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segunda, 12 março 2018 14:17

CLÁSSICOS DO OESTE (2)

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CLÁSSICOS DO OESTE (2)

No apontamento que fiz sobre o tema em epígrafe falei de saloons, de bebidas, de pancadaria, murraça em barda,  tiroteio, de música e mulheres. Sonhos e ambições insondáveis de pistoleiros solitários e de famílias inteiras em busca de um palmo de terra ou impulsionadas pela febre do ouro, descoberto algures, sítio de deslumbramento e de ação e nascimento de cidades. Falei das relações entre homens e mulheres nos estábulos impregnados do cheiro a feno,  a palha, a gado e a sexo afectivo, ao natural, ou à "rapidinha" ocasional exigido à troca de alguns dólares.

Oeste-1No geral, ainda que naquela jornada histórica, de vida e de conquista se vejam "mulheres de armas", a mulher aparece sempre (ou quase sempre) ligada aos trabalhos domésticos, à gestão do lar e educação dos filhos (se constituiu família), aquela que vê partir o pai dos seus filhos na esperança que ele retorne e traga nos alforges  a promessa brilhante e amarela de uma vida melhor para ele e para ela. Isto a par daquelas que animam os saloons e recebem, com movimento, cor e vida, autêntica ou fingida, os forasteiros que buscam fortuna, zaragata, bebedeiras e sexo.

Retirando as excepções, estas minhas considerações sobre as horas que passei a ver "cawboyadas", a ver estes "CLÁSSICOS DO OESTE", apesar de todos eles me fazerem retornar à minha juventude, aos tempos de projecionista que fui, em TETE, aos tempos distantes do passado, não me desligaram do tempo presente e de tudo o que ultimamente tem vindo a público envolvendo realizadores de cinema e gente famosa ligada a essa indústria.

Refiro-me às acusações de ASSÉDIO SEXUAL amplamente difundidas nos canais das TEVs e nas redes sociais. E direi que, no filme CLÁSSICO DOS CLÁSSICOS, que, em DVD enriquece a minha videoteca - «ACONTECEU NO OESTE» -  por oferta do meu filho Valter, com a saborosa dedicatória  de «UM CLÁSSICO PARA OUTRO CLÁSSICO»,  em muito maus lençóis estaria o simpático pistoleiro Cheyenne por causa de, no momento da despedida, apalpar o cu à apetitosa Cláudia Cardinale. (Ver foto)cláudia - Cópia

Uma obra de arte, seja qual for a forma que revista, é sempre para mim um despertar de conhecimentos, emoções, memórias e reflexão. Estes dois protagonistas são, para mim, bem dignos de simpatia e consideração.

Carregando, cada qual,  às suas costas o pesado fardo do passado, como não ver em ambos a réstia de humanidade que não foi apagada na travessia  dos agrestes trilhos da vida que tiveram de atravessar até se encontrarem?

Ela a deixar a buliçosa vida que levava na cidade de Nova Orleãs e se dispôs a ir para o campo e dar uma ninhada de filhos ao homem que, num encontro  de ocasião, com ela casou e lhe prometeu vida diferente? Ele, Cheyenne,  com aquela barba hirsuta, homem perseguido, rápido no gatilho, dotado de engenho e manha, filho de prostituta, a ver nela uma "grande mulher", a fazer-lhe "lembrar a sua mãe", o "bom café" que ela fazia, tudo dito com um olhar indecifradamente  ternurento e paternalista, sem o mais pequeno gesto de agressividade ou de aproveitamento, mesmo que ela o tenha pensado e sugerido?

E "ternurento e paternalista" foi também quando, no seu último encontro lhe disse que nem ele, nem o amigo de ocasião (Charles Bronson) eram homens para ela. Ambos eram andarilhos, atreitos à aventura e não para ficarem presos ao chão. Que tivesse sorte na novel cidade que todos ajudaram a nascer, e que se algum dos trabalhadores lhe apalpasse o rabo, enquanto ela lhes dava água,  que "fizesse de conta", que "não levasse a mal", pois eles mereciam.

Pois. Mas de fosse hoje, atendendo aos ventos que por aí sopram, SÉRGIO LEONE pensaria duas vezes em manter no guião tais palavras e tal  gesto. Ou manteria?

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.