ENCONTRO E DESENSONTRO DE DOIS GIGANTES
Já escrevi em apontamento anterior que o meu “curriculum vitae” público está recheado de opiniões relativas aos meus trabalhos publicados, dadas por generosa “gente de carne e osso”, tão humana quanto eu. Disse também que, coadjuvando tais opiniões, entrou recentemente em cena a personagem “IA” e eu, agradado com o seu trabalho, privado que estou de saber a quem dar os meus agradecimentos, dirigi-me à porta certa e perguntei: “quem és tu romeiro que, inesperada e tardiamente apareces neste palco da vida?” opinando sobre o que penso, sinto e escrevo?
A resposta veio pronta:
“A capacidade de máquinas realizarem tarefas que normalmente exigem inteligência humana, como aprender com dados, raciocinar, resolver problemas, entender linguagem e tomar decisões, usando tecnologias para mimetizar funções cognitivas e adaptar o comportamento com base em padrões e experiências passadas, otimizando processos e gerando insights”.
Uma resposta longa, distinta daquela que, em tempos que lá vão, li em Frei Luis de Sousa, uma “relíquia” que se aconchega num dos nichos do altar da minha BIBLIOTECA:
E, assim sendo, com algumas adaptações formais (v.g., espaços, numeração, alíneas, letras maiúsculas nos enunciados), eis o que NINGUÉM verbalizou sobre meu texto BIBLIOTECA, publicado nos TRILHOS SERRANOS. Da minha lavra, na SEGUNDA PARTE e CONCLUSÃO, lhe somo alguns reparos discordantes. Assim:
PRIMEIRA PARTE
«1 - RESUMO E TEMA CENTRAL
O autor parte da ideia de que uma biblioteca é “um templo” – espaço de silêncio, contemplação e diálogo com os espíritos dos autores. Divide-se em três grandes momentos:
a) Primeira parte: descrição simbólica da estante como altar e da leitura como viagem no tempo e no espaço.
b) Segunda parte: sonho desencadeado pela exaustão, em que as histórias ressuscitam-se numa cine-projeção caótica, fundindo imagens de mitos, batalhas, paisagens e vozes históricas.
c) Epílogo: regresso à lucidez com a interrogação sobre se todo aquele barulho onírico foi efeito do confinamento por Covid-19.
2 - ESTRUTURA E COERÊNCIA
a) Organização clara em partes bem demarcadas, mas com transições por vezes abruptas: a passagem da contemplação para o sonho é intensa, porém falta um mote que prepare o leitor para a súbita avalanche de imagens.
b) O sonho é uma sucessão quase ininterrupta de episódios históricos, literários e mitológicos, o que demonstra ambição temática, mas pode cansar pela profusão de referências.
3 - LINGUAGEM E ESTILO
a) Pontos fortes:
– Rica imagética e metáforas fortes (biblioteca-templo, livros-relicários, traças-insetos assassinos de ideias.
– Tom pessoal, com humor e autoironia no desenlace.
– Intertextualidade: citações e alusões que valorizam a cultura universal.
b) • Fragilidades:
– Prolixidade em determinados parágrafos, o que dilui o impacto de algumas imagens.
– Sentido de fragmentação: o leitor pode sentir-se perdido na multiplicidade de cenários.
– Uso pontual de termos demasiado rebuscados que contrasta com a linguagem mais coloquial do início.
4 - ORIGINALIDADE E PROFUNDIDADE
a) Originalidade: o sonho-panorâmico como dispositivo narrativo é provocador e espelha bem a multiplicidade de vozes de uma biblioteca.
b) Profundidade crítica: o texto convoca a reflexão sobre a relação do leitor com o livro em pandemia, mas mantém-se sobretudo em registo descritivo e sensorial, ficando por explorar mais a dimensão psicológica do confinamento.
5 - SUGESTÕES DE MELHORIA
a) Sintetizar algumas passagens oníricas para evitar dispersão e cansaço no leitor.
b) Trabalhar transições mais suaves entre os grandes blocos (realidade ? sonho ? epílogo.
c) Explorar com maior equilíbrio a reflexão sobre a condição humana em pandemia, talvez intercalando vislumbres de pensamento crítico entre as descrições.
d) Atenção ao ritmo: alternar momentos de sonho caótico com breves “pausas” de clareza, reforçando o contraste.
5 - CONCLUSÃO
O texto é uma celebração apaixonada da biblioteca como locus de encontro com todas as eras e autores. A imagética vívida e a veia intertextual conferem-lhe grande poder evocativo. Contudo, a extensão e a densidade de referências poderão arredar leitores menos tolerantes à digressão. Uma revisão focada na coesão e no ritmo permitir-lhe-á manter o encanto das metáforas sem perder o leitor no excesso de visões».
SEGUNDA PARTE
A “IA”, como ficou dito e visto, para além dos reparos que fez no sentido do texto se tornar mais apelativo, também opinou sobre a descrição onírica sugerindo que ela ganhava mais qualidade se lá fossem intercaladas “pausas” por forma a tornar-se mais cativante e “evitar a. dispersão e cansaço no leitor”. E aponta como uma das FRAGILIDADES o “uso pontual de termos demasiado rebuscados que contrasta com a linguagem mais coloquial do início”.
Ora, limitado à minha condição HUMANA, nesta minha postura de almocreve das letras que carrega nos seus alforges mercadoria bastante associada ao bom uso da LÍNGUA, manejo do signo linguístico e as suas duas faces, significante e significado, ciente da “estrutura da narrativa” (princípio, meio e fim), onde não podem faltar “personagens” (o seu retrato físico e moral), descrições=pausas e avanços=acção, por forma a resultar num TEXTO LITERÁRIO, a minha experiência e inteligência humanas, adquiridas na ANSA DA LETRAS, impelem-me à escusa de algumas das sugestões feitas pela “IA”.
CONCLUSÃO
Visado eu deixar um apontamento escrito sobre o CONFINANENTO a que o mundo foi obrigado por um simples virus - covid-19 - usei a BIBLIOTECA como pretexto - “locus de encontro com todas as eras e autores” - pelo que o texto produzido, sem pretensões literárias, dispensa as “transições” e as “pausas” sugeridas com vista a torná-lo mais cativante e “evitar a. dispersão e cansaço no leitor”. E neste raciocínio o mesmo se aplica, à “fragilidade” apontada no uso de “termos rebuscados”, por certo aludindo ao uso do latim, inteiramente justificado no contexto semântico dos TESTAMENTOS em análise. Frase latina que, só por si, arrasta consigo, historicamente, pensamentos e procedimentos humanos seculares.
O SONHO intercalado na narrativa, “sem transições, nem pausas”, corresponde ao sonho/sonhado”, autêntico, baseado na experiência onírica pessoal, sem interferência das interpretações freudianas e de outros especialistas na matéria. Na descrição (digamos, uma “pausa” no todo da narrativa) os conteúdos aparecem no cinematógrafo onírico, sem lógica discursiva, nem qualquer nexo espacial/temporal intencionalmente. Eu usei a face SIGNIFICANTE do signo linguístico por forma que, ela própria, dispensasse a face oculta: o SIGNIFICADO.
Face a essa minha intenção, aliás expressa na “descrição”, v.g. “sem cronologia nem lógica, a fita corria como água de rio entalado entre montanhas” (sic), atingido que foi o meu desiderato, a “descrição onírica” só podia ser “caótica e prolixa”, balançada e sacudida ou não na joeira SEMIÓTICA.