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segunda, 30 janeiro 2017 09:47

ACORDO ORTOGRÁFICO, 2

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ACORDO ORTOGRÁFICO, 2

Quando me volto para o passado distante e recordo alguns companheiros de viagem nos TRILHOS do saber, do ensinar e do aprender, um nome está sempre presente: DR. FRANCISCO CRISTÓVÃO RICARDO, meu professor que foi de PORTUGUÊS, LATIM e HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA.

Orgulho-me da sua COMPANHIA e, em boa verdade, nos meus 77 anos de idade, posso dizer que tenho tido a preocupação de fazer uso correto dos seus ensinamentos, ainda que, por culpa minha e não dele, nem sempre isso aconteça. 

Já, em tempos, abordei nesta página a questão do AO na crónica ilustrada com o título  "MÁ LÍNGUA". Hoje retorno ao assunto, não com um texto meu, mas sim com algumas REFLEXÕES que, PERTINENTEMENTE, esse meu MESTRE me fez chegar por e-mail. É com sua AUTORIZAÇÃO que as publico aqui, pois me parece que elas merecem algo mais do que ficaram encarceradas numa caixa de correio eletrónico:

«MANIFESTO

pena«Os proponentes e os signatários deste manifesto vão fazer chegar à presidência da República, ao Governo, ao Parlamento, à Academia das Ciências de Lisboa, aos professores e alunos, aos juízes e tribunais, às universidades, às editoras, à Comunidade de Língua Portuguesa (CPLP) e, parece, a todas as Instituições nacionais e estrangeiras que zelam pela Língua Portuguesa, as aberrações do Acordo Ortográfico (A0).

Deste longo documento (os interessados poderão ler na íntegra na Net“ manifesto contra as aberrações do A0”), saliento alguns tópicos, em itálico, sobre os quais faço alguns comentários, em negrito:

Referindo-se ao "critério da pronúncia", os signatários do manifesto citam alguns exemplos, no tocante às consoantes mudas, criticando ortografias", como "conceção" por "concepção", "receção" por "recepção", "espetador" por "espectador", que geraram "confusões semânticas: “conceção de crédito”, “receção económica” ou “espetador de cinema”" são exemplos.

1. Sem prejuízo de variantes noutras geografias, a omissão das consoantes mudas segue a norma “se se pronuncia, fica, se muda cai”, nos grupos pt, pç ct como corrupto, contacto, opção ou peremptório permanece o “p” porque se pronuncia, nos grupos ct, pç, pt, cç,como em espetáculo, espetador, receção, letivo, rutura, láteo, laticínio, e ação, o “c” e o “p” omitem-se porque não se pronunciam. É aliás, a prevalência foneticista sobre a etimológica, não se vê como o falar do povo passa ser uma aberração. Por lapso ou por ignorância, os proponentes dizem “conceção de crédito”, em vez de “concessão de crédito” e ”receção económica” em vez de “recessão económica”.

….

"No entanto, pela mesma lógica, o AO90 deveria começar por cortar a mais “muda” de todas as consoantes: o "h" inicial. O que não fez.

2. Os proponentes não nos vão tirar do sério, diríamos, no entanto, que é inconcebível omitir o h em umano, por humano, umanidade, por humanidade, aver, por haver, á depor há de, erança por herança, erói por heró, etc.! etc!

No caso de “óptico” (relativo aos olhos), com a supressão da consoante “muda” “p”, passou a “ótico” (relativo aos ouvidos), o que cria a confusão total" entre especialistas e público, "que deixam de saber a que órgão do corpo humano". 

3. Neste aspeto, os proponentes do manifesto têm razão: omitindo o “p” de óptico (ótico) a palavra deixa de significar relativo a visão para significar relativo a audição. 

….

"A confusão maior surgiu entre a população que se viu obrigada a ter de “aplicar” o AO90, e passou a cortar “cês” e “pês” a eito, o que levou ao aparecimento de erros", como "batérias", "impatos", "ténicas", "fição", "adatação", "atidão", "abruto" e "adeto", "além de cortarem outras consoantes, como, por exemplo, o “b” em “ojeção”, ou o “g” em “dianóstico”.

4. Não se sabe bem que A0 os proponentes estão a ler, no de A090 só as consoantes mudas são omissas, as que são pronunciadas escrevem-se e dizem-se, nos exemplos apresentados “c” e “p” eram pronunciadas e, por isso, não podem ser omissas. Puro ilusionismo. Como é que um filósofo, um cineasta, uma professora catedrática, entre outros, símbolos da intelectualidade portuguesa, aceitaram ser signatários deste manifesto?

Os subscritores afirmam que é "caótica "a forma como se utiliza o hífen": "guarda-chuva" e "mandachuva", "cor-de-rosa" e "cor de laranja" são alguns exemplos.

Pena-25. Os subscritores, em parte, têm razão, mas não há hífens à mercê do utente, o seu emprego tem de ser racional, só deviam ter hífen os compostos autónomos de sentido diferente dos elementos que os compõem, assim Primeiro-Ministro chega às 9 horas (diferente de o primeiro ministro a chegar foi o ministro da Educação), o mesmo para pé-de-meia (significa poupança, não tem nada com pé nem com meia), idem para água-de-colónia, arco-da-velha, ao deus-dará, à queima-roupa, micro-ondas, Grã-Bretanha, Entre-os-Rios, nome de localidade, (diferente de “o teu monte fica entre os rios Sado e o Guadiana”, couve-flor (espécie botânica), cobra-capelo (espécie zoológica), etc.

"Entre outras arbitrariedades, a supressão do acento agudo cria situações caricatas. "Para “compensar” o desaparecimento da consoante “muda” e evitar o “fechamento” da vogal anterior, imposto pelo AO90, na escrita corrente, surgem aberrações espontâneas como a colocação de acentos fora da sílaba tónica", como “correcção” escrito “corréção”, “espectáculo” corrigido para “espétaculo” ou mesmo “lectivo” que passa a “létivo”. 

6. Novamente, ilusionismo puro, não é crível que suceda o que se acaba de afirmar, não é crível que com as consoantes mudas, “letivo” deixe de ser paroxítona e “espectáculo” deixe de ser proparoxítona.

A rejeição pura e dura do A0 necessita de uma alternativa a esse acordo, não basta reverter, é preciso construir algo de novo, de diferente, como não se pode construir do nada, será que se vai reavaliar o acordo frustrado de 1945, de feição etimológica, e escrever Egipto por influência de egípcio?,ou o acordo frustrado de 1911, repondo pharmacia, philosophia e theologia?

Vai ser novamente ser discutido no parlamento o ?A0, advogados, economistas  e políticos, uns e outros, sem formação académica na área da filologia e da linguística. Augura-se um debate de consequências imprevisíveis.

Respeitemos as crianças que vivem com o A0, há 5 anos, respeitemos os jovens que seguem o A0 há uma dezena de anos, respeitemos os pais queverão os filhos a aprender a escrever como o fizeram aos 6 anos, sofrendo com esta eventual e dramática reversão".

Francisco Cristóvão Ricardo

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.