Trilhos Serranos

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quinta, 18 outubro 2018 15:12

AZAR NOSSO, SORTE DELE

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Neste ano de 2012, mês de outubro, domingo, o dia da caçada chegou ao fim. Calcorreados os montes, os cerros e vales da serra da Nave, perdizes, nem vê-las. Mas valeu o passeio, o companheirismo ao ar livre, o usufruto da paisagem serrana e a recordação de fartas caçadas feitas em anos não muito distantes. E também o facto inolvidável daquele dia de nevoeiro cerrado, chuva intensa e frio de rachar penedos, dia em que eu e o meu primo Manuel Carvalho Soares nos perdemos em plena serra, mal abandonámos o carro.

 

I
ACTO

 A saga começou logo pela manhã, tudo porque, acabado de estacionar o carro, junto à Quinta do Caetano, aproximada-mente a um quilómetro da orca grande da necrópole da Nave, um bando de perdizes se levantou e nos desafiou a persegui-las. Fomos no rabo delas, mas perdemos de imediato o norte. É para aqui, é para ali, em frente marche, vira que gira, gira que torna, torna que gira, não encontrávamos ponto de referência que nos desse orientação para retornarmos ao ponto de partida. E foi o dia inteiro nisso, a romper calçado e fato por entre matos e arbustos, sem destino. Avisados foram os outros caçadores que, face ao tempo, regressaram a Penates, mal chegámos.. E nós ficamos, a bem dizer, sozinhos naqueles montes bravios.  


Nave-1Ao nevoeiro juntava-se a chuva e o frio. A minha cadela Diana, em dias normais de visibilidade, sempre lesta à minha frente, a farejar ora à direita, ora à esquerda, seguia pegada a mim, encharcada a tiritar de frio. Nunca a expressão «gato pingado» assentou tão bem num cão. Encharcada metia dó. E ela, por certo, na sua sensibilidade canina, se apercebeu cedo da angústia e do medo que se apoderou dos seus companheiros de caçada sem que, contudo, o confessassem, em voz alta, um ao outro. 
Em princípio, tudo bem. Era cedo, o dia estava no começo, estávamos cheios de energia e mal seria não encontrarmos uma saída atempada daquele costumado espaço aberto, de largos horizontes, agora, hermeticamente fechado, sem portas nem janelas. O nevoeiro tudo barrava. Aquele espaço multicolor, exalando aromas diversos, do rosmaninho, da carqueja, da urze, virou laboratório de destrambelhado alquimista, inodoro e incolor, afogadas que foram as essências aromáticas naturais e abundantes. Nem cantar de passarinhos, nem zumbido de insectos. E nós sempre andando e cirandando. Os ponteiros do relógio, girando em torno de si próprios, marcaram o meio-dia, passaram das 14, das 15 e nós, encharcados até à medula (o impermeável que nos protegia da chuva abafava o suor e o medo que nos saia por todos os poros) a rodar por entre sargaçais, sem rumo, nem tino. Um desespero. Almoço retido no carro, nem demos pelo tempo passar. Qual comer, qual nada. Nem fome, nem sede. A ânsia de encontrarmos um ponto de referência, uma saída, remetera para o Letes essas necessidades básicas da vida. E nada. O nevoeiro continuava cinzento e espesso e o nosso horizonte estava ao alcance da ponta do nariz. Sem o dizermos um ao outro (só o dissemos mais tarde) convencemo-nos de que, se a noite caísse e nos apanhasse naquela situação, a serra da Nave, seria seguramente a nossa tumba. Sem abrigo, encharcados assim, e com uma temperatura de enregelar os ossos, não haveria corpo que resistisse. Era o fim. O caçador da Nave, pela Nave estava a ser caçado. 

O meu primo já tinha telemóvel, mas por falta de rede, aquele objecto, nas circunstâncias descritas, valia menos que uma lata de conserva. A lata abria-se, o conteúdo comia-se, mas o telemóvel, ali e então, era absolutamente inútil. O desânimo, que não o pânico, apoderou-se silenciosa e lentamente de nós. Era tempo de mais sem encontrarmos uma saída. Mas não parámos. Sempre juntos, depois de tantas voltas, ouvimos o rumorejar das águas de um ribeiro. Fomos ao seu encontro. Vimos para que lado corriam as águas. A decisão foi tomada comummente. Seguir o seu curso, desse lá onde ele desse. Ele iria desaguar a algum lado e, com sorte, um leira lavrada, um pardieiro caído, as ruínas de um moinho abandonado, um caminho vicinal puído, nos dessem alguma orientação. Mas quem conhece a serra sabe o que são as dificuldades de seguir um curso de água, mesmo à beirinha. É nele que afluem todas as linhas de água que descem de outeiros e encostas, é nas suas margens que os matagais se adensam, é lá que os silvados se enredam. Tínhamos de segui-lo, mas tínhamos de afastar-nos. Tínhamos de perdê-lo de vista, mas não perdê-lo de ouvido. O sussurro lamuriante das suas águas, seria para nós o canto de benigna sereia a conduzir-nos. E conduziram. Quase à noite, todo o dia naquele desespero, deparámos com um moinho, ainda a funcionar. O moleiro estava presente. Demos-lhe conta da nossa afogueada desventura e ele sossegou-nos: estão a cerca de 2 quilómetros de Ariz, na ribeira que desagua no Paiva. 
Ali, e naquele momento, dava para rir se o dia não tivesse sido tão dramático. Do outro lado do moinho, bem perto, estava a pedreira de Ariz que nós bem conhecíamos e cujo caminho tantas vezes nos deu acesso à serra, tantas vezes nos trouxe de retorno a casa.
E foi num desses retornos que se deu o caso não menos dramático que nós passámos a chamar «AZAR NOSSO, SORTE DELE».

 

II
ACTO



Não distante da pedreira de Ariz, há cerca de 15 anos, dada a caçada por terminada, mesmo ao fim do dia, já as luzes pirilampavam nos povoados, descendo nós da serra (eu e o meu primo Manuel Carvalho Soares, comparsa de caça desde há muitos anos) comentando as peripécias do dia (a um caçador nunca faltam peripécias, uma lebre que se furtou ao tiro, uma perdiz que se cintou, outra que encastelou, mais uma que se esgueirou, como vão rareando as espécies, um tropeção com ou sem queda, etc. etc.), eis que ao nosso encontro, vinda lá dos fundos da Pedreira de Ariz, surgiu uma criança dos seus 11 ou 12 anos de idade. Um rapazinho bem vestido, ténis de marca, todo ele era choro e medo. Estava em pânico. Pensámos ter havido, por perto, algum acidente de caça. Ele, dado o estado de choque em que se encontrava, não dizia nada de nada, não nos informava o que tinha acontecido. Olhos movediços sem alvo certo, chorava, chorava, soluçava, soluçava, tremia, tudo acompanhado de lágrimas, baba e ranho.

 Nave-2Primeiro, tentamos tudo o que um adulto sabe e pode para o fazer voltar a si. Era preciso sossegá-lo. Mas nada, só lágrimas, soluços e choro. Falando com ele, demos tempo ao tempo, incutindo-lhe segurança e confiança. Já não estava perdido. Estava connosco, íamos ajudá-lo. Que nos dissesse quem era e de onde viera.


Com auxílio de lenços de papel (prontos a serem usados na serra se a tal obrigarem as necessidades básicas, prevenção higiénica moderna pois sabemos que, a esse respeito, a «Idade da Pedra» e a lição do pai Adão, a consolar-se de cócoras, chegaram ao século XX) procedemos à limpeza conveniente daquele rosto lacrimoso e ranhoso. Devagar, devagarinho, lentamente, por entre soluços cada vez mais espaçados, rosto a tomar jeito de confiança, as narinas a deixarem de purgar e recolhidas que foram as lágrimas, com um brilho de sossego a luzir no fundo dos olhitos, agora fixos em nós, lá nos informou que não era das redondezas. Tinha vindo visitar o avô à província com uma irmã e o namorado dela. Tinham chegado nesse mesmo dia. Os três foram ver umas terras perto da casa do avô. Mas casalinho, respondendo certamente ao apelo da natureza, querendo ficar só, disse ao menino que fosse andando, que eles segui-lo-iam, daí a nadinha. E menino assim fez. E enquanto eles se vinham nas traseiras, o menino em vez de tomar o caminho certo, sem saber, rumou e subiu à serra. E a sorte dele foi nós estarmos a descer dela, mesmo ao anoitecer. 

 Então onde fica a casa do teu avô? Perguntámos. Não sabia. Dissemos os nomes das aldeias da redondeza, Carapito, Ariz, Soutosa, Pela Velha, Vila Chã, Caria. Não conhecia. Os nomes nada lhe diziam. E como é a casa do teu avô? É numa povoação, tem quintal? tem jardim? é de pedra? Como se chega lá? é por estrada, por carreiro? 

Não era em nenhuma povoação, o caminho não era estrada e a água passava por baixo da casa.

Pronto. Esta informação da «água a passar por baixo da casa do avô», foi o nosso «abre-te sésamo». Fez-se luz. Água a passar por baixo de uma casa de pedra, casa onde chegava um caminho que não era estrada, perto da pedreira de Ariz, só podia ser o moinho onde nós tínhamos ido parar na semana anterior por causa do nevoeiro. 

 O acesso de carro a tal moinho fazia-se por Ariz. Descemos à povoação, tomámos a margem direita da ribeira, virados a montante, e lá chegámos. Era ali mesmo. Aquele moinho estava fadado para local de encontro de pessoas perdidas. Ali terminaram as angústias daquela criança perdida que não conhecia as redondezas. Ali, tinham terminado, oito dias antes, o desespero e o medo de dois adultos que conheciam tudo em redor, mau grado o nevoeiro. E foi assim que o nosso azar se tornou a sorte dele.


III
ACTO



Uns tempos mais tarde um amigo meu, sabendo-me caçador na serra da Nave, pediu-me para ir ensinar-lhe o local da necrópole neolítica muito badalada, mas pouco conhecida «in loco», salvo pelos caçadores e pastores das redondezas. Disse-lhe que sim. Quando lhe aprouvesse, eu estava disponível.
Apareceu-me em casa um dia, quase ao fim da tarde e chovia que Deus a dava. Que não, não eram horas de irmos à serra e para mais com o tempo assim. Chegaríamos lá de noite, para quê? Não fazia mal, respondeu-me, íamos de jeep e ele só queria saber o caminho. Dentro de um «todo o terreno» não havia que temer. Fiz-lhe a vontade e «em frente e siga a rusga». 
Fomos por Carapito, chegámos junto da orca grande, virou para lá os faróis do carro (nesse tempo as giestas ainda permitiam que tal pudesse fazer-se do caminho) viu onde ficava o monumento e ficou a conhecer o acesso. Chovia a cântaros. O vento, o escuro e a chuva metiam medo de arrepiar. E dos medos da serra, horizontes cegos, já eu tinha livros que chegassem na minha estante de memórias. Trovões e relâmpagos rasgavam o céu. Os faróis do jeep rompiam a manta negra da noite, espesso burel curtido no mais especializado pisão de outros tempos a laborar em rios e ribeiros que desciam da Nave. Ansioso de deixar aquele espaço «onde bailam os ventos e os lobos uivam», para encurtar caminho, aconselhei o regresso pelo estradão da Pedreira de Ariz. 
Ao passar pelo sítio onde eu e o meu primo Manuel Carvalho Soares tínhamos encontrado a criança perdida, contei-lhe o sucedido. Mostrou-se bastante impressionado com o caso. E ele, que mostra dificuldades em seguir uma conversa do princípio ao fim, seguir uma narrativa completa, acompanhar o fio de um pensamento, saltando de um assunto para a outro, com a facilidade que uma borboleta salta de flor em flor, cortando frequentemente a fala do interlocutor, diferentemente do seu comportamento habitual, digamos que do seu perfil psicológico, concentrou-se no tema, não derivou para caminhos diversos e dali até chegarmos a minha casa (e não foram poucos os quilómetros a percorrer) manteve-se apegado à narrativa e quis saber tudo em pormenor. E eu, em pormenor, tudo lhe contei.


Passaram-se anos sem nos voltarmos a ver. Mas um dia aconteceu e sentados à mesa de um café, estando presentes outras pessoas, ele perguntou-me de chofre, para elas ouvirem: «lembras-te quando salvámos aquela criança junto à Pedreira de Ariz? Já contei isso várias vezes, mas há pessoas que não acreditam. Que tê-la salvado àquela hora e com aquele temporal, foi porque algo providencial me fez desafiar-te a irmos à serra fora de horas. Não fora isso e a criança teria penetrado serra dentro e, sabe-se lá, morrido de frio, ou comida pelos lobos e javalis. Eu digo-lhes para falarem contigo, pois não acreditam em mim. 
Nave-3Eu também não queria acreditar no que ouvia. Não querendo deixar mal o meu amigo em frente das pessoas que o acompanhavam e eu não conhecia, não o chamei à razão. Apercebi-me de que, impressionado com o drama, ele tinha feito eco dele junto de conhecidos e amigos repetidas vezes e que, seguramente, por tanto o repetir, assumiu-se protagonista dele, tomando o lugar do meu primo que comigo viveu o acontecimento. 
Acresce que, continuando nós a falar na serra da Nave, adiantou-me que era frequentador da «Fonte Santa», próxima de Pêra Velha, onde levava, de quando em vez, umas velhinhas no jeep, convictas de que as águas daquela fonte eram milagrosas.
E disse-me até que, à falta de água nascente em certa época do ano, para não desconsolar as velhinhas e manter o ritual, combinado com um amigo, ele ia à frente com uns garrafões cheios de água, vertia-a naquelas covas naturais dos penedos e as velhinhas, chegadas após, lavavam-se ali que nem um consolo. E consoladas retornavam às origens, sem se darem conta da tramóia: a água milagrosa tinha chegado de garrafão. Eis pois, o trabalho de um crente no que faz, no que inventa e no que sente.

            Neste ano de 2012, num dos dias de caça, contei tudo isto ao meu primo. Não havendo perdizes, de alguma coisa tem de se falar. Ele não quis acreditar no que ouvia e perguntou-me: ele é caçador? que eu saiba não. É pescador? que eu saiba também não. Então, se ele não é nenhuma coisas dessas e está convencido do que diz e faz, se acredita que foste tu e ele que salvaram a criança perdida, excluindo-me a mim, se acredita que tal aconteceu porque, por insistência sua lhe foste ensinar o caminho para a necrópole àquela hora e naquele dia de temporal, se acredita que isso e deveu a intervenção divina, não digas mais nada. Vais à «Associação de Caçadores Senhor dos Aflitos e Nave», a nossa Associação, inscreve-o como sócio, que mais não seja para animar a malta na hora do repasto com as suas efabulações.
Que não, não ia fazer isso. Às tantas, em vez de irmos para a serra procurar perdizes, punha-nos a fazer novena em torno da ermida do Senhor dos Aflitos, punha-nos a caminho da Fonte Santa para lavarmos os pés na água dos garrafões, convencendo-nos que se tratava de água milagrosa. Essa não.
Pensa melhor! Olha que a ideia não está má. Sempre será uma maneira de visitarmos a Nave, quando chegarmos a velhinhos. Qualquer dia a idade não nos vai permitir subir à serra, não vamos ter mais hipótese de nos perdermos nela e se as águas da Fonte Santa não são milagrosas, não se pode negar o milagre da Junta de Freguesia de Pêra Velha ter mandado calcetar, com paralelos, serra fora, o caminho até à Ermida. E a termos de matar saudade dos tempos idos, sempre será melhor esse acesso do que o da Pedreira de Ariz. Não achas? Acho.



EPÍLOGO


Não muitos anos depois, chegados a essa idade, calças arregaçadas, pés mergulhados naquelas covas naturais abertas nos penedos, que o povo julga terem sido feitas pelos mouros para nelas mugirem as cabras, varizes salientes na pele envelhecida, voz entrecortada, curvados como aduelas de pipa fora de uso, memória a reportar-se sem fidelidade aos acontecimentos vividos e sentidos, pergunta-me o meu primo:


- Ó Abílio, Lembras-te daquela criança que tu e o teu amigo salvaram no estradão da Pedreira de Ariz? Aquilo é que foi dramático. Essa criança nunca mais terá esquecido na vida o susto que apanhou e o trabalho que deu os seus salvadores.


-Tiro e queda, ó Manel, então não lembro!

Outubro de 2012

Cf publicação este texto no Facebok e no  meu livro «O Hoem da Nave, Devoto de Diana?, editado em 2015

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.