Trilhos Serranos

Está em... Início Crónicas BICHO CARETA
quarta, 20 novembro 2019 14:26

BICHO CARETA

Escrito por 

ENCRUZILHADAS DA VIDA


Passeando-me, há anos, por todo o concelho de Castro Daire em trabalho de investigação, isso me permitiu falar com muita gente e ampliar os meus conhecimentos sobre a nossa terra e as nossas gentes. Conheci e falei com pessoas de diferentes níveis etários e de escolaridade. Algumas dessas pessoas dispensavam-me a “apresentação”. Quando eu me dispunha a fazê-lo antecipavam-se e diziam-me: “eu conheço-o do jornal e leio o que lá escreve”. Outros, para surpresa minha, não faziam a mínima ideia deste “bicho-careta”. Não liam o jornal nem lidavam com as História e com as Letras e edições locais.

Quando isso acontecia apresentava-me dizia ao que ia. Tomava assento do que me diziam acerca do meu assunto de pesquisa. Essa experiência de vida no terreno foi enriquecedora para mim, como pessoa e como professor. Devo tudo às pessoas que subiram ao nível de cidadania e literacia que não dispensavam a leitura do jornal da terra e àquelas que, agarradas à enxada e ao baralho de cartas, no café ou associação recreativa da aldeia, se satisfaziam com a rotina de vida camponesa que seguiam e herdaram dos seus avós. Para todas vai o respeito e consideração deste “bicho-careta” que, calcorreando o concelho, mais não fez do que tentar despertar nas nossas gentes, através do conhecimento e do estudo, algo mais do que o apetite pelo jogo do dominó, pelo jogo das damas ou pelo jogo da bisca lambida.

I - CARTÃO “VIVER+”

O mesmo não aconteceu porém, quando, aos 80 anos de vida, me dirigi ao departamento municipal, criado para o efeito, com vista a possuir mais um cartão identificador da minha pessoa e juntá-lo ao desdobrável onde acomodo os demais cartões que me foram passados ao longo da vida: o B. de Identidade, ao cartão de aluno na faculdade, cartão de sócio desta ou daquela associação (e foram algumas) associações desportivas, de comunicação, de voluntariado, etc. etc. etc. Muitos cartões, tantos que, mesmo que nem toda a gente “me passasse cartão”, poderão chegar para fazer um fole de concertina.

ROSTO - CópiaO último, com efeito, é este mesmo, o cartão “VIVER +” que contém os dados identificadores do cidadão que escreve estas linhas, a saber, na frente, em rodapé, a entidade emissora, o meu nome, a “facies”, retirada da Internet por escolha simpática das senhoras que estão encarregadas desse serviço burocrático-social, a funcionar nos fundos do “Centro de Interpretação e Informação do Montemuro e Paiva”, sito na Casa Brasonada dos Mendonças, património municipal por compra.

Creio que a opção dessas senhoras por essa fotografia (havia outras disponíveis) postada na face do cartão, se deveu não só à sua simpatia pessoal, mas também por entenderem que ela estaria mais conforme a jovialidade do “geronte” que lhes apareceu ali, inesperadamente, a pedir informações sobre o funcionamento das TERMAS DO CARVALHAL, de que falarei mais adiante. Na parte posterior do cartão as “regalias” concedidas ao possuidor, como poderão ler-se na foto digitalizada.

Encruzilhadas da vida. Uma dessas senhoras tinha sido minha aluna - a Alexandra - e a outra - a Sofia - não foi, mas, vejam só, foi o marido dela, pelo que (reconhecido que fui imediatamente como sendo o professor da mota) eu me senti efetiva e afetivamente entre pessoas amigas e não apenas entre funcionárias que, no seu emprego, cumprem as obrigações decorrentes. Diferentemente das pessoas que, na serra, durante os meus trabalhos de investigação, me viam pela primeira vez e, desconfiadas só se abriam comigo depois de chegar uma terceira pessoa que me cumprimentava e lhes dizia quem eu era e que “ia por bem”.

E por bem fui eu àquele departamento municipal. Tal se deveu ao facto de eu andar a sentir na pele as mazelas da idade e, sabedor da existência de ÁGUAS TERMAIS dentro do meu concelho, procurar beneficiar dos seu efeitos mimerais, frequentando-as.

Que sim, senhor, mas aconselhavam-me a possuir o cartão “VIVER+” pois isso me trazia algumas regalias e descontos em prestações de serviços que dependessem da ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL, conforme a minha «folha de rendimentos».

Não era novidade para mim a existência de tal gabinete, pois tenho acompanhado atentamente as decisões dos Executivos Municipais (do passado e do presente) que resultam em prejuízo e/ou benefício dos munícipes.

VERSO - CópiaE esta é, francamente uma daquelas iniciativas que veio ao encontro de uma necessidade sentida pelos mais idosos, sobretudo aqueles que, com acentuadas marcas da ruralidade sem escrita, mal afeitos ao alfabeto (os tais que, na serra, nunca leram um jornal) e, por consequência, avessos ao preenchimento de documentos, aqueles que se sentem mais à-vontade a lavrar uma jeira de milho no socalco da serra, do que a lavrar a sua assinatura num documento burocrática indispensável a qualquer processo que resulte em benefício seu, como cidadãos que são e que a tais benefícios têm direito.

Estive atento à criação deste gabinete e às críticas que, ao tempo, recebeu tal iniciativa. Ela mais não visava do que a “caça ao voto” dos idosos. Uma forma de amarrar toda a gente com baixo grau de literacia, tornando-a dependente de serviços e favores. Tanto mais que uma das regalias incorporadas no cartão (ver foto) era o seu detentor poder viajar “de borla” nas «carreiras interurbanas»  que às aldeias chegavam a buscar os alunos e para a vila vinham, dando-lhes assim a possibilidade de se deslocarem à sede do concelho, tratar de negócios ou da saúde, sem os custos acrescidos da viagem e, por essa via, poupar alguns cobres da sua reforma de camponeses.

Conhecedor do “soalheiro vilão”, cheguei a discordar calorosamente com alguns cidadãos que se mostravam frontalmente contra essa medida executiva. Ía contra os seus interesses profissionais. Pouco lhes interessava o “benefício social” se tal medida colidia com os seus interesses pessoais.

Eu, sem me deixar arrastar pela ventania,  deixei “zoar a carvalheira” e argumentei que até tinha razões de sobra para não “ir à missa” com o então Presidente da Câmara, Fernando Carneiro, mas tinha de reconhecer que essa iniciativa, pelos benefícios sociais que contemplava, merecia todo o meu apoio e era uma medida acertada. E fiz saber que os meus juízos e críticas sempre se pautavam por VALORES de interesse geral e jamais se circunscreviam à tabela de amizades, compadrios ou identificação ideológica.

De resto, se nos meus textos e vídeos, com evidente marca descentralizadora político-administrativa e cultural, eu tenho cantado hinos aos “HERÓIS DA TERRA” silenciados face aos “HERÓIS DO MAR” (é só ler e investigar nos suportes de escrita ou vídeo que utilizo) e preconizo iniciativas políticas que valorizem os verdadeiros “CONQUISTADORES, POVOADORES E LAVRADORES”  espalhados por estes montes fora, aqueles que, agarrados ao seu torrão natal, mantém de pé este PORTUGAL PERIFÉRICO E DESERTIFICADO, contraditório seria comigo mesmo se questionasse negativamente tal medida política.

Nunca fiz fretes aos PODERES INSTITUÍDOS. Nem pauto os meus critérios de avaliação baseados nas cores partidárias sob as quais foram eleitos. Isso é público e notório, mas aqui o reitero, por via das dúvidas.

Outro exemplo? Ei-lo. A minha recente postura sobre a tão badalada requalificação da Av. Sá Carneiro e o consequente e necessário abate de árvores ao longo dos passeios. E mostrei com fotos que não tinham razão os “críticos”. As árvores, adultas e robustas, que ladeiam, a todo o seu comprimento, as grades de separação da Escola Secundária e a Avenida requalificada chegam para dar sombra e oxigenação ambiental. Basta que as deixem crescer e expandir conforme é da sua natureza. Não metam nelas “PODAS” amputadoras e desnecessárias.

Recebido que foi o CARTÃO na minha caixa de correio sob carta registada e aviso de receção, só tive que deslocar-me à Estação dos Correios e cumprir as formalidades exigidas. Assinar os papéis e, enfim, aos 80 anos de idade me tornar portador de mais um CARTÃO, cujas faces deixo reproduzidas, acima, sei lá se para irritação e desagrado de todos aqueles que, no trato e no viver (+/-) dão claramente mostras de não “me passarem cartão”.

II - TERMAS DO CARVALHAL

sÁ cARNEIRO-2Mas voltando ao cartão “”VIVER+” e lembrando que a sua aquisição se deveu ao meu interesse em usufruir os efeitos das águas termais concelhias - TERMAS DO CARVALHAL - sobre cuja história tenho quilómetros de escrita publicados, tomei as diligências que entendi necessárias para iniciar o respetivo tratamento. E vem a propósito lembrar que, em 2010, fiz um DVD de 50m, com o título “UM TESTEMUNHO DE VIDA” no qual é protagonista o Dr. Jorge Ferreira Pinto (entretanto falecido) que, enquanto Diretor Clínico responsável que era por aquela nossa Estância Termal, me explicou, a mim, e ao mundo as caraterística minerais destas águas e as valências de tratamento disponíveis ao público.

A diligência tomada, no sentido de colher todos os esclarecimentos burocráticos necessários, foi dirigir-me, por escrito, aos responsáveis pelo funcionamento daquela estância termal. Fi-lo, por e-mail, na sexta-feira, dia 08-11-2019, para o endereço eletrónico disponível, “ Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar. ” e, por estranho que pareça, em tempo de correio eletrónico, só no dia 18 p.p. recebi, também por e-mail, a informação solicitada, redigida em termos lineares, bastante esclarecedores e rematada com os cumprimentos cordiais e civilizados usuais entre pessoas educadas e de bem.

Conhecedor das burocracias e trâmites a seguir, agradeci a informação dizendo que “ficava ciente”. Portanto, a partir daí, apto a decidir quando quisesse deslocar-me ali, e, mais uma vez, conhecer, por dentro, o funcionamento desta nossa Estância Termal sob a administração do Município.

Ler 163 vezes
Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.