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sexta, 05 julho 2019 13:55

«BRIGADOIRO» OU «BRIADOIRO» DOIS TOPÓNIMOS PACÍFICOS

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A SERRA, EU E OS OUTROS

Ali, ao lado da nova estrada que liga Mós a Faifa (e vice-versa), com traçado próximo do antigo “caminho carreteiro” que vemos nas cartas militares, não menos antigas, encontrei, no ano de 2017, um CRUZEIRO granítico assinalado nessas cartas, tão curioso quão enigmático, pelos símbolos que lhe dão corpo. Um cruzeiro seguramente singular.

 

PRIMEIRA PARTE

5-BRIADOIRO-4 - CópiaPorque toda a obra humana me interpela, por mais rústica e solitária que seja, fiz eco disso no FACEBOOK com fotografia e tudo, solicitando aos amigos que opinassem sobre ele. Caso conhecessem outro semelhante me informassem. Não fui bem-sucedido nesse ensejo. Por isso, e passado todo este tempo, cá estou eu de volta, não sem reconhecer a minha “burrice” de esperar que, nas páginas de um livro aberto com tal título (álbum de fotografias), alguém se dispusesse a “postar” algo que ultrapassasse as suas fronteiras pessoais e emotivas, deixando-se enredar na teia de reflexão mais profunda sobre o amplo mundo material e espiritual que o rodeia.

1-talegra-MontemuroÉ que, tendo eu corrido montes e vales, como caçador que fui de perdizes, pernas de galgo a bateram terreno, digamos toda a extensa área geográfica que vai do “talegre” colocado na cota mais alta da serra do Montemuro até ao “talegre” levantado no topo da serra da Nave (Leomil) e dali até à LapaSernancelhe e Penedono, tudo em redondo (deixo de fora terras do Alentejo) área que inclui vilas, aldeias, poviléus, choupanas e cardanhas, de pé ou em ruinas, esqueletos pétreos da aventura humana que povoou este Portugal periférico, polvilhando cerros e encostas com templetesermidas e cruzeiros nos caminhos e encruzilhas, em toda esta área, dizia, fartei-me de ver obras dessas, mas igual ao que se levanta na serra do Montemuro, no sítio do BRIGADOIRO ou BRIADOIRO, nenhum.

2-TALEFE-NaveAlguns eram simples e grosseiras cruzes latinas de tamanhos vários. Assentes em plinto levantados do chão ou empoleirados em cima de um penedo, isso bastava para despertar, no passante crente, a morte de Cristo e a sua subida ao céu. Outros apresentam um nicho escavado, onde geralmente se abriga a imagem de um santo ou santa, ou então, uma tábua pintada com figuras humanas “naïf” em estado de sofrimento: são as ALMINHAS DO PURGATÓRIO a despertar no caminheiro a piedade de uma oração, de um padre-nosso, uma ave-maria, senão mesmo a desfiar todas as contas dos cinco mistérios do terço, gastas pelo uso e cotão da algibeira.

Vi tudo isso. Cruzeiros postos ao ar livre, saídos de ponteiro e maceta de pedreiro com picada grossa e outros abrigados em templetes com colunas e capiteis artísticos. Cruzeiros nos ex-votos de madeira pendurados nas paredes de ermidas remotas a lembrar um milagre concedido pelo orago. Todos eles a despertarem no crente a lembrança de outro mundo, daquele mundo invisível que está para lá da matéria táctil, palpável e ao alcance da vista. Para onde quer que me virasse, não faltavam CRUZES, ERMIDAS e ALMINHAS. Eles e elas eram e são a marca do vencedor cristão contra o vencido mouro durante a RECONQUISTA CRISTÃ. E muitas dessas marcas substituíram as anteriores marcas pagãs. Ficaram, porém, as LENDAS DAS MOIRAS ENCANTADAS. Mas certo é que todo sítio, onde uma pessoa teve morte repentina, ou, em momento aziago de briga ou assalto, houve morte de homem, uma cruz se levanta a lembrar o evento e a solicitar uma oração para sufrágio da alma que ali se separou do corpo.

Pois entre tantos CRUZEIROS vistos no mundo que pisei, surpreendeu-me esse cruzeiro do BRIGADOIRO ou BRIADOIRO, ali, entre Faifa e Mós.

3-BRIGADOIRO-COTOVIA.2017 - CópiaPousando nele os meus olhos, vejo lá uma cotovia, uma calhandra, uma laverca, prestes a levantar voo, prestes deixar a terra e a romper os ares naquele seu característico chilrear “pliu...pliu...pliu...que não deixa nenhum amante da natureza indiferente. E foi isso que ela fez quando viu aproximar-me. Chilreou, bateu as asas e leve subiu ao céu, deixando na terra o pesado pouso granítico, o objeto da minha curiosidade.

Rodando em torno dele, verifiquei que, na sua origem, ao ser ali colocado, era um monumento igual a tantos outros: um cruzeiro lavrado em granito, com um nicho aberto na testa, no encontro dos braços e no qual foi abrigada a imagem de um santo ou santa.

Mas, posteriormente a isso, não curei de saber ao certo, como e quando, esse nicho e santo foram tapados, enclausurados por uma ESTRELA DE CINCO PONTAS INVERTIDA, um PENTAGRAMA moldado em ferro com os panos triangulares preenchidos de folha de fladres, folha estanhada, resistente à erosão das chuvas, ventos e neves.

8-PENTAGRQAMA - CópiaParo. Escuto e olho. E ouço a voz longíngua dos adultos, na serra, nos montes e nas aldeias, a chamarem “judeus”, “estanhados”, “diabinhos” a todos os meninos traquinas, cujos comportamentos se desviavam das adultas regras comunitárias. E ao ouvir essas vozes, ecos distantes do outro mundo, pergunto-me o que terá levado alguém a colar na testa de um CRUZEIRO, símbolo cristão, exatatamente no sítio onde se cruzam os braços, uma ESTRELA DE CINCO PONTAS INVERTIDA, o PENTAGRAMA que os entendidos na matéria espiritual dizem ser “símbolo bastante utilizado pelos satanistas medievais como uma forma de representar o oposto dos dogmas do cristianismo” [já que] o pentagrama invertido apresenta uma das pontas para baixo e duas pontas para cima, uma clássica representação a Baphomet, uma divindade pagã que é associada ao ocultismo e satanismo”. (wikipédia)

Sem resposta para as minhas interrogações, perguntava-me a mim próprio se quem isso fez conhecia o significado da ESTRELA assim colocada, ou isso resultou tão somente da sua melhor acomodação ao espaço disponível, sem outro significado que não fosse associar à MORTE DE CRISTO - o CRUZEIRO - a ESTRELA que anunciou o seu NASCIMENTO. Ainda que, enclausurar um santo ou santa no seu nicho, privando-os de ver o mundo, tal qual estão, denuncie intenções invulgares e/ou ocultas.

5-AMÉLIA-3 - CópiaE perdia-me eu nestas congeminações, quando se aproximou uma pastora da aldeia de Mós - Maria Amélia Soares Botelho Ribeiro - rodeada pelo seu gado. Perguntei-lhe de chofre como se chamava aquele sítio, aquele ermo, coberto de carquejas, giestas, queirós e mais arbustos serranos, ali, onde se levantava o CRUZEIRO:

- Chama-se BRIGADOIRO. (Ver vídeo “PASTORA DE MÓS”)

E tal nome derivava de ser ali que os pastores das povoações vizinhas faziam “BULHAS, BRIGAS” por causa dos montes em redor ou em dias de regresso das avinhadas feiras ou romarias, nas quais era regra porem-se em dia rixas antigas.

- Eles brigavam tanto que ‘intigamente’ eram apartados pelas mulheres e, de tanta porrada, vinham numa “manta”.

Na linguagem popular há expressões únicas, tilintantes e saborosas. Da oralidade fluente e simples de uma pegureira brotam espontaneamente comportamentos sociais que, estando fora dos pergaminhos e de bibliotecas citadinas de renome, são eco de verdades camponesas antigas acantonadas no consciente ou subconsciente de gerações analfabetas ou de poucas letras.

AMÉLIA GADO-3 - CópiaE talvez haja quem não saiba (e até conteste, ou negue) mas aqui se lembra, com oportunidade, que ainda não vai longe o tempo que registava esporádicas quezílias entre povoações vizinhas. Geralmente ligadas ao usufruto dos montes por causa dos pastos, lenhas e estrumes e até divisão de águas. Tempos que fizeram nascer alcunhas jocosas e depreciativas que esses vizinhos se atribuíam reciprocamente. Um mimo. Dei conta disso no meu livro “Ester, Pegadas no Tempo”, editado no ano no ano 2007. Livro onde tratei a “demanda” que correu seus termos no Tribunal Judicial da Comarca de Castro Daire, opondo os moradores das freguesias de Pinheiro e de Ester, exatamente por causa de baldios e a sua exploração comunitária.

Mas nem todas as contendas chegavam aos tribunais. Às vezes ficavam resolvidas e sentenciadas nos locais da BULHA, da BRIGA e os contendores feitos, ali mesmo, numa “manta”.

Pela proximidade geográfica, lembro, aqui e agora, as alcunhas e os nomes das povoações aninhadas na vertente da serra do Montemuro, cujas linhas de água escorrem para o rio Paiva:

Ester: imperialistas. Faifa: lagartos. Eiris: labregos. Moção: tabaqueiros e/ pontas de rabo branco. Desfeita: bengaletes. Parada: judeus e/ou realistas. Pereiro: alheiros. Vitoreira: ceboleiros. Santarém: ladroeiros. Lodeiro: touteiros. Vila Maior: corta-ventos. Mosteiro: clarinetes. Ameal: cavaqueiros. Grijó: quebra-cambões. Tulha Velha: dornelas d’aquem. Tulha Nova: dornelas d’além. Levadas: lavadinhos. Moimenta: ricouços. Sobreda: leiteiros.

Eram epítetos de caracter pejorativo, menorizante e provocador. São a prova insofismável das inimizades e contendas resultantes do embate de interesses divergentes entre povoações vizinhas desde o fundo dos tempos, pelas razões acima apontadas e outras mais.

Gente ligada ao campo, alargada a investigação a outras áreas do concelho, deixei nesse livro, os epítetos: carvoeiros, turrelhos, caceteiros, jogadores de pau, vaidosos, imperialistas, quebra-cambões, chavelhões, feijoeiros, ceboleiros, chícharos, tomba-penedos, labregos, e badanas.

Livro editado em 2007, foi no ano 2019, mês de junho, que esse eco esporádico de bulha saiu naturalmente e vivo da boca da desinibida pegureira, natural de Ester, casada em MósD. Amélia Botelho, que pode ver-se e ouvir-se no vídeo disponível no Youtube, com o título “PASTORA DE MÓS”. Em tradução livre:

As mulheres de “intigamente” iam apartar os homes e eles, por causa da porrada, que vinham numa “manta”.

 

SEGUNDA PARTE

AMÉLIA-2 - CópiaOra, tendo eu descalçado a bota justificativa do topónimo BRIGADOIRO dado ao sítio onde se levanta o ENIGMÁTICO CRUZEIRO, dito assim de forma espotânea pela pastora, a verdade é que, em entrevista anterior, também filmada, à minha pergunta sobre o mesmo sítio, ela, a mesma pastora, respondeu, sem hesitar, de forma diferente e categórica:

- Ali, onde está aquele CRUZEIRO, chama-se o BRIADOIRO.

E, com efeito, outros informantes de EIRIS e de MÓS, insistem mais neste nome do que naquele outro, ainda que, como não pode deixar de ser, o historiador não tome partido, nem exclua um, em favor do outro.

O primeiro tem o respaldo histórico nos comportamentos, mais ou menos quezilentos, entre povos vizinhos, como ficou demonstrado. Mas o segundo, a não ser a lei do menor esforço que, sempre a simplificar, dita ao “falante” a queda de certas consoantes e sílabas, no presente caso o “g”, à semelhança de tantos outros casos na evolução da língua, como é o exemplo clássico de “Vossa Mercê>vossemecê>vomecê>você”, que outra explicação teria?

Advertido que estou por Moisés Espírito Santo do muito que há de aleatório na  toponímia que cobre o país de norte a sul, dispensando-nos a pretensão de quer explicar razoavelmente todo e qualquer nome, ciente de que a pastora não diria aqueles nomes por acaso, resolvi prosseguir e carrear para aqui a matéria investigada. 

Eu tinha conhecimento da existência do topónimo BRIADOIRO a identificar um lugar em Pontevedra, na Galiza, o que me fez lembrar imediatamente uma décima popular muito vulgarizada no Alentejo, em terras de Castro Verde, mais tarde incluída no reportório do cantor Pinto Basto, onde se diz que “ser beirão, é ser galego”, composição poética onde o autor, João de Vasconcelos e Sá, ironiza sagazmente com as formas de “dizer”. Das CINCO DÉCIMAS, transcrevo apenas uma: 

“Quando um tipo está doente

 Logo dizem que está morto

E a todo o vau chamam porto

Chamam gajo a toda a gente

Prantar safões é corrente

Por acaso é por adrego

E ao saco chamam talego

E até nas classes mais ricas

Ser janota é ser maricas

Ser beirão é ser galego.

 

Face ao que, se eu, “beirão” era tido por “galego” em terras do Alentejo, não me causa estranheza que o topónimo BRIADOIRO, a identificar uma localidade urbana na Galiza, identifique também um pedaço de monte dentro do triângulo geográfico que tem por vértices FAIFA, EIRIS E MÓS, aqui, na Beira.

De resto, sem provas substancialmente documentadas, adianto que, em tempos idos, chegara a realizar-se ali um “ajuntamento” de gados e a subsequente “chega” de bois, eventos ainda hoje muito em voga em toda a serra do Montemuro. E assim sendo, sem descartar a designação de BRIGADOIRO  (de bulha, de briga), a designação  BRIADOIRO, associada foneticamente ao BRIO=CAPRICHO que os criadores de bois de luta põem nos seus animais, nomes que lhes dão e como os incitam à luta, à briga, pode ter algo a ver com isso.

- Ó Amarelo, ó Carriço, ó Laranjo, ó Brioso, ó Bonito! (Ver vídeo, MONTEIRAS, OUVIDA)

9-Ouvida-2011 - CópiaE acresce dizer que, não já eco desses eventos, mas a viva voz e em discurso direto, me foi dito pelo senhor José Duarte Sousa Silva, natural de Mós, a rondar os 80 anos de vida, mais o senhor Américo de Almeida, a rondar os 70 anos de idade (pessoas idóneas) que o senhor Daniel do Ribeiro, daquela aldeia, tinha uma VACA DE LUTA que, de parceria com outra que tinha o senhor António Malheiro, de Faifa, ora marcavam encontro e mediam forças no BRIGADOIRO/BRIADOIRO, ou, mais perto de Faifa, no sítio da CHANDANTA. A última que presenciaram, terá sido há 60/70  anos, com gente dos arredores a assistir.

Criadores de gado que, então como agora (pese embora subsistirem mais os bois de luta do que as vacas) se apresentam empertigados, senhoriais, vaidosos e briosos, junto deles de vara na mão a afagá-los e a mantê-los calmos e sossegados, antes de os porem frente a frente com o adversário, tudo isto, dizia eu, empresta algum significado a este topónimo.

4-BRIADOIRO-2EM COTOVIA

E mais. Se ali, naquele descampado, onde sempre bailam os ventos e onde “intigamente” uivavam os lobos, se, ali, o topónimo também baila na oralidade de uma pegureira e ela, na sua espontaneidade, tanto diz BIGADOIRO como BRIADOIRO, não é o historiador que vai excluir um, em favor do outro. Não. Face ao resultado das minhas reflexões sobre o assumto, não sou eu que vou bulhar, que vou brigar, a favor deste ou daquele. O meu desejo é que BRIGADOIRO e BRIADOIRO fiquem em paz pelos tempos fora, tal como em paz têm vivido o CRUZEIRO  (símbolo cristão ali plantado) e o PENTAGRAMA INVERTIDO (símbolo satânico) colado na sua testa, resistindo ambos aos elementos naturais: as chuvas, os ventos e as neves, tal como todos os povoadores da serra que, sem hino cantado, para contrabalançar com os nossos “HERÓIS DO MAR”, são uns autênticos “HERÓIS DA TERRA”. São eles que persistem em manter de pé este PORTUGAL PERIFÉRICO.

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.