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domingo, 03 setembro 2017 11:33

CUJÓ: UMA GENEALOGIA (5)

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HISTORIA VIVA

Neste meu incansável calcorrear os trilhos serranos investigando a História Local (factos políticos, cultura, usos, costumes e gentes) tropecei numa notícia publicada no jornal «A Voz do Paiva» nº de 22 de novembro de 1908, anunciando o falecimento de ANTÓNIO PEREIRA AMADOR, seguida de um extenso elogio fúnebre assinado por Camilo José de Carvalho. Reproduzi-lo-ei mais adiante, mas, antes disso, direi que, sabendo-me eu ligado à FAMÍLIA AMADOR por parte da minha avó paterna, cujo nascimento e infância não estavam muitos bem esclarecidos na história familiar, li a notícia com avidez, sem contudo dela extrair algo que preenchesse os hiatos existentes. Retive a informação e, quando anos mais tarde, vim a saber que o meu primo Amadeu Duarte  Pereira  andava a tentar fazer a ÁRVORE GENEALÓGICA DA FAMÍLIA,  sugeri-lhe que investigasse as origens e vida desse cidadão por me parecer que ele teria algo a ver connosco, pois tratando-se de um marceneiro com excecionais «aptidões artísticas», o associei imediatamente ao nosso tio José Tereso, nascido no Brasil, que revelava iguais «aptidões» e bem podia transportar consigo os genes do falecido. Eu explico melhor.

Tio Manco-1 - Cópia

Nos anos 50 do século XX, não havia em Cujó, quem melhor manejasse o formão, a goiva e um torno de fabrico artesanal do que o meu tio José Tereso, com a morada e oficina perto da capela (ver foto al lado, no estado atual) que veio a ser constituída Igreja Matriz com a independência da freguesia eclesiástica em 1951. As suas mãos e arte arrancavam aos cepos de amieiro e às pernadas de urgueiras e piorneiras figuras e utensílios domésticos sem conta. Tudo o que ele fazia me encantava, naquela idade. Chamávamos-lhe o TIO MANCO por ter uma das pernas amputada do joelho para baixo e usar uma prótese de pau presa à coxa por correias.  São três as razões que me levam a trazê-lo a capítulo:

PRIMEIRA: quando me chegaram à mão, idos da Castro Daire,  os primeiros livros de Banda Desenhada, contando as aventuras dos flibusteiros, piratas e corsários  eu associei-o ineditamente ao pirata perna de pau. Sentia-me orgulhoso de ter  um tio «pirata perna de pau». Só lhe faltava a pala a tapar-lhe um olho. Ele tinha andado lá pelo Brasil, tinha atravessado o Atlântico não em veleiros (acima, acima gajeiro!), mas num desconhecido navio a vapor. Tinha vivido e respirado a atmosfera marítima onde se desenrolava a ação daqueles protagonistas históricos da BD. E o som da sua falsa pena a bater no chão do sobrado ou na calçada, toc...toc... fazia-me ouvir e ver o andar desse pirata sobre o tombadilho do navio.

SEGUNDA: esses livros eram dados ao meu pai pela esposa do Néné (trato afetivo do primo Manuel Amador Seabra e Melo, como veremos mais adiante) chamada  Esmeralda Lima, modista e senhora muito culta, segundo me diz a D. Alice Morgado, uma fonte de informação amiga, residente na vila, que já ultrapassou os 90 anos de vida.  A  D. Esmeralda, mulher de cor, cabelo encarapinhado, risco ao meio a dividir a trunfa, mal sabia (ou se calhar sabia muito bem) quanto aquelas vinhetas, tiras e pranchas,  com figuras de capa e espada sempre a lutarem umas com as outras em busca de tesouros, alimentavam a minha imaginação e me faziam navegar, em abstrato, por mares que vim a navegar, em concreto, passada que foi a infância e, também eu, não sem luta e esforço,  em busca do meu tesouro. Só com uma diferença: eram outras  armas e outros os campos de batalha. 

Já crescido, aí pelos meus 17 anos, encontrando-nos em Castro Daire, agradeci-lhe a oferta dos livros e registei a fisionomia que dela me ficou até hoje «in mente». E lembro-a todas as vezes que navego nos mares da história e me confronto com esses aventureiros do mar. A fisionomia dela  e a do meu TIO MANCO, o pirata da perna de pau, estão sempre presentes nessas minhas aventuras.  Ontem, no desenhado mar de corsários, flibusteiros e piratas a esconderem tesouros nas grutas de ilhas remotas e desconhecidas. Hoje no real mar da escrita, da política e da economia, infestado de corsários, flibusteiros e piratas a esconderem tesouros nos bancos e offshore, em ilhas remotas, bem conhecidas.  

TERCEIRA: essa senhora era esposa de um dos AMADORES de Castro Daire, tidos por nossos primos, descendentes de ANTÓNIO PEREIRA AMADOR, aquele que não reconhecendo legitimamente a sua filha «natural» Florinda, ela era conhecida e tida como membro da família, nomeadamente pelas duas meias irmãs, Ema e Dulce e, consequentemente pelos seus filhos. 

E aqui se pode dizer que, se António Pereira Amador não reconheceu Florinda como filha "legítima", evitando assim a existência na Conservatória do Registo Civil de qualquer documento comprovativo da sua filiação, ele não pôde evitar a transmissão dos seus genes artísticos aos seus descendentes e a prová-lo lá estava o, supostamente neto,  José Tereso, filho de Florinda, e outros bisnetos de que falarei lá mais para diante. Não se perderá nada pela espera. Neste caso até parece que a GENÉTICA substituiu a BUROCRACIA, isto é, dispensou o documento de filiação que, por razões afetivas e/ou sociais ignoradas, não foi lavrado e assinado  pelo tabelião de serviço, com o seu «sinal de público e raso». Eis a notícia:

Voz do Paiva«ANTÓNIO PEREIRA AMADOR

«Após doloroso sofrimento, faleceu na manhã de terça-feira, nesta vila, o senhor António Pereira amador, cidadão prestável e com aptidões excecionais, para as artes, principalmente para a mecânica.

A sua morte foi muito sentida pelos amigos que contava em grande número. O seu funeral realizou-se ás 8 horas da manhã de quarta-feira, incorporando-se nele várias irmandades. Filarmónica Castrense e muitos cavalheiros desta vila.

Pegaram as borlas do caixão, os senhores Joaquim de Almeida Pontes, António de Almeida Fráguas, José Pinto Teixeira, José Clemente da Costa, João Augusto Pereira e Alfredo Vítor Pereira Nunes.

De trás do ataúde seguia o senhor António Fernandes Poças que conduzia uma coroa de violetas de Parma roxas, rosas-chá, miosótis e suspiros com a dedicatória: «Ao Mártir, oferecem seus filhos» - 17-11-908.

O senhor Camilo José Carvalho conduzia uma coroa de crisântemos brancos, cécias, rosas-chá, begónias, lírios e palmas com a dedicatória: «Saudade eterna, sua filha e genro – 17-11-908-

O senhor Albino Lourenço Ribeiro era portador de uma de violetas brancas, miosótis, cecias, rosas-chá e lírios com a dedicatória: ao seu saudoso mestre – Samuel Ferreira Garcez.

A toda a família enlutada, enviamos sentidos pesares»

A notícia é seguida de um extenso elogio fúnebre assinado por Camilo José de Carvalho do qual respigo os seguintes excertos que ajudam a traçar o perfil do defunto. Assim: 

«Amigo e companheiro:

 «(...) a tua alma atribulada pelas tempestades da vida precisava tranquilidade infinda (...) respeito muito o teu cadáver e venero ainda mais o teu ideal. Porém nesta hora solene de desespero e dor não posso calar no íntimo os cânticos da tristeza e saudade que a tua irreparável perda nos causou, quer nos campos da Arte que manejaste com perfeição e mérito, quer nas selvas floridas da Liberdade que amaste e defendeste até aos derradeiros momentos de vida.

Ah, se Deus olhasse para o teu lar, onde a alegria bruscamente emurcheceu para sempre nos lábios inocentes  de umas pobres crianças e...tão lindas.

(...)

Estoico e resignado esperaste, hora a hora, amigo e companheiro, nas pugnas da liberdade, o trágico momento. A própria morte temeu a tua coragem (...) a dor é a sublime imagem de uma existência modesta e preciosa. Eterniza a modéstia. Engrandece o talento (...) por meio dela eu sinto a tua palavra, distingo nitidamente as formas do teu rosto venerável, ouço os teus passos incertos, percebo a tua vontade indomável que não se deixou vencer pelas ansias vorazes do despotismo.

Dome pois sincero correligionário o sono infindo que a dor imensa que nos legaste, jamais te deixará tombar no olvido.

Breve iremos juncar de flores o teu prezado leito quando raiarem novos dias na Pátria que muito amaste (...)»

Castro Daire, 20-11-08

Camilo José de Carvalho.

 Suspeito que António Pereira Amador não era um santo e presumo que ele teria «pecadilhos» de monta no seio da comunidade castrense. Mas que outras palavras se poderiam esperar de um «amigo e correligionário» politico, em redor da sepultura? Tudo indica que se tratava de um amigo «republicano», que conjuntamente com outros, esperavam da queda da Monarquia,  ainda que o nome de Camilo José de Carvalho (como ficou amplamente demonstrado no meu livro «Implantação da República em Castro Daire - I», editado em 2010) não apareça entre aqueles que assistem ao nascimento do Novo Regime. Terá falecido, entretanto? Quem aparece (e com frequência) nas andanças e listas republicanas é Alípio Pereira Amador, um filho do defunto. E, este, no ano da sua morte,   integrou a lista  dos republicanos que então se mexiam, de forma organizada, em Castro Daire, tal como a maior parte das figuras grádas da vila que o acompanharam à sepultura. Todas elas davam voz à República dois anos antes da sua implantação.. (cf. Ob. cit. editada em 2010), 

E, chegado a estas conclusões, dei delas conhecimento ao meu primo Amadeu Duarte Pereira, pelas razões acima expressas. A  ele se devem todos os conhecimentos subsequentes ligados a este «cavaleiro de bela figura», a começar pelo seu registo de batismo e casamento., que veremos no próximo capítulo.

continua 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.