Trilhos Serranos

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quarta, 31 dezembro 2025 19:28

DO MEU LIVRO “JULGAMENTO” -1

Escrito por 

O JUIZ E O BAETA
ADAPTAÇÃO DE UM CAPÍTULO DO MEU LIVRO «
JULGAMENTO» ed. 2000 (esgotado)

O livro põe o enfoque no sistema de JUSTIÇA vigente, na tipologia de crimes levados a tribunal, a indumentária dos presos, o modo como chegavam à prisão (homens e mulheres), a corrupção, o nepotismo, toda a problemática social, humana, histórica,  atávica e emergente. Não faltou a igualdade de gênero e a homosexualidade. O jovem Meritíssimo Juiz Prudêncio, recém-chegado ao Tribunal da Comarca, entra ocasionalmente numa barbearia e através do barbeiro inteira-se do meio social envolvente e das intrigas próprias de uma comunidade rural.

 PRIMEIRA PARTE

AB-Capa-9O Meritíssimo Justino Augusto Prudêncio levantou-se cedo e foi para a rua. O seu propósito era conhecer mais e melhor as pessoas e a terra onde sabia que teria de passar alguns anos. Entrou na barbearia.

Tratava-se de um pequeno compartimento assoalhado com tábuas de pinho apresentando-se algumas delas bastante gastas pelo uso, carcomidas em vários sítios, evidenciando claramente o laborioso e quotidiano trabalho das térmitas, vidas menores sempre apostadas em reduzir a pó a mais simples, profana e funcional construção de madeira ou a mais complicada obra de arte. A tábua mais plebeia e chã pisada por toda a gente e a talha nobre, dourada e sacra dos templos públicos e capelas privadas das casas fidalgas.

LINO-TOPOUma cadeira made in América, uma mesa e duas prateleiras pregadas na parede por cima dela e um preguiceiro encostado à parede oposta à da mesa, constituíam, a bem dizer, o mobiliário da oficina. Mas existia também a um canto, com um certo toque de presença, como se a higiene e a limpeza ali não fossem descoradas, uma escarradeira de esmalte mordida no rebordo em vários pontos. A cadeira era o móvel que mais dignidade aparentava. De assento redondo e almofadado, encosto forrado de cabedal, tinha viajado do Brasil até Portugal e ostentava no pousa-pésa marca do fabricante"Rochester New York U.S.A." Tinha chegado  Castro Daire por mãos de um emigrante que às terras do Novo Mundo tinha ido demandar fortuna, mas que acabara por ganhar a vida a cortar barbas e cabelos em Minas Gerais. Não foi um daqueles emigrantes que, de acordo com a legislação brasileira, eram recebidos a bordo nos cais de desembarque para, gentilmente, serem acomodados enquanto não tomassem destino para as províncias do Paraná, Santa Catarina ou Rio Grande do Sul, onde recebiam terras para cultivarem. Também não foi um daqueles emigrantes engajados com promessas de mundos e fundos, para depois, no Rio de Janeiro, serem pasto da febre amarela ou serem enviados como carneiros para as fazendas do Equador, onde lhes esfolavam coiro e cabelo sem qualquer proteção legal. Foi um daqueles que, por iniciativa própria, pôs o coração à aventura e, partindo de Lisboa, muito antes da companhia de navegação Messageries Maritimes cobrar 27$000 reis na 3ª classe, 67$500r na 2ª e 90$000r (1), partiu com destino a Minas Gerais.

Depois de muito aprender nas andanças da vida, de posse de uma brochura publicitária da Mala Real Inglesa que, em 1842, começara a carreira para as Antilhas e depois a alargara às terras do Novo Mundo com frota de paquetes assinalável - o Douro, Mondego, Neva Minho Boyne e Tiber - compra uma passagem na 3ª classe por 66$000r e regressa a Portugal.

De volta à Pátria, farto de tosquiar nédios índios, negros carapinhados e brancos assim-assim, o desafortunado castrense, que nunca seria conhecido pelo epíteto de brasileiro, mas sim pelo de baeta, por sempre ter usado uma jaqueta desse tecido, fez-se acompanhar das ferramentas e móveis em que assentara e vivera o sonho bem diferente daquele que tivera um dia, quando se resolvera deixar parentes e amigos que arrastavam a vida agarrados ao cabo de uma enxada, à rabiça de um arado ou a quaisquer artes ligadas aos afazeres do mundo campesino.

LINO-1 - CópiaCadeira viajada, sabida e coçada, longe do país e do continente que a viu nascer, cheia de anos, ela ali estava pronta a desempenhar as funções para que foi concebida, exibindo com orgulho ao pé descalço, à sola do sapato ou à chapa do tamanco serrano a sua marca de fundição e o nome da cidade e do País onde ganhou desenho e forma antes de viajar pelo mundo, atravessando continentes e oceanos, em cima de carros, carretas, comboios e vapores.

-Sente-se, Senhor Dr. Juiz! Então vamos lá desbastar esta floresta?

-Sim, senhor, como vai vossemecê?

-Muito bem, obrigado.

Para aquele barbeiro todas as cabeleiras eram uma floresta. Ele lá sabia por quê. O facto era que muitas vezes, ao varrer a salita para a limpar os cabelos caídos no soalho, deparava com uns certos animaizinhos que não pediam licença a ninguém para, sem pagarem foro ou renda de espécie alguma, se tornarem inquilinos seus e passearem-se descaradamente por ali como se quinta própria habitassem.

Satisfeito por ter ali tão ilustre pessoa, ele e o seu colega (só havia dois barbeiros na terra) foram os primeiros a saber que novo cliente tinha chegado à vila. Nesta barbearia, porém, não era costume entrarem "pessoas de sociedade". Essas iam à barbearia ali para os lados da Igreja, que o juiz não tinha descoberto no dia anterior. Nesta entravam as pessoas ditas menos gradas da vila e arredores. Ali vinham parar os pequenos comerciantes e artesãos do burgo, os criados e camponeses. Os patrões, clérigos e autoridades judiciais e administrativas, costumavam parar na outra barbearia, pois não gostavam de sentar-se na cadeira onde se sentava a plebe e mesmo aquelas pessoas que, oriundas da classe baixa, tinham subido na vida, continuavam, por preconceitos atávicos, a serem marginalizadas pela fidalguia. O barbeiro estranhou, mas não se fez rogado e sentiu um gozo muito íntimo de poder rir-se junto do seu colega, quando lhe dissesse que tinha sido ele a tosquiar o Juiz.

O juiz acomodou-se na cadeira.

- Então o senhor Dr. Juiz é que vai agora aplicar a justiça, cá na terra? - pergunta o barbeiro, manejando a tesoura, pronto a iniciar a obra.

- Claro, assim o espero e desejo.

- Olhe que é bem preciso. Há para aí uns mariolas...

O homem da tesoura sabia muito. A sua barbearia era uma universidade. As suas andanças por longes terras e as conversas tidas e havidas anos a fio com os seus fregueses, cada qual abordando aspetos do quotidiano, da sua vida e da dos outros, problemas sem importância, mas também grandes problemas, questões por causa de um caminho, de um rego de água, ou de um marco sesmeiro, paredes meeiras, beirais vizinhos, janelas a violarem o espaço que não deviam, demandas judiciais por causa de dívidas atrasadas ou não pagas, devedores penhorados por insolvência, hipotecas de casas e terras a reverter judicialmente para os credores, ferimentos causados em rixas de festas e romarias, de tudo ali se falava em bons e maus termos.

Para discorrer desempoeiradamente sobre tudo isto valera-lhe o facto de mais de uma vez ter sido jurado no tribunal e ter aproveitado bem os conselhos de Simão de Mântua, "O Mercador de Feiras", personagem criada e imortalizada no livro do mesmo nome de autoria de N. Jussieu, editado em Portugal no ano de 1856, muito divulgado nos meios rurais e o qual o mestre barbeiro conhecia de fio a pavio. Isso e por tanto se discutirem as demandas na sua barbearia é que o nosso mestre se tornou bacharel em tudo, especialista em leis, para não referir já as funções de dentista e de cirurgião que também desempenhava e cujo mérito não deixava por mãos alheias, como acontecia com outros colegas de ofício de quem se ouviam frequentes queixas por não atinarem com as mezinhas adequadas às maleitas que tratavam.

No tocante às demandas, conhecidos os argumentos e as sentenças, os depoimentos das testemunhas, as condições que levaram ao litígio, conhecido tudo isso era o bastante para, por analogia, o barbeiro, de borla, debitar conselhos a qualquer cliente que abordasse a questã, em que estivesse envolvido ou em vias de se envolver. E não foram poucos aqueles que, seguindo o seu conselho, se livraram de gastar legítimas com os advogados, sempre ávidos que lhes caíssem nas suas moradas os desavindos. É que ele não nutria nenhuma simpatia por tal espécie de profissionais. Ele sabia que todos os agentes da Justiça se pagavam à pauta, razão por que enchiam folhas e mais folhas, repetindo nomes de pessoas e de lugares, assuntos, argumentos, depoimentos e tudo quanto servisse para satisfazer os seus desígnios interesseiros, dando que fazer ao aparo de aço, esse invento notável que veio substituir a pena de pato no serviço da escrita. Conhecendo tal artimanha, parece que consentida por lei, ele nunca deixava de evocar uma história, muito divulgada entre o povo. Era a história dos dois irmãos que herdaram uma vaca por morte dos pais. Sendo dois herdeiros e uma só vaca herdada, eles resolveram consultar um causídico e este, atendendo-os em separado, foi dando razão a ambos, pagando-se dos conselhos e arrastando o processo até ao ponto de, à pergunta ingénua da esposa «afinal, homem, de quem é vaca, de um, ou do outro?» ele responder com toda a naturalidade e desfaçatez: «nem de um nem de outro, a vaca é nossa, mulher

SEGUNDA PARTE

Para além disso ele sabia que um conhecido causídico, com residência na vila, manobrava a justiça através de influências que tinha nas instituições e na política, fazendo pender as sentenças a favor da causa que ele pusesse em tribunal, tivesse ou não tivesse razão o seu constituinte. E não era só nos tribunais de primeira instância, tribunais onde ele exercia influência direta, mas também nos outros. Se sucedia haver recurso para a Relação do Porto, de Lisboa ou Coimbra, logo ele puxava pelos cordelinhos junto de amigos ou conhecidos que por lá tinha de modo a manobrar os conselheiros e desembargadores. Era tão certo ser ganha a demanda que ele pusesse em Tribunal, como certo e sabido era sair depenado todo aquele que tinha requerido os seus serviços. Justiça!? Q'é dela! Q'é dela! Q'é dela!!! 

LINO-COSTASMas isso era coisa que o Juiz estava ainda longe de saber.

- Diga-me, senhor...

- Jaquim, de minha graça.

- Diga-me, senhor Joaquim, costuma vir aqui um capelão baixote com uma verruga na sobrancelha...

- Sobrancelha direita, quer dizer Vossa Senhoria... Não, senhor Doutor, é o capelão Ângelo dos Santos. Capelães há por cá muitos, mas esse é identificado por toda a gente. Não desfazendo de ninguém, muito boa pessoa, se quer que lhe diga. Há por cá muitos, até parecem gasalhos em leiras cultivadas ou de pousio, logo depois de uma chuvada, mas nenhum deles é meu cliente.

- Há assim tantos?

- Espere para ver. Ainda não assistiu cá a nenhum jubileu, mas quando assistir verá. Junta-se aqui uma caterva de padres, os das capelanias e os outros, que até causa espanto.

O pente de osso, às vezes substituído pelos dedos da mão direita do artista, - ele era canhoto - passava pelo cabelo do Juiz puxando-o para cima ao mesmo tempo que o trique-trique da tesoura, na cantilena que lhe é própria, ia fazendo o desbaste necessário.

E o barbeiro não se mostrava muito parcimonioso na sua tarefa. O amolador de tesouras tinha passado havia pouco tempo por ali, tinha posto o rebolo a girar e, pedalando, pôs as tesouras a cortar como facas em queijo fresco: tric...tric...tric...

- Onde poderei encontrá-lo, esta tarde? - perguntou o juiz.

- Talvez em sua casa. Ele mora na rua direita, logo ali, à entrada da vila. Sabe que ele é diferente de alguns que por aí há.

(…)

Por falarem nos capelães e, talvez, ressentido por nenhum deles ser seu cliente, o barbeiro quis dizer ao juiz o que pensava da coroa deles, mas não teve coragem para fazê-lo. A falta de confiança com tão ilustre e inesperado cliente levou-o a calar-se.

O certo era que, no seu entender, as coroas não passavam de uma clareira aberta na floresta, clareira onde a bicharada residente, não obstante o pó de canphorautilizado para a eliminar, vinha estender-se ao sol quando lhe apetecia, caso o senhorio não usasse chapéu.

Nunca compreendera a razão da tonsura. Diziam-lhe que era o símbolo do desapego às coisas materiais, às coisas terrenas, mas tal desapego, salvo as exceções que ele muito prezava, era coisa que não via na maioria dos tonsurados. E logo ele, por cujas mãos passavam florestas cerradas, mas também grandes carecas, clareiras abertas pela Natureza nas cabeças de quem lhe apetecia, indiferentemente de se tratar ou não clérigos. A coroa era para si uma aberração. Estava certo que um dia, um qualquer Concílio futuro acabaria por pôr fim a tal bizarria.

Tric...tric...tric...tric...tric...trictric...

Enquanto, porém, isso não acontecesse era certo e sabido que, há falta de assunto para entabular conversa com um cliente, a coroa era o motivo predileto das suas ironias e não raro acontecia ele deleitar os fregueses contando a história passada com um padre de aldeia e sua criada, única pessoa a quem ele confiava o sublime trabalho de lhe rapar o círculo no toutiço.

Recostado na cadeira - o barbeiro utilizava geralmente o cliente como exemplo - o clérigo deixava-se adormecer profundamente, enquanto a criada, rapa-que-rapa, punha todo o seu esmero na divina tarefa que lhe era confiada. Para a coroa ficar perfeita, ela usava uma rodela do feitio de uma hóstia, não fosse, por descuido, fazê-la maior do que devia e, em vez de um círculo, produzir uma oval, um rombo ou outra qualquer figura geométrica, motivo de riso e escárnio para todo aquele que, por detrás, se desse ao cuidado de observar o resultado do seu trabalho.

TERCEIRA PARTE

piolhosUm dia, prestes a arrumar a tesoura, prestes a sacudir o amo para o devolver à realidade da vida, acordando-o de insondáveis sonhos em que por ventura mergulhava, eis que num rompante, emergindo da densa floresta, entraram na clareira, três minúsculos animais, por si desde logo identificados. Dois deles, de rabinho alçado, perseguiam-se um ao outro em jeito de quererem medir forças. Às voltas e reviravoltas, cada um deles denunciava a clara intenção de vencer o outro no duelo que marcaram pelo posse da fêmea ali presente, estando esta visivelmente mais preocupada em encher o bandulho através da ferroada de não tardou a dar mostras, aquietando-se assapada no sítio onde lhe pareceu mais conveniente, do que à luta que por si travavam os dois machos, aumentados aos olhos da criada pelas grossas lentes das suas interrogações e desejos. É que, catequizada como foi, desde pequenina, para, em quaisquer circunstância e momento, romper o biombo que separa a realidade da fantasia, penetrando, assim, no mundo das visões, ela, teve uma visão: esses minúsculos animais em luta, dos elefantes imitavam o grito de guerra, a tromba esticada, as orelhas em leque, duas montanhas em marcha a tentarem abalroar-se mutuamente. Dos touros imitavam o rodeio lento e cauteloso até encostarem as cornaduras, só se afastando quando um deles virou a cauda e se deu por vencido. Dos cavalos, a orelha voltada para trás, focinho esticado, a dentada certeira no pescoço, na garupa, ou o coice demolidor despedido sem destino. Dos carneiros, o recuo, a deslocação ócêtrás de uma dezena de metros para logo arrancarem frente a frente em alta velocidade na direção um do outro, ambos confiantes na sorte da estonteante marrada. Dos bodes, imitavam o gesto de se empinarem apoiados nas patas traseiras para depois se deixarem cair, cabeça com cabeça, num sobe e desce só visto, experimentando o estalo, o peso e o golpe das cornaduras. Dos cães imitavam a dentada baixa, as cambalhotas no chão, vira-que-vira, até um se retirar de rabo entre as pernas...caím...caím...caím. Dos gatos, o serro corcovado, dentuça à mostra, pelo eriçado, unhas distendidas e o fffffffffffff... ameaçador. Dos parasitas, rabinho alçado, lança, espada ou agulha em riste proporcional ao corpo e às intenções de cada um, duelo inaudito e nunca visto, ferindo-se por baixo ou por cima, cada qual procurando pôr o adversário fora de combate. Marchando, rodeando, trotando, rebolando, correndo ou esgravatando com as mãos no chão, tudo faziam sem se saber qual deles ostentaria os louros da vitória. Tudo faziam menos levantar poeira, porque o campo de batalha não era um circo romano nem uma arena construída para deleite dos aficionados de lutas violentas, sanguinárias e exterminadoras, mas sim a coroa de um clérigo que dormia a sono solto.

Curiosa e deslumbrada, fora da realidade, a criada ficou por longo tempo a apreciar a cena, embasbacada quer pelo inesperado e inédito da situação, quer interrogando-se sobre desfecho que teria a briga.

piolhos - CópiaDepois de muita luta, e voltando ela ao estado lúcido, um deles, visivelmente cansado e ferido na ilharga, dá-se finalmente por vencido. Manco, recolhe à floresta e o outro toma de imediato a direção da fêmea que, indiferente ao que se passou em redor de si, continuava a tratar do seu sustento. De ventre abarrotado com o sangue sugado do cérebro do clérigo dorminhoco, incapaz de se mexer com facilidade, não foi difícil ao macho vencedor demonstrar a verdadeira razão do duelo que gloriosamente travou sem saber que era observado pelos cúpidos e curiosos olhos de uma donzela. E ela, vendo o que viu, ficou atónita, abismada. O coito não era coisa que se fizesse aos olhos do mundo, e para mais ali, a conspurcar o produto do seu trabalho que pretendia sem mácula numa cabeça recheada de fé e exemplos castos. Um calafrio corre-lhe a espinha. Por momentos sente-se tentada para os pecados da carne, mas logo um credo lhe aflora aos lábios, atirando para as profundezas da sua alma tão atrevidos e pecaminosos apetites.

Não aguentava mais. De mãos trementes - aqui o barbeiro, colocando os polegares no cocuruto da cabeça do freguês e os restantes dedos a caírem junto das suas orelhas, exemplifica - zás!...esmaga entre as unhas tão descarados e insignificantes bichos, pondo fim a tão execrável ato. Ouve-se um estalido e daquelas duas vidas minúsculas, que não souberam escolher a melhor hora para a reprodução da espécie, nada mais restou que duas pelitas espalmadas e listradas nas angélicas unhas que, cheias de raiva, e se calhar de cio, ali mesmo lhes deram a morte. Inglório foi o esforço que o macho gastou no duelo pela posse da fêmea. Nulo foi o prazer de a possuir, por momentos, depois de vitorioso. De tudo, nada mais restou que duas manchas de sangue esparrinhado nas unhas brancas da zelosa e atenta criada. Esmagado assim, o casal, num misto de prazer e dor, nem se deu conta de entregar as alminhas ao Criador.

Tric...tric...trictric...

O juiz, atento ao silêncio do barbeiro, caso pouco habitual em profissionais de tal ofício, esteve mesmo para cortar-lhe o pensamento, esteve mesmo tentado a descortinar a razão de tal mutismo, tentado a adivinhar por que caminhos deambulava o espírito do mestre, mas, depois de alguma hesitação, resolveu antes ficar calado e deixar que a obra prosseguisse, que a tesoura continuasse no seu afã de cortar onde era necessário, de aparar o que era preciso, de limpar o que não fazia falta.

Depois da história, assim contada, seguiam-se risadas e comentários soezes, por via de regra pouco abonatórios para a criada e seu amo, por parte dos clientes. O barbeiro que não gostava de parasitas, mas que por força da profissão e da sociedade em que vivia tinha de conviver com eles, ficava-se a observar os gestos e os trejeitos, a ouvir os ditos da freguesia na mira de introduzir ingredientes novos na narrativa, quando, outra vez, tivesse de a trazer à baila. Daí nunca se saber se a história tinha algo de verdadeiro, se era fruto de conversas de circunstância, acrescida de detalhes que dessas conversas defluíam, ou simplesmente inventada por ele, para ridicularizar aquilo de que não gostava e em que não encontrava significado algum, embora tentassem, com palavras santas, convencê-lo do contrário.

E não deve o leitor estranhar o facto de tais personagens fazerem, a cada momento, parte das narrativas que preenchiam os escaninhos do seu saber. Para além da bicharada que muitas vezes ele via correr no sobrado da barbearia a esgueirar-se por entre as frinchas das tábuas carcomidas, depois de um corte de cabelo feito a camponês que só tomava banho de Páscoa a Páscoa, ou melhor dizendo, de Verão a Verão, bastava dar um passeio pela vila, aldeias e lugarejos do concelho. 

(...)

PULGAPULGA - CópiaE isto para não falar de pulgas, outra companhia sempre presente na habitação e vestuário do homem do campo. Para estas não havia pente ou ratoeira que as pegasse. Ao contrário do piolho que, atrevido, se passeava pachorrentamente por todo o lado, indiferente ao que pudesse suceder-lhe, escolhendo mesmo como habitat predileto a cabeça da gente, essa parte nobre do corpo humano mais fácil de coçar e de espiolhar, elas, preferindo o fofo cotão da lã ao áspero tomento do linho, o colchão de palha à tábua fria do soalho, refugiavam-se ardilosamente nas dobras da roupa, lugares escondidos e quentes, ourelas das calças e capuchas de burel, sempre prontas a fazer negaças às unhas que quisessem dar-lhes caça, sempre prontas e lestas a dar o pincho, mal fosse detetado o ninho em que coabitavam aos montes, ou intercetado que fosse o passeio solitário que faziam em demanda de picada alimentícia.

(...)

Tric...trictric...

A tesoura, ávida de corte, manejada pelas mãos hábeis do artista que não executa a obra sem ser ao ritmo sonoro do seu principal instrumento de trabalho, está prestes a descansar. Antes, porém, apara mais uma vez as sobrancelhas do Juiz, visita pela última vez a entrada das suas narinas e ouvidos de modo a que o cliente, não deixe de absorver todas as sensações e impressões da vida por impedimento dos pelos que a Natureza lhe pôs à entrada dos sentidos.

Tric...

- Pronto, senhor Dr. Juiz, ora veja-se ali ao espelho. Com esta poda tem a floresta desbastada para mais de um mês. Espero que volte...

- Assim será, senhor Joaquim. Quanto custa o trabalho do lenhador? - interrompeu o Juiz com ironia para usar a linguagem do barbeiro.

- Não é nada. Saiba Vossa Senhoria que todo o cliente que entra pela primeira vez na minha oficina, nunca paga o corte.

 

CONCLUSÃO

D.MIGUEL - CópiaNão era bem assim, mas o barbeiro, na mira de futuros cortes e na esperança de atrair o cliente, surripiando-o ao seu colega de ofício, que se gabava de ter o privilégio de todas as pessoas de sociedade caírem na sua loja, saiu-se com essa, convencido que o Juiz não esqueceria tão agradado gesto.

- Então muito agradecidorespondeu o juiz, ao mesmo tempo que lhe colocava uma moeda na palma da mão, como que surdo às últimas palavras do mestre.

- Senhor Dr. juiz...

- Fica assim. Eu cá voltarei daqui a um mêsdisse para sossego do barbeiro, percebendo a sua intenção interesseira - pois gostei do seu trabalho.

- Será sempre bem-vindo. Então até à próxima.

Colocou o chapéu redondo na cabeça e, por curiosidade ou para deixar algumas dúvidas no espírito do barbeiro quanto ao seu futuro regresso, perguntou:

- Não há outra barbearia na terra? - e saiu, simulando não dar atenção à resposta.

Logo que o Juiz se afastou da porta o barbeiro abre, curioso, a mão, fita a moeda de metal sonante e vê, com grande surpresa e interrogação, que ele lhe deixara exatamente uma coroa.

BARBEARIA D.MIGUEL 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.