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terça, 20 novembro 2018 13:18

CONSÍLIO DOS SEMIDEUSES

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CONSÍLIO DOS SEMIDEUSES

01-11-2011 16:11:07

Recuar aos anos sessenta do século passado e ter acesso a documentos que nos elucidam não só sobre da História Local, mas também sobre o quotidiano, que é como quem diz, «estória» com gente dentro, é um verdadeiro privilégio. O Dr. Eduardo Pinto de Carvalho, médico a exercer, actualmente, clínica nas Canárias, concedeu-me recentemente acesso e posse ao espólio do seu pai, Eduardo Pinto de Carvalho, comerciante muito conhecido em C. Daire, já falecido.

 

Espólio de jornais e demais papéis que interessem à História Local. Num relance de olhar que já fiz ao depósito, além dos jornais que ali se encontram que ainda não pude catalogar, encontrei um maço de papéis velhos entre os quais dois envelopes deveras curiosos. Aqui reproduzo o «fac-simile» de um deles:

        ENVELOPERemetido do «Tribunal Judicial da Comarca de Montalegre» (particular) tinha, como se vê, seisdestinatários em simultâneo, de modo que isto de se pensar que tal só é possível pela Internet nos dias de hoje, fica demonstrado que já naquele tempo havia quem se antecipasse ao futuro, usando isso no «correio analógico». Era o Dr. José Manuel de Moura Pires Machado, Delegado do Ministério Público que, tendo estado em Castro Daire e feito daqueles cidadãos amigos seus, de «Montalegríssimo» (como ele escreve)  lhes dava notícias e humoristicamente procurava manter os elos de amizade aqui forjados.

Ora nós já estamos a ver os destinatários da carta, reunidos no «Café Avenida» e, todos presentes, a beberem o seu café da ordem, tomarem nota das notícias que chegavam das terras frias da fronteira e a prepararem as correspondentes respostas. 

E um bom exemplo de humor e de amizade que existia entre os elementos que se autodesignavam «consílio dos semideus» ou «consílio do trinta e um», numa altura em que a televisão e toda a parafernália de equipamentos destinados à informação e entretenimento não tinham o papel imperialista dos nosso dias, é o documento que encontrei dentro de um desses envelopes,  datado de 1959,  que aqui transcrevo e de que, no fim, anexo «fac-simile». Assim:

«Acta da reunião preparatória do Magno Consílio dos Semideuses


Aos vinte e três dias do mês de Outubro de mil novecentos e cinquenta e nove, esticando a coisa de modo a chegar aos vinte e quatro dias do mesmo mês, e recolhendo a dita coisa, de modo a não chegar aos vinte e cinco (que bronca), reuniu-se o consílio do trinta e um, formado pelos signatários abaixo assinados, Dr. José Manuel de Moura Pires Machado, Dr. José Gonçalves Monteiro, Manuel Jorge Gonçalves Araújo e Gama, Ângelo Fausto Moita, Fernando dos Anjos Cardoso, comigo José Joaquim da Costa Matos e contigo, Eduardo Pinto Carvalho, escrivães e «jogões» que o subscrevemos. Foi solenemente deliberado coisa que ninguém mais saberá, mas que todos nós sabemos, com a convicção de no dia vinte e três de Outubro de mil novecentos e sessenta e cinco (1965), esteja lá quem estiver e suceda o que suceder, seja a hora que for, reunirmo-nos neste mesmo local, sob pena de um dois, três ou mais tiros em qualquer parte do organismo, de modo a dar morte lenta.
E eu, José Joaquim da Costa Matos e Eduardo Pinto de Carvalho, escrivães o subscrevemos.
Deste pergaminho ficará fiel depositário o escrivão Eduardo Pinto Carvalho que ratifica e assina e serão passadas fotocópias a quem o exigir. 
Castro Daire, 23 de Outubro de 1959

José Manuel de Moura Pires Machado, 
José Gonçalves Monteiro,
Manuel Jorge Gonçalves Araújo e Gama, 
Ângelo Fausto Moita, 
Fernando dos Anjos Cardoso, 
Eduardo Pinto Carvalho
José Joaquim da Costa Matos

N.B. É obrigatória a comunicação ao fiel depositário deste pergaminho, de qualquer alteração na residência dos signatários, ainda que seja a última. O vinho do Porto caiu mal, oh senhor Matos!».

De todos os «signatários» do documento e participantes em tão «magno consílio» ainda vive em Castro Daire o senhor Ângelo Fausto Moita, com a bonita idade de 89 anos. Conversei com ele. Mostrei-lhe o papel. Comovido por ver a sua assinatura de mão firme, juntamente com a dos seus amigos, foi, para ele uma tarde de recordações e de afectos há muito passados. Tirando o senhor Manuel Araújo e Gama, o senhor Eduardo Carvalho, diz ter perdido o rasto aos outros. Mas garantiu-me a amizade que os unia, as muitas tertúlias que faziam e a credibilidade do «fiel depositário» ao ponto do documento, por todos eles firmado, sobreviver todos estes anos, como se num Cartório Notarial estivesse. E isto porque a PIDE não lhe pôs os olhos em cima, pois se pusesse, dada a forma cabalística como foi redigido, os signatários teriam, seguramente, passado um mau bocado.

Lido pelos vigilantes do «Estado» toda aquela conversa fiada, aparentemente sem sentido, seria algo de conspirativo e, como tal, todos os membros do «consílio 31» alvos de atenção política. E, ainda que tal documento não lhes tenha chegado ao olho,  não andariam muito longe disso. De facto, alguns daqueles membros faziam parte da conspiração antifascista. Eles reuniam-se de quando em vez numa Livraria/Papelaria que existia no Largo de D. Duarte, em Viseu, ao pé da Sé e quem ali os transportava, à socapa, era o senhor David Garcês, taxista de profissão, que disso estava incumbido. Chegados ali, estacionava o carro por perto e ao mais pequeno sinal de vigia suspeita, avisava os amigos tocando a buzina, segundo um código estabelecido previamente.

Abílio Pereira de Carvalho

 

NOTA. publicado no meu velho site «.com» em 01-11-2011, e migrado hoje mesmo para este «.pt».

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.