inteiriços como bárbaros». Não se deixam ir em modas, não se acomodam à hipocrisia social vigente em todos os tempos, rejeitam o «cultural e politicamente correctos» e a tudo o mais que, em dita homenagem sua, post mortem, os vivos fazem como lhes apraz, como entendem ou como lhes convém, em contraste flagrante com o pensamento que o autor verteu sobejamente nas obras que nos legou. E até um ledor desatento, pouco atreito a análise textual e a erudições académicas, descobre que a sua «alma» estrebucha para se libertar do templo onde, em nome da grandeza literária e dos valores culturais pátrios, a enclausuraram, ali, naquela igreja de Lisboa, onde a obrigam a respirar o incenso, sítio do qual se esforça almejadamente por escapar e poder esvoaçar livremente como a cotovia sobre as penedias das serras e dos bosques cheios  de faunos e mistérios a que ele deu vida com o aparo da sua caneta, qual fada, com a varinha mágica, a fazer e desfazer encantos e desencantos.

Feito o desafio, assim de rompante, logo ali, junto daquele fuste, daquele tronco petrificado da ÁRVORE DA VIDA, ali lhe disse que sim, que mais não fosse para fazer pirraça aos críticos que pouco a pouco vão diluindo o carácter revolucionário e republicano do escritor, moldando-o à semelhança das imagens dos santos que idolatram, todos os domingos, nos altares dos templos cristãos que frequentam, cumprindo os preceitos catequéticos. Os mesmos que, nos escritos e em palestras, se inibem de falar de sexo e disfarçam ou ocultam a filiação de Aquilino, pois, sendo filho «natural» de padre, é filho do pecado.

A matéria prestava-se a efabulação erótica, tão patente na obra do mestre, e eu logo me lembrei do gozo que me deu ser levado pela sua bendita mão até à Catedral de Córdova e, lá dentro, assumir o papel de Rafael e ouvir que «os cónegos da Catedral vivem na mais desenfreada luxúria, com mancebas e filhos à beira»;  ver o D. Basílio Luna y Manrique, o arcebispo, trepar ao altar e gemer «contra o corpo pálido e amoroso de Santa Inês. E era todo um abraço lúbrico, cheio de fogo e de estímulos, àquele tronco sensual, de tão forte humanidade. Cingindo-o, afagando-o, transparecia nele o desespero de não poder animar com beijos e soluços o frio e incorruptível mármore. E a sua dor, como vendaval, estorcia-se contra a imagem, que o cobria dum olhar enigmático e radioso».(Catedral de Córdova). Logo me lembrei de, agarrado à bárbara mão de Aquilino, descer à residência do Padre Claro, mais  obediente à companheira que ao Bispo, e ouvi-lo barafustar com o seu filho Isac, filho desnaturado, que lhe roubava o dinheiro, que lhe esvaziava o celeiro, «quarenta alqueires em dois meses», que lhe limpava a arca da ceveira, produtos que trocava por mulheres e sexo, que dava à Maria Amada, «mais corrida que os chinelos que traz calçados». (O Remorso). Logo me lembrei de ver Maria Benigna agarrada ao seu amado e confessar sentirem-se ambos espiados por um «antropopiteco de Cristo torcido no madeiro negro; deviam ver-nos e instigar-nos, adejando, é de crer, acima dos seus cofres funerários, os manes de Garret e João de Deus, poetas do amor; E de facto beijámo-nos sofregamente como nunca e nossas carnes se torceram dolorosas e insatisfeitas. Da bela catedral tão feminina nos colonelos, nos silhares de odalisca, na graça alada dos arcos, deve ter-se-nos propagado o frémito lúbrico. Deve, porque a minha alma saiu do templo ouvindo a mais voluptuosa melodia» (in «Maria Benigna»). Lembrei-me de tudo isto e de toda a toada semelhante que perpassa pelas páginas de «Andam Faunos pelos Bosques» e de «O Homem que matou o Diabo», sexo e erotismo a rodos em todas elas.

Por isto tudo, feito que me foi o repto junto do Bilhete de Identidade de «O Homem da Nave», logo prometi que se a minha memória, imaginação e criatividade se não tolhessem face à gigantesca tarefa, se recebessem o benéfico e impulsivo halo do Mestre, eu deixar-me-ia empurrar boamente para o tempo mítico dos gigantes e, liberto de tabus e de complexos de qualquer ordem, algumas linhas escreveria sobre o achado, garantindo que o borrão escrito em torno de tal imagem, sempre teria um cheirinho do seu estilo irónico e erótico. E mais. Se o escritor fosse vivo, atrever-me-ia a submetê-lo-ia ao fio da sua tesoura de poda e, das duas, uma: ele «tric-tric» cortava cerce o meu atrevimento, ou, sentado à sua roda de oleiro, modelava com este barro tosco, oferecido de mão beijada, o segundo tomo de «O Homem da Nave», colando-lhe, para lá da grandeza literária, a grandeza física proporcional à ao peça inspiradora.

E o prometido é devido. Mas se a minha missão se tornava difícil ab initio por falta de saber e de talento, estava, de certo modo,  facilitada pelo ambiente natural e anta-Reduzconstruído onde assumi o compromisso. É que, ali bem perto, se levanta a «necrópole neolítica da Nave», um conjunto de construções que nós hoje chamamos antas, ou dólmenes, esses túmulos/templos feitos com pedras que pesam toneladas e nos acicatam à descoberta das técnicas usadas pelos «arquitectos» ou «engenheiros» construtores. Ora, face ao novo achado, a haver homens com «ferramentas» daquele tamanho, podia, desde logo, garantir, contra todo o saber produzido pelos arqueólogos e historiadores, que aquelas construções não passam de brinquedos de crianças, as casinhas com que se entretinha a garotada neolítica. O pião era brinquedo do porvir na roda do tempo, minudência insignificante no tempo de gigantes.

De olhos postos na descoberta, não arredávamos pé. Miráramos e remiráramos o colosso, andámos em redor dele como os crentes andam em redor de um templo, cumprindo a novena ou a promessa que fizeram ao seu orago, a troco de um qualquer favor e deixando sempre a esmola na caixinha, pois sabido é que «santo que não rende é santo morto». Acabada a observação, trocadas opiniões díspares, nenhum de nós arriscou uma conclusão: prudentemente ambos nos ficámos pelo «parecer» e não pelo «ser». Conhecíamos bem as redondezas e aquele penedo era único, era espectacular e, que soubéssemos, ele não integrava nenhuma rota turística, nem livros que descrevessem a magia e o património escultórico erótico da serra da Nave. Só por isso, estava feita a caçada do dia. Valeu a pena. O caso seria levado à Internet, aos sites e blogues, aos posts do Facebook e, naturalmente, não faltaria matéria de estudo à Associação dos Arqueólogos e Institutos de Ciência virados para os fósseis animais e humanos, senão mesmo para os escultores que, nos fins do século XX e princípios do XXI, encheram as praças e as rotundas das nossas vilas e cidades com a renascida arte megalítica. Tudo feito à força de gruas, esses engenhos industriais com força de gigantes. Quem assiste à sua colocação e se lembra das antas e dólmens deixa escapar a expressão popular "antigamente é que havia homens".


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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.