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terça, 25 julho 2017 16:08

SINO-SAIMÃO, SINO SEM MÃOS, SANSELIMÃO

Escrito por 

HISTÓRIA VIVA

Em 2011, com o título em epígrafe, referindo-me ao sítio da Sobreira, arredores de Castro daire, escrevi no meu velho site «.com» um texto que transpus para o novo site «.pt» em 2013, melhorado e ampliado. Hoje repesco parte dele para inserir a foto  de um cruzeiro que, nas minhas pesquisas pelos montes, surpreendentemente, encontrei, neste ano de 2017, perdido e solitário na serra do Montemuro, mesmo ao lado do caminho rural que antigamente ligava Mós a Faifa. Um «cruzeiro» simbolicamente «judaico-cristão», como bem demonstra a «estrela de cinco pontas» ali colocada e invertida.  E sabido é que o pentegrama era um símbolo cristão antes da Inquisição o associar à bruxaria e, por isso, o expurgar da simbólica cristã. Ora façam o favor de ler o que então escrevi. Já lá vão uns anitos:

 

Barral-rEDZ«Ali, naquele local antigamente solitário, ermo de medos e clamor de almas penadas, sítio de morte de homem ou de mulher, lugar de arrepios e de fantasmas, de fazer desviar caminho a quem por lá transitasse sozinho; caminho em que, iniciada a passagem, jamais se podia olhar para trás, sob pena de se ser atacado por forças invisíveis e poderosas, das quais só se podia livrar aquele que soubesse riscar no chão o «sino sem mãos», o «sino-saimão» (sanselimão», saltasse para dentro dele e de lá travasse a batalha, gritando pelo Santíssimo, batendo a torto e a direito.

Isto, tal qual me dizem as pessoas da zona que rondam, neste princípios do século XXI, os 70 anos e mais anos de idade. Daí que aquele lugar tenha permanecido na memória dos povos com o nome de Santíssimo.

Superstição ou realidade o facto é que a descrição do fenómeno fez parte da literatura oral durante séculos, condicionou comportamentos e atitudes, e chegou aos nossos dias com a auréola esotérica, mítica e mística que reveste tudo o que aos olhos do camponês não encontra explicação plausível. Não é propriamente por acaso que o Círculo dos Leitrores acaba de dar á estampa um livro do historiador José Matoso, com o título «Poderes Invisíveis, o Imaginário Medieval».Sobreira-1-2-3 1

O registo aqui fica, em tempos de Internet, blogues, twiteres e quejandos que permitem aos jovens conhecer o mundo distante, que vivem outras aventuras e medos. Impõe-se , por isso, que eles conheçam também o mundo rural, próximo ou distante, através dos artefactos existentes naquele morro e também os que persistiram no campo arqueológico do pensamento dos nossos avoengos. Se tal se não fizer, à semelhança dos topónimos rurais ligados à identificação das moitas, herdades, hortas, leiras e pinhais, que, por força de serem, desde longínquos tempos idos, fontes de rendimento e sustentáculos de vida, chegaram até nós, mas condenados estão ao esquecimento por virtude da mudança dos tempos e profissões e abandono da agricultura.

(...)

 «Sino sem mãos»,  «sino-saimão!, mas que sino seria esse»? Perguntei aos meus informantes. Resposta pronta: é uma estrela, que parece um sino, com braços e sem mãos».

 

 Rebuscando na memória o tempo em que eu ouvia a missa em latim terminada com o «Ite, missa est», expressão que nós, mal alfabetizados, atentos à sonoridade dela, ignorando em absoluto a língua de Cícero, traduzíamos por «dita missa és», Cruzeiro REDZanalogamente conclui que o «sino sem mãos», o «sino-saimão» «sanselimão», a estela, era o «sinal sem mãos», o «sinal de Salomão», o «selo de Salomão», o pentagrama, o hexagrama, o símbolo que, a par de tantas outras siglas, prolifera na face das pedras que dão corpo ao edifício da Igreja do Mosteiro da Ermida, edifício que é uma autêntica Cabala por decifrar. Siglas de pedreiros, apenas? Foi chão que deu uvas.

E a esta luz, aquilo que se nos apresentou acima como superstição, literatura oral que preencheu serões de Inverno e povoou o imaginário infantil e adulto das comunidades rurais circundantes, bem pode encontrar um fundo histórico e uma explicação plausível, que nada tem de esotérico. Os Judeus forçados a abandonar a Tora e o Talmude, obrigados a abraçar a Bíblia de Velhos e Novos Testamentos, tornados, à força,  «cristãos novos», teriam naquela colina o seu monte Sião, uma das colinas de Jerusalém, a sua própria Jerusalém, ali, onde, a coberto do escuro da noite, como membros do «povo eleito» continuariam a praticar os rituais da sua antiga religião. E os medos e  clamores das almas penadas, que se transmitiram tempos fora, de geração em geração, não eram mais do que os medos e os clamores das almas sofridas, sujeitas aos vexames sociais que D. Manuel I procurou resolver com a sua carta de «graça e mercê», dada em Lisboa, a 26 de Maio de 1517.

 

E se atendermos à primeira e última sílabas da enigmática expressão «sino sem mão», «sino-saimão» = (Si+ão) parece tudo formar sentido.

 

Vejam o texto original e também o vídeo alojado no Youtube, em 19-09-2011

 

https://youtu.be/WjAH2S51Yt4

 
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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.