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quarta, 10 março 2021 15:57

COISAS COM ALMA

Escrito por 

O RESTAURO

Uma cadeira. Espaldar desconjuntado, peças soltas, guardada nos fundos da casa, na rima de lenha destinada a ser reduzido a cinzas, na lareira.

 

PRIMEIRA PARTE

CADEIRAPus os olhos nela, mirei-a, remirei-a e considerei, à primeira,  que era um crime queimar essa cadeira, um móvel doméstico de assento feito em pau preto, sem um único prego metido nela. As peças foram acasaladas por entalhe e davam-lhe consistência suficiente para a sua serventia. Uma obra de carpintaria saída das mãos de um artesão que assim fez por opção ou por falta de pregos. E, sendo assim, que outro remédio tinha senão valer-se da sabedoria que dos seus antepassados vinha?

GrosaA arte posta naquela cadeira, com um CORAÇÃO ABERTO na peça central do espaldar, ora reparem! impunha que houvesse um pouco de amor e respeito por parte dos utilizadores, herdeiros ou compradores. E, ó gente, face a estes pensamentos e sentimentos resolvi restaurá-la imediatamente. Um hino ao mestre sem nome.

Para tal eu precisava algo mais que manejar a caneta e dedilhar agilmente o teclado do meu computador. Pois era. Mas sendo professor, valeu-me a aprendizagem feita na minha meninice e juventude, fora dos liceus e das universidades, como pude, tempos em que tais ferramentas de comunicação não eram imaginadas, nem sonhadas.

E algumas lições foram-me dadas pelo meu tio João Leonor (Lianor se dizia) carpinteiro de profissão, orgulhoso do seu ofício.

pintur-frrente-2Em Cujó, nesse tempo, poucos carpinteiros havia na aldeia que fizessem melhor do que ele os carros de vacas, veículo no qual também a maior parte das peças se casavam por encaixe. Duas travessas vazavam o miúle e nelas se encaixavam as cambas. O mesmo para os coquilhos e estreitoiras que esganavam o eixo e o obrigavam a uma chiadeira que se confundia entre o canto e o choro.

E que bem ele sabia do ofício. Vi-o, muitas vezes, a manejar o machado, a enxó, o trado e arco-de-pua e o formão. Tudo manual. A energia elétrica não morava em Cujó. Era coisa do porvir. Homem sem letras, esse meu tio, foi da sua boca que ouvi piadas carregadas de humor e de malícia, que jamais esqueci. Vou contar duas:

Um dia, no alpendre onde tinha a oficina, encontrei-o a desbastar um eixo de freixo. E fiz aquela pergunta de quem chega e não fica calado:

- Então, tio, que faz hoje?

biblioteca-frente-2Ele, de farto bigode a cair-lhe para a boca, já entrado na idade, espetou o fio da enxó no eixo que desbastava, como que pondo-a em repouso, olhou-me no rosto para apreciar a minha reação facial e respondeu-me com o sorriso matreiro que lhe era próprio:

- Estou aqui a ver se ainda con...consigo metê...metê-lo em duas novas.

E, depois de apreciar a minha reação inocente, apontava para as rodas novas que ao lado esperavam o eixo.

De outra vez, num domingo logo depois da missa, adregou encontrarmo-nos a sair para o monte com os gados. Íamos conversando. Ele ensinando e eu aprendendo. De repente, vindo de nenhures, apareceu um carneiro tresmalhado em busca de fêmea, tal o jeito de farejar ovelha atrás de ovelha, naquele balir de macho a pôr a língua de fora “mémémé...brrr...”, quiçá a maneira ovina de dar e pedir beijos.

 

Face a isso, o meu tio, naquele seu habitual estilo de falas mansas entrecortadas como se sofresse de gaguez, assim fazendo só para retardar a piada, disse-me:

Ó ....ó...so...sobrinho. O se...senhor padre, lá na mi...missa, disse que o di...diabo tenta os homens. O que ten...o que tentará estes ani...animais?

 

Robe-8-aCriança ainda que eu era, não obteve de mim resposta alguma, nem eu tinha entendimento para perceber o alcance da malícia posta na pergunta. Mas a piada ficou e aqui estou hoje, com 81 anos de idade, a lembrar esse meu tio que fazia perguntas para nos pôr a pensar. Há quanto tempo ele deixou o mundo, senhores!

E foi assim, ouvindo, vendo e aprendendo, com o saber acumulado nos caminhos da vida que, em 1980, em Castro Verde, carpinteirei as primeiras camas de solteiro para os meus filhos e, com as mesmas ferramentas, em Castro Daire, em 2021, ano de PANDEMIA e de CONFINAMENTO, me dispus a restaurar a cadeira que prestes estava a ir para a fogueira. Não foi. E creio que, com esta minha atitude, honrei o artesão que, algures em tempo e espaço incertos, a “manufaturou”, nela pondo os seus afetos, os seus conhecimentos, a sua arte e técnicas tradicionais de entalhe, sem prego nem estopa.

As fotos que ilustram este apontamento são disso a prova viva.

 

SEGUNDA PARTE

Restaurei a cadeira e não só. Abandonada, pernas ferrugentas e tampo a esfarelar devido à humidade, fui encontrar a mesa de tábua-pan que eu, a minha mulher e filhos usámos, em tempos idos, nos nossas viagens de férias e de campismo.

PERNASDe pernas articuladas, tipo tábua de passar a ferro, acamava-se facilmente no fundo da bagageira do carro e com os demais apetrechos por cima, aí íamos nós conhecer Portugal, a desfrutar a natureza e a dormir nas tendas canadianas. Uma tenda de casal e duas individuais.

A minha esposa, que toda a superfície lhe servia para desenhar e pintar (veja-se a minha crónica “A GRANDEZA DA ARTE MINIATURAL”,  disponível in link http://www.trilhos-serranos.pt/index.php/cronicas/609-a-grandeza-da-arte-miniatural.html...), fez do tampo uma tela e ali deixou uma paisagem de céu, terra e mar com marítimos ligados à faina do moliço. Um quadro a atirar para o “impressionismo”. Parece que, passando nós as férias na serra - Mirandela, Vila Flor e Gerês - era uma forma de, às refeições, termos um cheirinho de mar e lembrança de outras férias passadas nas praias, seja no Algarve, de Mil Fontes, da Figueira da Foz, de Mira, Espinho e também, as últimas, em Caminha, Braga e Penha, em Guimarães.

QUADRO-1Com tal historial no corpo, mais viajada no norte de Portugal que no sul, sem serventia, perdida de vista, há anos, observei agora o seu miserável estado. Num só momento viajei com ela por todos os caminhos andados e resolvi restaurá-la. Não enquanto mesa inútil à alimentação do físico, mas sim um quadro de parede e deixar para os meus filhos e sua prole, mais uma obra de arte da sua mãe e avó. Alimentação do espírito.

Tábua-pan a esfarelar, as colas e vernizes disponíveis no mercado ajudariam a estabilizar aquele suporte da pintura. E feito isso, os alisares que cercaram as anteriores portas de madeira substituídas, cá em casa, (guarda o que não presta e terás o que é preciso) estavam a jeito para fazer uma moldura, mesmo que grosseira.

Pensado, dito e feito. Desta vez, diferentemente do que fiz com a cadeira, deixei no esquecimento esse seu estado lastimável e só a fotografei depois de lhe ter posto o caixilho.

COSTASAconteceu que, durante a estabilização da face inferior do tampo com tintas várias, com vista a estabilizar o esfarelamento, eis que me apareceu uma pintura de “arte moderna”, na qual escrevi o meu nome e ano. Fica datado o restauro e a pintura do acaso. Fica voltado para a parece, não se vai ver, mas as tintas e vernizes sobrepostos cumpriram os objetivos delineados.

Para remate e mais consistência, só faltava cintá-la em toda a volta, pois da cinta original, nem centímetro, nem cor.

Fui ver o que havia no mercado, dando e recebendo ideias de amigos que, sabendo-me professor aposentado, ligado ao ensino, à escrita e vídeos, capaz escrever crónicas e livros, não hesitam em considerar-me um factótum.

E, nessas diligências, o mais prático que encontrei foi uma fita de vinil castanho autocolante, que se prestava lindamente aos meus objetivos. Botei mãos dele e o resultado está à vista. Comprei-a no estabelecimento PREÇO DA CHUVA, do meu amigo LINO MENEZES e um velho tampo de mesa de campismo feito de tábua pã, onde o bicho de madeira, seguramente, não ferra mandíbula, virou quadro de parede, pronto a enfrentar séculos vindouros e a perpetuar o nome da artista que, no canto inferior direito, deixou juntamente a data, assim: Mafalda,  Fareja, 1984.

QUADRO-2

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.