Trilhos Serranos

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terça, 19 maio 2020 09:47

MUNDO DOENTE (11)

Escrito por 

CONVENIENTES E INCONVENIENTES DO CORONAVÍRUS

Como cidadão que se preza de cumprir os seus deveres e obrigações, nomeadamente as tributárias, ponho em igual pé, que os meus direitos sejam respeitados, nesta minha cívica relação entre governantes e governados.

 

PRIMEIRA PARTE

MARCADAAEste ano, como todos os outros, recebi, em papel, na minha morada, proveniente da AUTORIDADE TRIBUTÁRIA E ADUANEIRA, o aviso de que o IMI, correspondente ao ano de 2019, estava a PAGAMENTO no mês de maio.

Como poderá ler-se no “fac-símile” anexo, não se vê nele qualquer informação alertando o contribuinte de que o PAGAMENTO só poderia ser FEITO mediante MARCAÇÃO PRÉVIA.

Sem essa informação, com inteiro respeito pelo regime de “confinamento” e pelas normas públicas estipuladas relativas ao “distanciamento social”, no dia 15 de maio p.p., meti a máscara e dirigi-me à Repartição de Finanças de Castro Daire, disposto a cumprir a essa minha obrigação.

Porta fechada, no exterior havia já algumas pessoas amigas à espera e fui informado por elas de que eu só pagaria o IMI, por “MARCAÇÃO PRÉVIA”. Bastava ligar para o telefone 217 206 707, ali espetado na vitrina.

Estranhei o facto, mas foi o que fiz de imediato, usando o meu telemóvel. E, como sempre, do outro lado, veio a lengalenga do costume. Uma voz gravada a mandar-me clicar no número UM, se for para isto e no número DOIS se for para aquilo.

1-AVISO TELEFONEPreso à máscara pelas orelhas, óculos embaciados, mirei o ecrã do telemóvel e nem UM, nem DOIS, nem coisa nenhuma. Virei-me para os CONTRIBUINTES que ali aguardavam vez, alguns dos quais conhecem esta minha relação com a COMUNICAÇÃO SOCIAL, e logo ficaram cientes de que eu iria “desabafar” publicamente sobre este mau funcionamento da AT, pois até para receber impostos, cria dificuldades aos contribuintes que voluntariamente se dispõem a cumprir as suas obrigações. Claro exemplo de um atestado de menoridade às CHEFIAS LOCAIS, incapazes de organizarem por si o atendimento dos contribuintes. E, antes pelo contrário, se submetem servilmente às diretrizes saídas de Lisboa, aplicáveis a realidades distintas.

É o velho e relho CENTRALISMO que combato há anos, pugnando pela REGIONALIZAÇÃO. A Repartição de Finanças de Castro Daire, tem áreas interiores e exteriores bastantes para os cidadãos/contribuintes poderem cumprir as suas obrigações, mantendo o distanciamento social exigido. Não se entende, pois, que não sejam as CHEFIAS LOCAIS a organizar a forma de atendimento, sem as exigidas BUROCRACIAS da MARCAÇÃO PRÉVIA, através de telefone de Lisboa.

 

SEGUNDA PARTE

Não tendo desligado o telefone, eis que ouço uma voz do outro lado da linha. Não foi preciso clicar no UM, nem no DOIS. E não sei se a senhora que me atendeu, ouviu, em fundo, o meu protesto junto dos meus amigos e conhecidos.

MARCAÇÃO-2020Certo é que o meu desaforo amainou, face ao atendimento civilizado e paciente da senhora que comigo entabulou conversa, sem necessidade de proceder a esses formalismos impessoais. E bem se esforçou ela para fazer-me entender a “bondade” da diretriz posta em prática naqueles serviços públicos. Repartições fechadas para evitar a propagação da PANDEMIA, eu podia pagar o IMI nos CORREIOS, na CAIXA MULTIBANDO e até da minha casa, se estivesse apetrechado com a tecnologia necessária. E fazê-lo sem o perigo de contaminar ou ser contaminado.

Dada a gentileza, a paciência e a civilidade daquela senhora (que aqui sublinho) fiz-lhe ver que eu sabia disso tudo, mas queria manter a relação social que tenho, há anos, com os funcionários da Repartição, pois era uma forma de, à minha maneira, combater um VÍRUS ANTISSOCIAL que veio, com a má sina, de proibir e acabar com a natural relação humana entre familiares, amigos e conhecidos.

Não lhe disse que já tinha escrito 10 CRÓNICAS sobre tal facínora com o título “MUNDO DOENTE”, denunciando que tal figura, coroada embora, tinha atingido a ESSÉNCIA HUMANA, na sua natureza gregária de trato, de tato, de cumprimentos, afagos e abraços.

Não foi preciso chegar aí. A senhora, de seu nome CARMELINDA PERDIGÃO, no seu papel de FUNCIONÁRIA PÚBLICA, deu-me, em direto, um exemplo de civismo e educação que devia ser seguido por todos aqueles que, por detrás de um balcão, atendem os contribuintes, ao fim e ao cabo aqueles que justificam o seu emprego e lhes pagam os seus salários.

Pediu-me o meu número de contribuinte e apressou-se a fazer-me a MARCAÇÃO para segunda-feira, dia 18, às 9, 10m. Tomei nota oralmente, mas, na sequência do diálogo, não tardou a entrar na minha caixa do correio o documento oficial a CONFIRMAR O DIA E A HORA do meu PAGAMENTO PRESENCIAL. Documento que aqui anexa. E nele se lê a infalível nota despersonalizada: “MENSAGEM GERADA AUTOMATICAMENTE. POR FAVOR NÃO RESPONDA A ESTE E-MAIL, A SUA MENSAGEM NÃO SERÁ LIDA NEM ENCAMINHADA”.

Pois. E foi na sequência destas démarches que fui cumprir o meu dever cívico. Fui atendido às 9, 20 pelo funcionário Amaro Lemos, a quem tive de perguntar o nome por ele ter o rosto sob a máscara. Gentil e desembaraçado, merece a nota positiva deste velho professor, habituado não só a avaliar o produto, mas também o processo. Reparei que era o único guichê aberto e que todo o espaço interior da Repartição estava vazio. No exterior aguardavam 3 contribuintes, quando saí.

TERCEIRA PARTE

Face a essa realidade pareceu-me que o CORINAVIRUS, esse ser microscópico, ANTISSOCIAL, que fez parar o mundo, que pôs os aviões em terra, que esvaziou transportes públicos, que fechou as repartições e as escolas, que nos confinou a todos (ricos e pobres) nos nossos aposentos domésticos e nos privou do contacto com familiares e amigos, mais não fez do que juntar-se a outro VIRUS ENDÉMICO que, há muito, afeta a nossa sociedade e dá pelo nome de BUROCRACIA.

GarfosPrimeiro eram os papéis, só papéis, montanhas de papéis. Agora são telefonemas prévios e nada de “atendimento personalizado”. Isso é para outros prestadores de serviços que têm de angariar clientes com vista a faturarem para poderem manter os negócios, pagar aos empregados e os impostos correspondentes. Pois é, mas as FINANÇAS dispensam essas gentilezas. Repartição vazia, os contribuintes que se amanhem, os impostos estão estipulados e garantidos.

Na SOCIEDADE DO CONHECIMENTO e da informática chegou o SIMPLEX, as novas tecnologias, o correio eletrónico, e, com eles, o corte rente das relações humanas, olhos nos olhos, a fazer de nós robôs e, com raras excepções, a comunicar com robôs. A demonstração ficou naquela nota escrita, acima sublinhada a negrito e letra maiúscula. É o mundo em que estamos. O “MUNDO DOENTE”, que doente já estava antes de ter chegado o CORONAVÍRUS.

Exemplos? Se o telefone avaria, a comunicação aos serviços tem por resposta música, seguida da informação clic no número X ou Y. No que respeita ao consumo de energia elétrica, se o funcionário respetivo não vem fazer a leitura do contador, no ato de comunicar da leitura por telefone, idem, idem, aspas. Uma epidemia, à qual se juntou a mais recente das videochamadas, videoconferências, com emissores e recetores distantes, imagens e conversas distorcidas ou empasteladas, as desculpas dos prestadores de serviço pelas “dificuldades técnicas”, e/ou interrupções, etc, coisa e tal.

Sou um costumeiro usufrutuário das novas tecnologias e disso dou provas públicas nos meus trabalhos escritos e em vídeo. Mas não me impinjam como sendo bom, o que elas têm de malévolo nas relações humanas, nomeadamente a conversão do animal físico, social e gregário que somos há milénios, com identidade própria, num qualquer “animal virtual”, anónimo, inumano sem o calor dos afetos e dos sentimentos. Sem história. Criaturas, simultaneamente presentes/ausentes, ser/não ser, estar/não estar, cultivando relações sociais e amizades individuais que se evaporam tão rapidamente quanto a velocidade imprimida pelos polegares a fazerem deslizar, para baixo ou para cima, a tela dos Smartphones e quejandos. De preferível os últimos modelos da marca. Dá estatuto social e permitem alojar as aplicações para todo o tipo das vãs e volúveis futilidades de entretenimento, saídas da imaginativa e criadora mente de engenheiros informáticos. Dispenso-me de exemplificar. As redes sociais têm glosado à exaustão, com humor cáustico e inteligente, todos os membros da família e/ou par de namorados, sentados à mesa de um restaurante ou em ambiente doméstico, agarrados aos telemóveis, sem falarem uns com os outros. Uma lástima, neste MUNDO DOENTE.

QUARTA PARTE

Pois. Mas chegou o CORONA que obrigou ao CONFINAMENTO SOCIAL, ao afastamento físico de familiares a amigos e ao consequente e necessário uso obrigatório das novas tecnologias de comunicação. Aqui d’El-Rei! Em cada lar, em cada fábrica, em cada restaurante, em cada sítio, instalou-se angústia e a ansiedade. Gente, falta gente. A necessidade e desejo do contacto físico e de convívio. De ver, ouvir e falar pessoas, gente presente, sem mediação tecnológica, voz empastelada e imagem distorcida.

ComputadorValterAqui d’El-Rei! E a lição, assim vivida, se aprendida e duradoura, não veio de qualquer universidade de renome, nem da qualquer catedrático badalado nos fóruns científicos. Veio de um ignoto e desconhecido VÍRUS, microscópico, invisível a olho nu, que, em 2019, resolveu mostrar a sua existência, algures na poderosa e expansionista China, e reclamar o direito à vida e à sua reprodução como todo o ser vivo que povoa o planeta TERRA. Apenas mais um, entre tantos, a obrigar-nos a encontrar imunidade para sobrevivermos. Uns sim, outros não, o que bem faz lembrar a figura de Darwin e a sua firme teoria da EVOLUÇÃO.

E assim, nesta confusão veloz, vai o mundo. E a prosseguir nesse tipo de relação, por mais engenhoso que seja o processo destinado a ludibriar a ESSÊNCIA HUMANA na nossa relação com o semelhante e com a natureza, o paradigma de vida adotado e seguido deixará, seguramente, sequelas mentais profundas. E elas vertidas serão, seguramente, nas atitudes e comportamentos de todos os sobreviventes. Felizmente já não estarei cá para ver e contar.

Mas como ainda cá estou, mais uma vez denuncio os efeitos negativos do CENTRALISMO POLÍTICO-ADMINISTRATIVO, GLOBALIZAÇÃO, do CONSUMISMO, da POLUIÇÃO, do AQUECIMENTO GLOBAL e consequentes ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS, a MORTE ANUNCIADA DO PLANETA “TERRA” por força do que se convencionou chamar PROGRESSO.

E eu, que tenho azedume público “ao antigamente é que era bom”; que escrevo sem papel, sem caneta e sem tinta; que filmo sem película; que penso serem as coisas, todas elas, ferramentas de trabalho, de estudo e entretenimento (desde o garfo e a faca, que nos ajudam a alimentar o físico, ao computador que nos ajuda a alimentar o espírito) a nossa extensão humana, eu, que nesta minha rusticidade, dando vasão à energia telúrica que me entrou no corpo pela sola dos pés durante os anos que calcorreei quilómetros descalço por trilhos, montes e caminhos, eu, com 80 anos de vida, que canto loas e hinos à “inteligência e criatividade humanas”, não, não vou por aí, sem reflexão e sem protesto.

Ele aqui fica por escrito e em vídeo. Ciente embora de que esta minha postura cívica, se for lida, nem sequer será percebida por todos que, em consciência, na sua profissão promovidos são,  pelo saber não, mas pela servil obediência.

 https://youtu.be/7CWgim3F2zk

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.