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quinta, 01 janeiro 2026 13:57

DO MEU LIVRO “JULGAMENTO” - 2

Escrito por 

O DRAMA DO JUIZ PRUDÊNCIO

ADAPTAÇÃO DO ÚLTIMO CAPÍTULO DO MEU LIVRO «JULGAMENTO» ed. 2000 (esgotado)

O livro põe o enfoque no sistema de JUSTIÇA vigente, na tipologia de crimes levados a tribunal, a indumentária dos presos, o modo como chegavam à prisão (homens e mulheres), a corrupção, o nepotismo, toda a problemática social, humana, histórica,  atávica e emergente. Não faltou a igualdade de gênero e a homosexualidade. O jovem Meritíssimo Juiz Prudêncio, recém-chegado ao Tribunal da Comarca, entra ocasionalmente numa barbearia e através do barbeiro inteira-se do meio social envolvente e das intrigas próprias de uma comunidade rural.

É um «romance histórico» no qual se entrelaçam «factos documentados e fontes citadas», com os liços de ficção necessárias à  narrativa que se desenvolve numa vila de provincia e tem como protagonista principal um jovem juiz, recém chegado ao Tribunal de Comarca. A teia urdida e acabada saiu do tear deste «tecelão das letras», mas a leitura, essa deixei-a, então, para terceiros, pessoas de carne e osso, a que se soma agora a joeira do  novel leitor conhecido por INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL


PRIMEIRA PARTE 


AB-Capa-9O Juiz Augusto num mundo assim em que a “vida é sempre um processo de devir(2) não sabendo já se em pensamentos e obras era um homem do século XIX ou se era um homem do século XX, se calhar do século XXI todos fundidos num só ser, ora se via no meio rural envolvido na resolução de contendas simples ligadas a problemas de águas regos e caminhos cujos protagonistas eram camponeses vestidos de burel e de linho ora se via no meio de colegas seus de outros tempos e outros lugares a discorrerem sobre crimes de colarinho branco corrupção peculato droga e coisas que ele nunca sonhara virem a existir Isso e as pressões individuais ou mafias organizadas apostadas em fazerem emperrar a justiça e a quererem que os crimes prescrevessem no decurso do tempo.

Face ao que via e vivia interrogava-se sobre os comportamentos sociais, os seus próprios comportamentos, sobre os caminhos da justiça e sobre o símbolo que a identifica, essa mulher de olhos vendados, esse mito em que, à falta de melhor arrimo, à falta de influências poderosas e sub-reptícias, o povo cego acredita

Num ai tudo tinha mudado A indumentária tinha passado de moda, nem jaquetas nem chapéus redondos de aba larga, nem braguês Tudo tinha sido substituído por vestimentas diferentes esquisitas inventadas não se sabe por que extravagante estilista.

Em moda estavam os telemóveis, esses telefones portáteis, meios de comunicação pessoal, entre os quais se cruzava o mundo oculto dos negócios, das falcatruas, das amizades, dos encontros íntimos de «amor com amor se paga» ou sexo ao domicílio vazio de sentimentos pagos a peso de ouro As diligências puxadas por cavalos deram lugar a máquinas possantes que sobre rodas roncavam deslizantes e velozes sobre fitas negras de asfalto a rasgarem o país de lés a lés. Os jornais falavam de viagens à Lua e de estações espaciais Os cientistas faziam experiências no espaço e de lá mandavam fotos da Terra que Lua se tornara. Muita coisa mudara Havia comunidades gays, por essa Europa fora e pelo mundo inteiro, a lutarem pelo seu direito à diferença, ao mesmo tempo que vozes puritanas a protestarem contra tal depravação. SIDA e DROGA eram o mal do século A poluição do planeta outro mal. Que choque. Não, não era a Torre de Pisa que estava inclinada O mundo é que estava torto. O mundo estava a desabar. A revolução sexual dos anos sessenta esvaziava conceitos de ética e moral cristalizados na mentalidade coletiva com patine cristã. Os costumes sofreram tal abalo que décadas mais tarde os legisladores foram forçados a “erradicar do direito penal todo o dogmatismo moral e a inscrever nos códigos penais a “proteção da liberdade sexual das pessoas e não do interesse da comunidade (...) que o bem jurídico em causa era a liberdade e autodeterminação sexual, o direito de cada um, quando adulto e capaz, ter a livre disposição do seu sexo”(3).

O sol deixou de marcar o ritmo da vida. A noite tornara-se dia.O milagre da iluminação elétrica. Nas cidades, vilas e até em muitas aldeias, milhentos espaços de lazer e divertimentos noturnos casas de alterne esvaziavam o sentido das pastorais episcopais que proibiam os serões esses ajuntamentos de homens e mulheres urdidos pelo Diabo. Os parapeitos das janelas e os passeios das ruas que testemunharam durante séculos os ensejos e segredos dos namorados passaram à história. Os encontros de namoro, amor e sexo, eram marcados pelo telefone e a grandes e pequenas distâncias segredavam-se ao ouvido as mentiras de conveniência e/ou os sentimentos mais puros e verdadeiros servidos na bandeja da paixão. No campo dos encontros e das afetividades dois mundos: o mundo aparente visível enquadrado na matriz dos valores institucionais vigentes e o mundo real oculto que, escapando à luz da comunidade, era iluminado pelos holofotes dos afetos dos caprichos e dos prazeres. Que mundo! Os crentes domesticados à força de conselhos, à força de excomunhões, à força de penas pecuniárias ou à força de prisão no aljube respeitando durante séculos os Domingos e dias Santificados logo que ouviam a voz dos sinos ainda que agarrados à mesma tábua de valores viravam-se agora para as catedrais do consumo e do futebol, enchendo supermercados e recintos desportivos pujantes de cor e vida Incomodado com isso o Papa apostado em reencaminhar o seu rebanho à semelhança de D. Francisco Monteiro Pereira de Azevedo bispo de Viseu que em 1793 invetivou aqueles que não respeitavam os dias Santificados condena os instintos hedonistas das ovelhas tresmalhadas.

SEGUMDA PARTE

 

Num canto do sonho a dedilhar as teclas de um piano em miniatura que tinha pela frente uma pequena tela retangular, um homem. Aproximou-se dele Que sonho! As teclas exibiam o abecedário completo e delas em vez de saltar música como soía saltavam letras que se alinhavam em palavras e frases nessa pequena tela. O homem escrevia sem caneta sem tinta nem papel. Afinal não era um piano. Aquela máquina era um computador Outra maravilha do século. Que milagre aquele! Aproximou-se e não tardou a ver que era ele próprio que estava a ser retratado. Mas o escriba, dando provas de o ter acompanhado desde o nascimento não registava de si um só traço físico Não era uma criatura de barro feita à imagem do criador. Bem ao contrário vincava a traços carregados as suas vivências, as suas preocupações a sua maneira de estar no mundo, o mundo onde se movia a sua personalidade a sua mentalidade A sua alma O seu retrato. O retrato de um D. Quixote com um pé no passado outro no presente e virado para o futuro a lutar contra moinhos de vento sem Rocinante nem Sancho Pança.

MOLGOS-4E outra vez com Juliana. Sempre ambos. Ora eram novos ora eram velhos. Era como se o tempo saltitasse sobre eles como se fosse longe e retrocedesse transformando em cada vaivém os seus corpos os seus rostos os seus apetites o seu ser. Novos com o ânimo e o fôlego próprios da juventude riam e saltavam corriam um atrás do outro e excitados pelo murmúrio das águas e vegetação luxuriante que os rodeava ali no Poço dos Molgos ali everywhere partout por toda a parte entregavam-se a jogos de amor, humor, graça e sexo.

Estranho era o sonho e estranhas eram algumas atitudes de Juliana no ato da entrega. Envolvidos em abraços beijos afagos e carinhos era como se ela escondesse algo que queria dizer e não podia. Um mistério! Um mistério que lhe brilhava nos olhos mas que os seus lábios silenciavam. Interrogada, irrompia em doloroso pranto em pesado silêncio Como ela amava! Como ela sofria! Ele tentava romper o bloqueio. Tentava decifrar o mistério mas o resultado era sempre o mesmo Não fora as carícias delicadas, o entrelaçar dos dedos, os afagos nos cabelos, os beijos ardentes e dir-se-ia que num só instante as labaredas de uma fogueira eram transformadas num glaciar. Que segredo ocultaria ela? Que coisa a fazia sofrer tanto sempre que estavam nos braços um do outro? Mesmo assim a força e a virilidade da Natureza estava fora e dentro de cada um deles. Eram novos, mas ato contínuo e num só instante ei-los bem diferentes Ei-los protagonistas de idade avançada esquecidos do papel que representaram com corpo e alma no palco da vida. Corpos cansados estavam agora para ali sentados à sombra das árvores. Ele a ler um periódico local e ela a fazer renda ou tricot. Ele interessado nos problemas políticos e sociais que afetavam a humanidade, olhos fitos nas mudanças e permanências registadas na fita do tempo. Ela ocupada com adereços caseiros. Felizes mesmo assim Amando-se como dantes atraídos por um sentimento forjado e sedimentado ao longo de anos de convivência de companheirismo e de amor ali estavam eles ao lado um do outro como sempre. Mas perdidas que foram forças as motivações da juventude o centro do mundo deixou de ser o que era. Enquanto novos todo o tempo era pouco para se olharem para se tocarem para se possuírem. O prazer e o desejo os encantos mútuos eram a razão do seu viver. Que diferença depois Santo Deus! Continuavam companheiros a amar-se apaixonadamente como sempre. Porém ambos reconheciam que cínico tinha sido o autor dramático que distribuiu os papéis daquele jeito. Que exigiu às personagens tais mudanças. Que fez delas protagonistas daquela peça. Obrigados a permanecerem sempre em palco, não podiam fugir ao seu destino Tinham de mostrar-se como eram. Não tinham se usar a máscara. Sim. A verdade nua e crua da vida devia estar sempre no palco. Alquebrados pela idade rostos encarquilhados, cabelos encanecidos, falhos de imaginação e de apetites carnais, permanecendo em palco sem todavia mudarem de cenário, a nenhum deles era capaz de ocorrer a ideia, a gracinha, de verem naquele trecho do rio a mijar para o Poço dos Molgos outra coisa que não fossem as águas entaladas a chorar doridas os apertos e estrangulamentos sofridos. Analogias e atitudes eróticas eram coisas da juventude não eram coisas para pessoas da sua idade. Era a lei da vida.

TERCEIRA PARTE

Que sonho esquisito. O juiz volta-se na cama. Mantém a posição por momentos, mas logo se volta novamente.

MOLGOS-15Às vezes respira fundo. Outras vezes solta gemidos e o seu corpo ora parece estar possuído de convulsões, ora fica parado como se nada estivesse a acontecer. Não sabe se dorme ou se está acordado Já não sabe onde está a fronteira que separa a realidade da fantasia. Mesmo em sonho parece ter consciência de ser juiz e estranha o modo como vive assim com Juliana. Não contraíra matrimónio segundo manda a Santa Madre Igreja e sem anátemas públicos viviam ambos felizes e humanamente realizados. Mal se conheceram ainda e guiando-se ele pelos princípios morais que a sociedade impunha como se explicava tudo aquilo? Um jovem na flor da idade e ao mesmo tempo um homem que já perdeu a juventude? Um guardião das leis e dos bons costumes e ao mesmo tempo um marginal? Um sonho agradável que deseja prolongado e ao mesmo tempo um pesadelo de que quer acordar rapidamente.

E acordou.

Que alívio! Mal voltou ao mundo palpou-se, fixou os olhos no teto do quarto e respirou fundo. O sonho tinha passado, mas o sonho fazia parte do seu eu. E cogitando sobre a grande viagem que fizera, sobre o que vira e sentira, as emoções e pensamentos que tivera, a paixão cega que vivera nos braços de Juliana, não teve dificuldade em reconhecer em ambos as personagens principais da sessão noturna exibida no animatógrafo onírico. Viu o passado e o futuro. O seu passado e o seu futuro. O seu destino estava traçado. Juliana, aquela menina que, à saída da Igreja, lhe lançou um olhar de boas vindas, aquela menina que, no dia seguinte da sua chegada, se foi prantar em frente da janela da estalagem acompanhada de uma amiga, aquela menina, filha do Rangel, seria sua esposa. E a pensar nisso, adormeceu novamente.

Mas não foi, não foi sua esposa. Um dia descobriu o mistério que tanto o intrigava durante as suas relações íntimas com Juliana. E que mistério! Ela tinha tentado tudo, tudo, tudo para amar o homem da sua vida. Não o tinha conseguido. Tinha travado em vão uma batalha consigo própria. Incapaz de direcionar a sua afetividade numa só direção a voz da natureza falou mais alto. Não podiam continuar a viver aquela relação de prazer e de dor, de entrega e de recusa. De comunicação e de silêncios. A angústia de viver baloiçando na corda de sentimentos e comportamentos contraditórios estava a esboroar-lhe a identidade. Ela tinha um nome, tinha um corpo, tinha um rosto, via-se ao espelho, mas não se reconhecia. Não sabia quem era. O sol perdera o brilho. A noite caíra sobre si. Vivia angustiada e triste.

Num primeiro momento o juiz sentiu-se traído. Sentiu-se enganado. Apeteceu-lhe descarregar sobre ela carradas de ódio, carradas de raiva por ela lhe ter mentido sem mentir. Mas ato contínuo afastou para longe tão vingativas intenções. Ela era simultaneamente digna de pena e de respeito. Não tinha culpa de ser como era. Não se fizera. Nascera assim. Ele racionalista e lógico, face a tantas contradições, pela primeira vez chorou. Mais uma vez fizeram amor, mais uma vez a almofada ficou ensopada de lágrimas. Amargurados, torturados, compreensivos puseram fim à relação, mas não à paixão.

E não. Para o juiz, não foram os amplos estudos que fizera na universidade e fora dela que o levaram a conhecer o ser humano nas questões de foro pessoal e íntimo. Não foram os sábios do direito, nem os autores de tratados éticos e morais. A maior lição da sua vida para compreender as pessoas, nas suas perplexidades e contradições, incluindo a ele próprio, foi a vivência dessa paixão. Foi ter passado por essa experiência. Foi ter vivido dolorosamente o drama de Juliana, o drama de se ver votada ao ostracismo, se a sua verdadeira natureza fosse exposta à luz do dia. O seu silêncio era eloquente e justificável. Por isso, em vez de uma sentença draconiana, vingativa, despeitada, nem a mais leve recriminação. Ele carregaria toda a vida a cruz de ter perdido Juliana. E ela, desgraçadamente, carregaria a cruz de não poder ser quem era, de sorrir, de extravasar, sem tabus, o que de mais belo existe no ser humano: o amor. Não merecia condenação. Na balança da Justiça os sentimentos dele tinham um peso igual aos dela. Eram ambos pessoas. Sem depoimentos, nem testemunhas ele conhecia a sociedade em que viviam, ele conhecia o prazer e a dor, dele e dela. A esperança e desilusão, dela e dele. A felicidade e a angústia, dele e dela.

É. Os juízes, com as suas caras de réus, metidos nas vestes negras da Justiça, austeros e distantes, não passam de simples e frágeis seres humanos. Tão frágeis e tão humanos quanto todas as pessoas. Também amam, também sofrem, também sonham. As suas sentenças, por mais objetivas que pareçam, não deixam de ter a sua marca pessoal, as suas razões, as suas emoções, a sua subjetividade.

QUARTA PARTE

 

4-PostalENFIM, A AUDIÊNCIA

Nas vésperas do julgamento o juiz desapareceu.

Sobre a sua secretária, anexo a uma pilha de notas e apontamentos, um extenso manuscrito relatava o porquê. Falava das relações íntimas que tivera com uma mulher, cujo verdadeiro nome ocultou substituindo-o pelo de Juliana, pois não seria ele a desvendar o segredo dela, atirando-a para o pelourinho. Não se conformara com a perda dessa mulher, não se conformara com a letra e o espírito das leis de que ele era guardião. As mudanças que ele vira em sonho, relativas à liberdade e autodeterminação sexual consignada nos Códigos Penais eram coisas do porvir. Estavam a um século de distância. E quantos séculos passariam sobre esses Códigos até que conceitos e preconceitos fossem expurgados das mentalidades? Ele, à luz dos valores do seu tempo, tolerava o intolerável. Ele, que conhecia de cor e salteado todos os artigos, parágrafos, alíneas e vírgulas sobre o direito à propriedade privada, sobre a violação da coisa alheia, sentia-se inclinado a partilhar os sentimentos e o corpo da amada. Quantos séculos passariam até que aquela sua atitude fosse aceite sem recriminações sociais? Via-se a fazer parte de uma trindade, parte de um mistério que ele próprio não compreendia. Há razões que a razão não entende. Momentos havia que se não reconhecia. Não sabia quem era. Que feitiço! Não acreditava em bruxas e benzedeiras, mas sentia-se tentado a descobri-las, ir ao seu encontro e pedir-lhes uma droga mágica para voltar a ser quem era. Numa encruzilhada de contradições, ele que se amestrara nas subtilezas do contraditório, que, decidido, sempre prosseguia um rumo em busca da verdade, que distinguia lucidamente o Bem do Mal, academicamente preparado para ajuizar e sentenciar questões do foro comum, sentia-se incapaz de gerir as contradições de foro íntimo. As relações amorosas que assentavam na matriz de Adão e Eva já não tinham para ele qualquer sentido. Defensor da transparência e da autenticidade em todo o tipo de relações humanas, tentado a violar as leis e os valores de que era guardião, decidido a ser e a não apenas parecer, não encontrou outra saída senão a morte. O mundo do seu tempo não era o seu mundo. A terapia que o levasse a “desviar-se da ideia que o tornava inaceitável aos seus próprios olhos, indigno de consideração, obrigado a viver segundo as normas dos outros”(1) estava a cem anos de distância. E mesmo assim, o mundo corrupto, poluído, consumista e veloz dos fins do século XX, mundo que vira durante o sonho, tinha bem pouco de aliciante. Não aguentava mais. Um dia antes da audiência geral dirigiu-se ao Poço dos Molgos. Subiu a um dos Mógos, esses marcos naturais que limitam as margens do rio Paiva, esses marcos que deram o nome ao sítio, ali, onde ele sonhara ter Juliana por esposa, pôs fim ao sonho da sua vida. Suicidou-se a pensar em si, na Juliana e nas leis aberrantes que proibiam que cada um amasse segundo os ditames da sua natureza. Três dias depois foi encontrado a boiar por um pescador de trutas. Foi a enterrar. Para a campa levou o segredo que vivera. Ninguém na vila tomou conhecimento dele. Ninguém, não é bem assim. O capelão Ângelo dos Santos, que estivera presente no enterro, sabia de isso tudo há muito tempo. Ensinara o catecismo àquela menina. Vira-a crescer. Sabia das suas paixões. Era o seu confessor como passou a ser também confessor do Juiz. Ao confessionário levaram ambos o pecado das suas relações amorosas e proibidas. Ele conhecia muito bem o mistério da trindade.

Noutro papel solto, estava marcada a data e o local do julgamento. Segundo ele, o edifício que ostentava a legenda Domus Jvstitiae ficaria de portas fechadas. O julgamento iria decorrer em lugar amplo e aberto. Era sob a frondosa copa do Carvalho do Presépio, ao Mosteiro.

E foi. Foi à sombra deste Roblin dos Bosques que outro juiz, os jurados e mais elementos ligados ao Tribunal se reuniram. Esclarecidos, todos, sobre o assunto a tratar, o juiz, escorado na sapiência académica e da vida, está pronto a exercer a sua missão. Sentado atrás de uma mesa de carvalho improvisada, pega num calhau rolado, bate com ele três vezes no seu tampo e diz, em voz alta, de modo a chamar a atenção do mais desatento:

- Está aberta a audiência!

 

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(1) ROGERS, Carl R. “Tornar-se Pessoa”, Moraes Editores, 1985, pp. 67.
(2) ROGER, Carl R. - “Tornar-se Pessoa”, Moraes Editores, 1985, pp. 38
(3) Código Penal, 1996, Capítulo V, artº 163º pp. 623

 

 

 

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.