Trilhos Serranos

Está em... Início Crónicas EU...E AS NOVAS TECNOLOGIAS
quarta, 08 novembro 2017 09:32

EU...E AS NOVAS TECNOLOGIAS

Escrito por 
WEB SUMMIT, LISBOA, 2017

Como os meus amigos já viram, por iniciativa do jovem promotor e apresentador da WEB SUMMIT, tudo começou com um apelo seu para, na plateia, as pessoas próximas de cumprimentarem, à laia do que se faz nas igrejas durante a missa. E, submissos, os "crentes" toca a apertar-se as mãos e darem abraços à direita e à esquerda. Fiz essa referência num "post" anterior, nesta minha página e noutra (que não quero aqui identificar) escrevi que "todas as igrejas têm o seu livro sagrado e as suas pagelas afins", referindo-me aos adereços (não baratos) de que se devia munir todo o participante.


Não sei se, ao dizer isso, transmiti a ideia de estar contra as NOVAS TECNOLOGIAS, contra tudo aquilo de que tenho sido um feliz utilizador e fruidor. Não. Não pretendi isso. O que pretendi foi sublinhar que em tudo aquilo há "uns" que são manifestamente mais inteligentes do que "outros", deixando a cada qual que, por si próprios, façam o seu enquadramento na respetiva tabela.

No que a mim respeita, e feito este esclarecimento, direi que, em tempos não muito distantes (19-05-2016), atendendo à minha idade, olhando os caminhos andados e perspectivando os que faltam andar, eu, um admirador da inteligência humana e fruidor das novas tecnologias, escrevi um texto a que dei o título "EPITAPHIUM VITAE" do qual extraio e seguinte excerto, muito a propósito da WEB SUMMIT, que de "sumítica" nada tem, pois só lá podem entrar os "inteligentes e crentes" endinheirados. Façam o favo de ler: 

"Agora, já na descida, joelhos e quadris a acusarem a fadiga da caminhada, sigo em direção ao vale oposto, ao encontro da Senhora da Gadanha. Antes, porém, eu que ceifei trigais e milheirais, que de podão em punho abri clareiras nos matagais aqui e além, olho para trás e lembro com saudade a catrefa daqueles que, em igual tarefa, ficaram pelo caminho por vontade apressada dessa Senhora e não deles. Ela que decidiu e marcou a hora. Ela que desde o princípio do mundo não olha a idades, que na sua nobre missão de pôr fim a todos e a mim, que não distingue rico de pobre, que mede pela mesma bitola todos os que ela chegam de Ferrari, de burro, de sapatos ou de tamancos...zás, já cá estás. Tantos. É a lei da natureza.

Mas, graças à imaginação e invenção humanas, eu tenho para essa Senhora uma surpresa. Antes da sua missão cumprida, olhos nos olhos, lhe digo: em menino, olhando o espaço sideral, jogava às escondidas com uma estrela que no firmamento fazia negaças comigo. Ora aparecia, ora desaparecia. Agora vou eu fazer negaças contigo neste firmamento digital, aqui, onde tudo o que se coloca não tem fim, onde tudo o que se escreve e divulga sem usar caneta, papel e tinta, tudo o que é imaterial como o pensamento, vive eternamente. Que grande finta, Senhora. Atualiza-te. Deixa essa imagem sinistra e paroquial, de capuz preto e gadanha na mão. Foste vencida pela tecnologia. Aqui não marcas tu a hora, nem o dia. E, quando eu perder o pio, cremado que seja, lançadas as minhas cinzas ao vento, ao mar ou ao rio, quando do meu corpo não restar molécula orgânica visível, palpável, mensurável, localizável, um cibernauta qualquer, homem ou mulher, navegando na Internet, encontrará este "EPITAPHIUM VITAE", não escrito em letras douradas sobre uma pesada campa de tumba, mas em escrita etérea que inunda o universal livro digital alumiado pela luz sidérea da CIVILIZAÇÃO. É o que te digo. Executado o teu trabalho, continuarei vivo. E nessa situação direi, sem ócio, que serei somente MEMÓRIA por oposição ao negócio de lápides, de tumbas, missas e flores de que vive tanta gente, crente noutros mundos e valores".

POST SCRIPTUM: os lavradores de antanho quando iam vender uma rês à feira combinavam-se com um feirante, que se fingia de comprador interessado, por forma a fazer subir o preço da rês, através da concorrência. O verdadeiro comprador, ignorando a tramóia, caía na esparrela, dava o dinheiro pedido pelo vendedor e este, logo a seguir, retribuía o favor ao fingido comprador com a "missa", isto é, com uma certa importância em dinheiro, ou uns pagamento de uns copos na taverna mais próxima.



Foto de Abílio Pereira de Carvalho.



NOTA: posto ontem na minha página do facebook

Ler 162 vezes
Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.