Trilhos Serranos

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sábado, 26 junho 2021 12:28

TRAVAGEM FORÇADA

Escrito por 

EU E ELA

Quando, com 22 anos de idade, tirei a carta de mota em Moçambique, (Lourenço Marques, lá no outro hemisfério ) antes de subirmos para o selim desse veículo de duas rodas, o instrutor obrigou-nos a olhar para ele e informou todos os instruendos das vantagens e desvantagens que resultavam de conduzir um veículo assim, na cidade e fora dela.

 

travagem-1 - CópiaSublinhou o prazer e a liberdade que podíamos usufruir conduzindo-o, mas também a responsabilidade que isso acarretava, pois, perdido o equilíbrio, sem apelo e, às vezes, com muito agravo, só o chão nos esperava, ao comprido ou enrolados. Na época não era obrigatório o uso do capacete.

Falou-nos dos principais elementos constitutivos da máquina - era uma BSA 500 - e demorou-se na explicação dos travões dianteiros e traseiros, a saber:

1 - O travão traseiro era utilizado habitualmente, na estrada, aquele que devíamos usar quando tal fosse necessário, nomeadamente antes das curvas, abrandando a velocidade suficientemente para curvarmos em segurança, ou em qualquer situação de travagem emergente, face a um obstáculo inesperado.

2 - O travão dianteiro destinava-se haitualmente aos movimentos do veículo parado, necessários ao estacionamento, arrumação e movimentação para montagem e desmontagem, mas também de TRAVAGEM numa emergência, secundando senpre a tarefa do travão traseiro e nunca usado antes dele, sob pena de darmos pinote certo, devido à força da gravidade.

travagem-2 - CópiaE acrescentava que, quem sabia isso muito bem, eram os motociclistas experientes que gostavam de “fazer cavalinhos” e outras piruetas que o veículo de duas rodas permite. E só depois dessas demoradas preleções é que começaram as lições de condução na estrada.

Mais tarde, quando adquiri a minha primeira mota, o LIVRO DE INSTRUÇÕES replicava as informações dadas pelo instrutor e, confirmei, na prática, que havia boas razões técnicas e aerodinâmicas para assim procedermos. Com 82 anos de vida e milhares de quilómetros rodados, ainda hoje levo a sério os seus ensinamentos e devo dizer que não me tenho dado mal com eles.

Vem isto a propósito de uma TRAVAGEM FORÇADA que, no dia 23-06-2021, tive de fazer numa rua da vila. E tal foi ela que a impressão digital dos pneus deixada no alcatrão, tal qual se vê nas fotos anexas, é bem elucidativa da queda e do atropelamento que evitei.

travagem-2a - CópiaE, devo acrescentar aue não fora a experiência advinda de muitos anos em cima de duas rodas, não fora o sangue frio que mantenho aos 82 anos de idade, e não foram os ensinamentos aue, em 1961, o instrutor transmitiu a todos os instruendos que se propunham tirar a CARTA DE MOTA, acrescidos da experiência adquirida posteriormente na prática, bem podia ter acontecido o pior, isto é, terem ficado estendidos na estrada dois velhinhos: um, que a atravessou a estrada sem olhar, julgando-se dono do mundo, e outro que, seguindo em velocidade urbana, outro remédio não teve senão meter travões ao fundo e evitar o acidente.

O resto fica para os meus amigos comentarem, pois não faltará quem tenha passado por iguais situações e diga que eu sou um “sortudo”. Se disserem acertam em cheio, pois SORTUDO me considero, de facto, até hoje.

E não batam com os nós dos dedos na madeira, ou façam «cruzes canhoto», pois canhoto sou e rio-me sempre, quando ouço as pessoas dizerem que para se ter sorte é preciso «entrar com o pé direito».

Claro que isso advém da cultura catequética que nos ensinarem em meninos, aquela que  põe os «bons» sentados à mão «destra de Deus» e os «maus» à sua «mão sinistra».


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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.