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domingo, 26 março 2017 19:00

A OCASIÃO FAZ O LADRÃO

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A OCASIÃO FAZ O LADRÃO

O "Boletim Antropométrico" que hoje publico, respeita a Miguel Pereira Bernardo, natural de Cujó, de 59 anos de idade e um sinal particular: "SEM O OLHO DIREITO" pormenor de grande importância para o historiador que, na isenção que deve assumir no relato dos factos que resultam da sua investigação, proibido está de dizer somente o que lhe agrada e obrigado é a relatar tudo o que encontra e lhe permite a leitura hermenêutica das fontes consultadas e os conteúdos conexos com outros documentos ao seu dispor, ou do seu conhecimento, orais que eles sejam.

Cujó.Miguel Pereira Bernardo - RedzÉ o que faço no caso vertente. Contava o meu pai que um ascendente meu, um tio por parte da minha mãe, tinha no seu ADN (em forma de espiral como todos) um neurónio com íman que atraía a si as coisas alheias. Aquilo era um castigo de Deus e, mesmo contra a sua vontade,  tudo se lhe colava às mãos. Por essa razão os salpicões e presuntos e chouriças guardados nas salgadeiras dos vizinhos, deixavam o seu lugar de conservação e entravam na sua casa, à socapa, pela porta baixa. Mas, como diz o sábio povo "tantas vezes a cantarinha vai à fonte, que um dia lá deixa a asa". Um dia o ratoneiro foi descoberto e na fuga foi encafuar-se sob o feno guardado num palheiro, mesmo ao lado do FORNO DO SALGUEIRINHO, edifício este que desapareceu recentemente do mapa urbano de Cujó, quando, em boa verdade, podia ser preservado, bastando para tal estabilizar as paredes, mesmo sem cobertura. Adiante...

Como ía dizendo, o ratoneiro, escondido debaixo do feno só havia uma maneira de tirar de lá. O povo foi buscar estadulhos, forcados e forquilhas, pondo-se toda a gente a espicaçar de cima a baixo. Mas o ratoneiro, com a experiência dos ratos, abriu a lura até onde pôde, foi-se afundando, afundando com vista a furtar-se ao alcance dos estadulhos, forcados e forquilhas. Só que, na certeza de que ele estava ali, tendo-o alguém visto entrar e não havendo mais saídas que a porta de entrada, o povo não desistia do picanço. E foi só quando ele se viu sem uma vista, de olho vazado, é que emergiu daquele "mare magnum" de palha e feno. Foi entregue ao ao regedor com vários ferimentos, dali seguiu para o hospital e, de seguida, para a cadeia. 

E a provar a veracidade da história, contada pelo meu pai, cá está o registo da sua entrada na prisão em 12 de maio de 1933, com os anotados sinais visíveis de lhe faltar a vista direita.

Dito isto, e sabido isto, proibidos ficam, todos os que se prestam à MÁ LÍNGUA, de lançarem o labéu de ladrões à FAMÍLIA BERNARDO de Cujó. Em todos os rebanhos há uma ovelha tresmalhada e os BERNARDOS que conheci eram todos gente séria, gente de bem. 

Mas faço uma leitura complementar do caso depois de ler e reler este registo. E essa leitura tem algo de filogenético e prende-se com a minha experiência de caçador. No Alentejo tive por guia e ajudante na arte venatória uma cadela que trazia muito bem à mão a peça abatida. Foi envelhecendo e, já velhinha, deu-lhe para fugir com a presa e comê-la. Se fosse codorniz e eu fosse demasiado lento a reclamá-la,  era ponto assente que, quando chegasse junto dela, a peça tinha sido engolida por inteiro. A cadela tornara-se ladra. Passados uns anos vim a constatar que o mesmo se passou com a minha Diana, cadela que criei desde pequenina. Lesta a farejar, a indicar sinal de caça e a trazer à mão, quando chegou a velha, repetiu aquilo o que eu tinha presenciado no Alentejo, com a sua irmã de raça. Tornara-se ladra. Concluí que, com a idade, os cães domesticados e treinados pelo homem, tendiam a regredir ao seu estádio selvagem, a saborearem a carne das peças abatidas, portanto, a servirem-se, em vez de nos servir. Tornavam-se ladrões e fugiam, às quatro patas, antes que os donos os privassem de satisfazer os seus instintos primevos e selvagens.

É essa experiência (não teorizada em livros, nem objecto de estudos da neurociência) que eu temo venha a acontecer comigo. Pois sendo um descendente de Viriato, que passou grande parte da vida na RAPINAGEM, e tendo eu na família um tio ratoneiro de canastros e salgadeiras, estando nós hoje rodeados de gatunos encartados e institucionais (que não se contentam com uma chouriça, um salpicão ou "surmil" de centeio para matar a fome) sei lá se, acicatado pela ladroagem de colarinho branco dos nossos tempos, um qualquer neurónio do meu ADN desperta da honesta letargia  em que tenho vivido e, num repente, faz de mim um LADRÃO, um homem rico,  para honra da FAMÍLIA que, não sendo POBRE, também rica não é?

Abílio/março/2017



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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.