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quinta, 07 abril 2016 15:20

SIGLAS DA ERMIDA DO PAIVA

Escrito por 


AS SIGLAS DA ERMIDA DO PAIVA - CASTRO DAIRE

As siglas têm sido consideradas as assinaturas dos canteiros, visto estes trabalharem à peça e, assim, evitarem que camaradas de ofício facturassem trabalho alheio. (...)

 

 Esta é a clássica explicação aplicada à generalidade dos sinais existentes em muitas construções por essa Europa fora, partindo da ideia de que o pedreiro, chegada a fase de assentar a pedra, lhe gravava a sua «marca particular, geralmente um desenho simples e geométrico, como uma estrela ou uma cruz. Um bloco acabado levava normalmente três marcas diferentes, mostrando quem o cortara, de que pedreira viera e onde devia ser colocado». (Allen et al, 1993:146).

RAIOOra, recebida a explicação deste e de outros mestres, poderíamos passar adiante e deixar as siglas em paz. Mas não o fazemos, nem nos acomodamos a isso como parece fazerem outros. É que, no Mosteiro da Ermida, como aliás noutras construções, se algumas pedras apresentam três siglas acopladas, as mais delas não se enquadram na eloquente explicação trinitária que acabámos de ver. Muitas têm uma só sigla; bastantes duas, apenas; e outras, nenhuma. Daí pensarmos que a explicação das três assinaturas decorre, certamente, da postura trinitária que impregnava o pensar e o agir de tempos idos ligados a saberes ocultos como acontecia na Cabala, onde a cada palavra e a cada frase são atribuídos nada menos que três sentidos diferentes: «o sentido literal, o sentido figurado e o sentido esotérico» (Laurent et al s/d:12).

Por isso, admitindo que as siglas, para além do sentido literal e figurado, podem estar impregnadas de sentido esotérico, gostaríamos de somar à reflexão mais alguns dados, de modo a repensar-se a primeira explicação simplista vinda dos estudiosos.

Em 1919, Aarão de Lacerda diz que «quase não há pedra que não apareça timbrada pelo canteiro com desenhos de traço simples, mas vincado, nos silhares, colunas, aduelas, fechos: - é o pentalfa, é a espiral, a chave, o triângulo simbólico, o resto de um hieroglifismo cabalístico que de longe veio até terras ocidentais». (Lacerda,1919:20)

1 - ETNo meu livro «Mosteiro da Ermida», publicado no ano 2000, ao qual fui buscar a matéria para esta e outras crónicas que vão seguir-se, de modo a dar a conhecer o assunto a um vasto leque de leitores, nesse livro, dizia, mais insubmisso às ortodoxias dominantes, foquei num dos modilhões, junto à cornija, não um anjinho com asas, mas um homem mostrando as ferramentas que as ferramentas do canteiro lhe puseram entre as pernas, sem recurso à decorosa folha de parreira (ver fig. nº1) Nunca ninguém o tinha destacado antes como elemento decorativo. Fizemo-lo nós convictos que essa figura humana, esculpida lá bem no alto, longe de mão puritana que fosse tentada a amputar-lhe as partes pudengas, parte do corpo humano que, como símbolo da fertilidade, bem pode estar camuflado em muitas das siglas, reduzida a traço simples e discreto, como veremos a seu tempo. 

 São as siglas assinaturas de pedreiros?

Que outro sentido, além daquele que parece, terão elas?

Se nos ficarmos pela explicação primária de que se trata de assinaturas de pedreiros como explicar que muitas das siglas se repitam até à exaustão e haver outras que não passam de uma ou duas, quando muito meia dúzia espalhadas por todo o edifício? Operários diligentes e esforçados a trabalharem do princípio ao fim da obra, operários, mandriões militantes, a trabalharem apenas alguns dias? E aquelas que, aqui e além, se sobrepõem na mesma pedra? Chegará a explicação adiantada acima de que um «bloco acabado levava normalmente três marcas diferentes, mostrando quem o cortara, de que pedreira viera e onde devia ser colocado»? E tantas outras que estão colocadas sem marca alguma? Essas não são tão eloquentes. Não dizem quem as fez, donde vieram e para onde iam. Eram os pedreiros analfabetos?

Não. As siglas, para além de eventuais assinaturas, encerram certamente um significado, um mistério, um segredo, ensinado somente a iniciados. Começa a ter sentido a existência de um capitel historiado com o símbolo da iniciação, hoje desaparecido, mas referenciado ainda em 1919 por Aarão de Lacerda, no seu livro «Templo das Siglas».

Esse capitel já não existe. A pilastra onde esse capitel se encontrava está truncada, aparentemente sem qualquer função. O seu desaparecimento é mais um mistério a somar-se aos que já existiam. Talvez um dia um «iniciado nos saberes ocultos» ou um imaginário Guilherme de Baskerville, personagem do romance histórico «O Nome da Rosa», metido na sua indumentária de monge detective, acompanhado do seu inseparável Adson, venham a descobrir este e os outros mistérios que envolvem o Mosteiro da Ermida e, nos painéis das paredes da sua igreja, encontre, à luz do dia ou a luz frouxa da candeia, semelhanças e diferenças entre as siglas e aqueles traços invisíveis que Adson viu num manuscrito encontrado no scriptorium da visitada abadia beneditina, «traços que não se assemelham aos de nenhum alfabeto, a não ser aos dos necromantes» (Eco,1980:160-162)

E que traços eram esses? Deixando as quatro ou cinco linhas «deveras parecidas com bruxaria», aqui reproduzimos os sinais que se lhes seguiam para o leitor, atento à ficção e à realidade, poder estabelecer comparações, quando vir as siglas do Ermitério:

Ora toda a gente sabe que «O Nome da Rosa» é um romance histórico e que Umberto Eco, não tendo visitado a Ermida do Paiva, pôs num pergaminho aquilo que se fartou de ver espalhado pelas paredes de mosteiros e abadias medievais, assentes em todos os países da Europa. Professor de semiótica não podia ficar indiferente a tão acerva cópia de sinais, mostrando bem que não se acomodou à explicação, amplamente divulgada, de tais sinais serem simples sinetes de pedreiros.

Talvez um dia, como dissemos, o detective monge Guilherme passe por aqui e diga o inaudito acerca das siglas da Ermida. Enquanto, porém, isso não acontece, e indagando nós por conta própria, fixemo-nos, por agora, nesses enigmáticos sinais.

E que vemos? Entre tão variegada monta, alguns deles, esquematizados, bem podem ser os símbolos do Zodíaco, aqueles que foram representados nas figuras em que assentava o saber astrológico que vinha da Antiguidade e, através de árabes e judeus, se difundira na Europa medieval, exactamente no tempo em que foi construído o edifício.

Não. Estes sinais não são, de modo algum, somente, a assinatura de pedreiros analfabetos, ainda que alguns deles aparentem ser «alfa» e «beta». Estes sinais são o registo histórico da mentalidade de uma época, traduzindo a relação do homem com o Universo e a vida: as suas angústias, as suas crenças, as suas preocupações, a sua percepção e entendimento do mundo concreto e transcendente, do visível e invisível.

Entre as siglas, apreciadas uma a uma, a par de algumas certezas e muitas dúvidas, eis o quadrado «o antigo sinal da terra (...) particularmente importante nos sistemas simbólicos (...) baseado na ordem implícita nas quatro direcções do espaço, o quadrado simboliza a permanência, a segurança, o equilíbrio e a organização racional do espaço, bem como a honestidade, a integridade e a moralidade» (Tresidder,2000:155).

Eis o «exagrama, ou a estrela de David, por vezes identificado com Salomão. Tem dois triângulos entrosados, um invertido simbolizando a união na dualidade. Na alquimia o exagrama simbolizava as dualidades maculina-feminina do fogo e da água e, posteriormente, a união dos quatro elementos, o quinto elemento (a quinta essência). Na magia o exagrama está associado ao exorcismo» (Tresidder, 2000:15); no exagrama, essa estrela de seis pontas, «o universo é representado por dois triângulos entrelaçados, a Trindade de Espiritual no triângulo de vértice para cima; a Trindade Material com vértice para baixo» (Besant,1978:149).

Pentalfa-1-Mas nas paredes do templo vemos também a estrela de cinco pontas, o símbolo da torre de David, o pentalfa, sempre disponível para as artes mágicas, usadas em todos os tempos e lugares. Ou não «se identifica o homem com a estrela de cinco pontas, comum a todas as tradições» Não é ele um pentagrama vivo? (a). Não é verdade que «a crença mística no Homem como modelo dos animais subjaz no desenho de Leonardo, representando o homem como um pentagrama formado pelos braços, pernas e cabeça, simbolizando o universo no microcosmos»?(Tresidder, 2000:15). Não é sabido que a «estrela pentagonal contendo o pentágono regular exprime geometricamente, de modo magnífico e simples, a ideia da luz da ressurreição pela utilização da simetria das duas variantes do pentágono»? (Freitas, 1998:192).

Na base de todas estas figuras geométricas está o número 5. E este número «representa a materialização do espírito e a espiritualização da matéria. Número da criatividade e da planificação mental, o número 5 é o símbolo da consciência encarnada «a quinta essência» (Resina, 1998:224).

Ora, «se se dividir 360, (o círculo, o infinito) por 5 (o homem), obtém-se 72. Ora 72 é o número privilegiado na simbologia dos números: a sua redução teosófica é 9 e pode ser obtido multiplicando o 9 (o céu) por 8 (o Cristo)». (Facon, 1978:79-80).

Tanta sigla! Aquela é um 9. É um 9 ou um 6? Como? Um algarismo (?), se nós estamos avisados de que «as cifras arábicas, muito antes do século XIII eram conhecidas na Europa, mas não tiveram uso, fora dos livros matemáticos e astronómicos, antes do século XV e a figura destas cifras, só depois de 1534, se fez uniforme, sendo antes arbitrariamente figurada em toda a Europa»? (Elucidário, II:102)

Como, então, estar ali um 9 ou um 6 tão bem gravados?

Bem! Se nos quedássemos naquilo que se tem sido dito e feito sobre as siglas não estaríamos envolvidos na tentativa de ajudar a decifrar um enigma. E estamos. É que apesar de estarmos avisados da tardia vulgarização do algarismo na Europa (estamos a falar da sigla em forma de 9 ou de 6), também sabemos que se acha na Catedral de Lamego uma certidão original do que se passou numa assembleia de prelados na cidade de Santiago (a que chamam Concílio Compostelano) com a data de 1292 A.D. (Elucidário I:370), em número árabes, o que quer dizer que o conhecimento e aplicação dos algarismos rondava por perto no espaço e no tempo em que foi construído o mosteiro.

Seja, portanto, e por agora, um 9. Esse número que, como «tríade tripla, é um número sumamente poderoso na maioria das tradições (incluindo) no mundo celta. No misticismo representa a tríplice síntese da mente, corpo e espírito, ou de submundo, terra e céu. Ele era o símbolo hebraico da verdade, um símbolo cristão da ordem dentro da ordem» daí talvez a organização dos anjos em nove coros? (Tresidder, 2000:15).

Seja o que for e tenha o significado que tiver, ele aí está espalhado por um sem número de pedras a desafiar a imaginação de todos os que se interrogam sobre as siglas e as siglas interrogam, insatisfeitos com a explicação das «assinaturas».

Já vimos que se dividirmos 360, (o círculo, o infinito) por 5 (o homem), se obtém o número 72 e que a sua redução teosófica é 9, isto é, pode ser obtido multiplicando o 9 (o céu) por 8 (o Cristo).

Assim, sozinho, bem pode significar o céu, mas, acoplado com outro, em posições invertidas, logo mostram o signo do Caranguejo.

Sim, mas que tem esse 9 a ver com os 9 cavaleiros que fundaram a Ordem do Templo em 1118, sob a orientação de Hugues de Payens e Geoffroy de Saint-Adhémar?

Paulo Loução ao historiar as origens dos Templários e as suas actividades iniciáticas nos primeiros nove anos, levanta-nos a ponta do véu quando diz:

«É evidente que por detrás da história oficial que, em termos gerais, está correcta e documentada, houve, como em praticamente tudo o que se refere à Ordem do Templo, uma história oculta. É óbvio que os nove cavaleiros, independentemente de terem actividade de defesa dos peregrinos, tiveram nesses nove anos outro tipo de trabalhos ligados, provavelmente à sua iniciação, com a qual está relacionado o número 9»? (Loução, 2000:108).

E Manuel J. Gandra, reportando-se a tempos posteriores, diz-nos que aos professos da Ordem dos Templários «só de nove em nove anos lhes era permitido renovar o velho hábito e, mesmo assim, a arbítrio do rei e dos juízes do Tribunal de Consciência e Ordens». (GANDRA, 1998:323).

É. Tanta sigla, tanto 9 ou tanto 6 que não mereceram a mais pequena palavra dos estudiosos que nos antecederam. Digo bem, estudiosos, pois só desses me interessam as explicações. Mas, perguntava eu, que terá este algarismo 9,  de mágico para poder ligar-se aos rituais das ciências ocultas, ao ponto de no livro De Occulta Philosophia, de Agripa se preconizar que o «mágico operador deve manter-se limpo e purificado durante o espaço de nove dias antes de iniciar o trabalho». (Bailey, et all, 1983: 69).

E os nove dias desses rituais mágicos, lembram as novenas(b) feitas em cumprimento de uma promessa (nove vezes três vinte e sete, quem não pode não promete), esses 9 dias de oração, essas 9 voltas em torno de uma ermida, ou de uma igreja, 9 crianças a rezarem a troco de um vintém, um tostão ou um escudo, conforme os tempos: 9X1=9. E as 9 badaladas das Trindades? E no diálogo travado entre Lucifer e o Anjo Custódio, no «Livro de São Cipriano» onde se enumeram as virtudes do Céu que conduzem à salvação? A nona corresponde aos «nove meses que a Virgem Maria trouxe no ventre o seu amado filho Jesus Cristo e por esta virtude somos livres do teu poder, Satanás» (Cipriano, 1998:111).

E não se encontram os anjos divididos em três hierarquias, distribuídas por três coros? 1º, Serafins, querubins e tronos. 2º, dominações, virtudes e poderes. 3º, principados, arcanjos e anjos.

Donde vem a magia do 9 ao ponto de sabermos que nos enterros «falecendo alguém sem testamento, e tendo de seis mil reis até dez, faz-se por sua alma um oficio de nove lições; e tendo de dez mil reis até vinte de terço do terço(c), faz-se por sua alma dois ofícios de nove lições; e tendo de terço do terço de vinte mil reis até trinta, faz-se por sua alma três ofícios de nove lições. Em qualquer oficio de nove lições por defunto ou defunta tem os clérigos dois tostões cada um, com obrigação de uma missa pela alma de quem era o ofício. E o pároco tem três tostões do oficio e missa, e nove vinténs da presidência, ainda que os padres do oficio sejam menos de nove». (Pedrosa,1772:8)

Mas havia quem dobrasse a parada nos seus testamentos. O Padre Domingos Cardoso, de Castro Daire, falecido em 1775, deixou as seguintes cláusulas testamentárias: «acompanhamento de 18 padres, obrada, ofício de corpo presente, 720 missas, entre elas a da Irmandade de Castro Daire e o nocturno no oitavário dos Santos feitos pelos párocos como é costume» (Costa,1992,VI:112-123)

Desejando ser acompanhado por 18 padres, o clérigo Domingos Cardoso dobrou a parada, mas 9x2 encontra-se igualmente na mágica fórmula usada por S. Cipriano para prender o Demónio. Assim: «as cadeias para prender o Demónio podem ser de chifre de carneiro, ou melhor, será um cordão de S. Francisco, benzido, ou uma estola, com que um padre tenha dito missa, pelo menos dezoito vezes» (Cipriano, 1998:120) Mais: os Templários, batendo em retirada da França e subtraindo o seu tesouro ao Rei Filipe, o Belo, «seguiram, segundo um testemunho da época citado por Gérard de Sede, em direcção à costa, onde eram aguardados por 18 navios da Ordem» (Gandra, 1998:330) o que se prende com um outro número muito ligado a estes cavaleiros: «as 9.000 comendas que detinham dão uma ideia do poder dos Templários» (Idem, idem: 331)

Ligado à religião e magia, Salomão também recorreu ao número 9 para manufacturar alguns dos seus talismãs. Alguns deles «seriam garrafas de electro nas quais ele teria encerrado demónios que daí por diante ficavam ao seu serviço e não podiam resistir às nove letras mágicas inscritas sobre a garrafa». (Laurent et al, s/d, 136)

Religião e magia o número 9 estava presente na feitiçaria. Assim a «feitiçaria que se faz com dois bonecos, tal como a fazia S. Cipriano, enquanto feiticeiro mágico» só era válida se as palavras fossem «repetidas nove vezes há hora do meio dia»,(Cipriano, 1998:136) o mesmo acontecendo com a «feitiçaria que se pode fazer com as malvas colhidas num cemitério ou no adro de uma igreja» que só sortia bom efeito se as palavras do feiticeiro fossem «repetidas por espaço de nove dias». (Cipriano,1998:201)

Religião, magia, feitiçaria o número 9 também marca a sua presença nas rezas e benzeduras de antanho e, seguramente também de agora. Exemplos: para as dores de cabeça devidas «à incidência do olhar de pessoas com vista forte» a reza deve ser feita durante três dias de manhã e à noite, com o somatório de «9 brasas (3 por dia) metidas numa malga com água» a fim de se saber se «o mal é devido ao olhar de mulher ou de homem» (Carvalho, 1993:131). E se no corpo aparecem mazelas ou chagas que só a curandeira conhece «o mal é cortado numa fonte que nunca seque, três dias, com nove folhinhas de silva, três de cada vez» (idem)

Mas a adivinhação também não dispensa este número mágico. O livro de São Cipriano, ao enumerar os «lugares onde existem os encanto» mostra-nos que «na fonte da Soalheira, por baixo da fonte nove passos, está uma fraga enterrada onde há um asado de moedas de ouro». (Cipriano, 1998:62).

Religião, magia, feitiçaria, adivinhação, rezas e benzeduras, o número nove também está presente na arquitectura. Ele não se encontra disperso somente nas paredes do rústico mosteiro do Eremita Roberto, mas também no conhecido, urbano e badalado símbolo dos Descobrimentos Portugueses. António Telmo, na sua «História Secreta de Portugal» deambulando pelo claustro do Mosteiro dos Jerónimos diz-nos que esse claustro «é um sistema simbólico que organiza como uma integral todos os seus elementos». Atento a todos eles, à sua localização e valor simbólico, ele «vê» por entre linhas e pontos a Cruz de Cristo e também o número nove: referindo-se à Cruz inscrita num quadrado e numa circunferência, ele diz-nos: «a estes oito pontos temos de somar o ponto central, de onde os braços irradiam, pelo que o número da totalidades ou o número perfeito é o nove. Num esquema aparentemente diferente, o esquema a que obedece o traçado das nervuras das abóbadas marcadas pelo «manuelino» verifica-se igualmente a presença do nove (Telmo, 1977, 144-145)

Noves fora nada? Mas quem é que, a partir de agora, ao olhar para as siglas em forma de 9, (ou será 6?) que se multiplicam nas pedras das paredes da igreja, pode vê-las apenas como «assinatura de pedreiro» sem tentar ao menos submetê-las à prova dos nove do saber oculto, do saber esotérico? Sem ter presente que estando nós a discorrer sobre as siglas do «Mosteiro do Eremita Roberto» é o número «9, o Eremita» (Bailey, et all, 1983: 123) que aparece na ordem correcta dos trunfos das cartas de Tarot, a ordem mais aceite pelos especialistas na matéria? E o iniciado em tal arte sabe que na «Cartomancia Cruzada», lançadas as cartas na mesa «poucas vezes será preciso levantar todas as cartas, pois logo ao levantar as primeiras nove deve estar satisfeita a curiosidade». (Cipriano,1998:219), adquirido que está o saber de que «o carácter de língua sagrada do hebreu e a correspondência dos tipos e dos acontecimentos entre o Antigo e o Novo Testamento tornavam igualmente lícitas as especulações sobre as cartas, sobre o seu valor numérico e sobre suas mudanças» (Laurant, 1995:32). O arcano IX, o Eremita «destaca-se de tudo o que é superficial para dar nascimento a uma nova vida. Trata-se, numa primeira fase, da busca da verdade que leva à integridade pessoal para, em seguida, poder dedicar-se aos outros pelo auxílio ou pelo serviço à comunidade» (Resina, 1998:227)

E coisa curiosa: Dante, o autor da Divina Comédia, tinha 9 anos em 1274. Foi então que conheceu Beatriz, também ela com 9 anos. Mas só ao fim de mais 9 anos, isto é, quando ambos tinham 18, «é que voltaria a vê-la» (Boorstin,1993:243).

Com tanta significação, ficamo-nos pelos nove for a nada? Não. E se, onde vemos um 9 passarmos a ver um 6?

Recorramos mais uma vez a Boorstin.:

«Sobre a criação, diz a Septuaginta: «E deus acabou a sua obra ao sexto dia» Filo escreveu: «É bastante estulto pensar quer o mundo foi criado em seis dias ou em qualquer outro lapso de tempo» a Sptuaginta fala em seis, enquanto o texto hebraico diz «ao sétimo dia») Segundo Filo «seis» significava, não uma quantidade de dias, mas um número perfeito, o que mostrava que o mundo foi a criado segundo um plano e também que Filo se tornara discípulo de Pitágoras. Influenciado por Platão, Filo oferecia a própria versão alegórica da criação segundo o Génesis» (Boorstin, 1993:61)

E se não nos ficarmos por aqui, relativamente ao significado e valor do 6, e aceitarmos que os números podem conter em si o que Origens encontrou «nos textos das tradições judaicas e judeu-cristãs: apócrifos e apocalipses, ele distinguia e combinava, ao mesmo tempo, um sentido literal, um sentido moral e um sentido espiritual». (Laurant, 1995:22).

O 6, tal como o 9, registados nas pedras da igreja da Ermida, estão para lá de uma simples assinatura de pedreiro. Pois então não é que no Apocalipse nos aparece o misterioso número 666. Citando: «É aqui que está a sabedoria. Quem tem inteligência, calcule o número da besta. Porque é número de homem; e o número dela é seiscentos e sessenta e seis» (Apocalipse,13:18)

Afinal, falar de tudo isto é também pôr duas questões: onde é que está a sabedoria? Onde é que está a besta? Que número é este? O que significam as siglas?

Tanta sigla!

Aquela que se apresenta sob a forma de S visto ao espelho, não simbolizará a serpente? «Moisés fez, pois, uma serpente de bronze e pô-la por sinal; e os feridos que olhavam para ela, saravam» (Números; 21:9) Não é a serpente um ornato do báculo usado pelos Reitores do Mosteiro da Ermida, existente no Museu de Arte Antiga, em Lisboa, cuja fotografia ilustra a capa do meu livro «Mosteiro da Ermida»? Não é a serpente vista como «o arquétipo da hierofania «selvagem» natural, figura inicial (e iniciadora) da magia xamânica e das religiões antiquíssimas, símbolo do nagual dos Toltecas, velha divindade dos Egípcios, arcaica, poderosa, assustadora; para os Gregos duplamente enroscada na vara do caduceu «emblema tutelar da medicina». (Freitas,1998:211)

Tanta pergunta, tanta sigla e tanta cruz!

Acerca da cruz, símbolo adoptado pelo mundo cristão, apesar de «existirem representações dela muito anteriores ao cristianismo», (Loução, 2000:289) convém lembrar o que disse Georges Duby acerca do progresso do cristianismo ocidental na sequência da 1ª cruzada, espelhado nos conjuntos esculpidos nas catedrais:

«Até aí, as imagens de Cristo não tinham residido nunca na criação. Quando não pertenciam à abstracção pura, ao esoterismo da cruz, do alfa e do ómega ou dos crismas, situam-se como sobre páginas pintadas nos manuscritos litúrgicos, fora do tempo, do espaço na irrealidade das visões místicas». (Duby,1993:95) E, segundo Leadbeater, citado por Besant «na verdade, o símbolo da Cruz pode bem servir de pedra de toque, aqui em baixo, para distinguir o bem do mal em muitos momentos difíceis. Somente aquelas acções em que a luz da cruz penetra, são dignas da vida do discípulo». (Besant,1978:130).

Sim, as paredes desta igreja são bem um «manuscrito litúrgico» onde se rabiscaram a cruz, o alfa, o ómega, na irrealidade das visões místicas.

Resto de um hieroglifismo cabalístico que de longe veio até terras ocidentais é preciso extrair de cada sinal a leitura possível e alguns deles sugerem mesmo uma leitura cabalística. Aquelas espirais simples, abertas, como que a sugerirem o desfiar de um novelo em cujo miolo há algo a descobrir. Aquelas espirais duplas, acopladas, a sugerirem que se faça o mesmo com outras siglas. É assim. Neste mundo confuso das siglas tudo parece estar separado e, ao mesmo tempo, tudo parece ter a ver com tudo. Fazer o acoplamento que algumas delas (iguais ou diferentes) sugerem é seguir o caminho mais simples em busca de um significado. E para se compreender melhor, aplicar-se-lhe-ia o princípio algébrico, já que álgebra, termo derivado do árabe al-jabr significa literalmente «o juntar de partes diferentes». (Allen et al, 1993:163)

É. Juntemos algumas! Por exemplo, aquelas siglas que parece representarem folhas de plantas. Aquela ali e mais aquela, além? Aquelas folhas, cujos limbos e nervuras centrais terminam, no lado oposto às pontas, em dois círculos concêntricos, qual fruto redondo, baga, maçã ou coisa parecida, aquela outra, a raiz bifurcada dessa mesma planta. Estranhas assinaturas de pedreiros! Em vez disso, porque não o registo pétreo da mandrágora, a planta que, na Idade Média, e desde a Antiguidade, mais tinha sido usada na prática da magia? Planta conselheira e benéfica para uns, maligna e usada na feitiçaria, para outros? Houve mesmo quem pensasse que a maçã dada por Eva a Adão, não era outro fruto senão a maçã da mandrágora. É que se tais figuras forem acopladas como sugerem as espirais (e não só), ficamos perante plantas completas, até ali cortadas ao meio, como partes separadas de um enigma. E tudo isto é enigmático e cabalístico. Mas da mandrágora se tratará, dessa planta que os juízes de Pucelle julgavam ter sido usada por Joana d'Arc, nas acções subversivas por ela desenvolvidas e que a levaram à fogueira.

Mapa lítico, misto de ciência e de magia, de paganismo e cristianismo, eis também, ali mesmo à entrada da porta lateral, do lado esquerdo de quem entra, o desenho de uma chave onde se destaca claramente uma lebre de cabeça voltada para o dorso (ver Fig. seguinte)

Ora, se em simbolismo, «a lebre representa o tesouro» (Guinguand,1975:122) que outro desenho podia ser posto ante os olhos do iniciado senão uma chave com o próprio símbolo do tesouro? A chave do tesouro. Mas que tesouro? Não, por certo, o fabuloso tesouro material dos Templários, supostamente escondido algures, depois que foi extinta a sua Ordem por Filipe, o Belo, rei de França. Tesouro que alguém procurou aqui, como demonstra a recente coluna da porta principal, lado esquerdo, a substituir a original, partida pelas sacrílegas e ávidas mãos de caçadores de tesouros. Não. Não estava lá tesouro algum. E a chave reporta-se, certamente, ao tesouro do saber esotérico, do saber oculto, a chave que, pelos tempos fora, marcaria presença em tudo o que se ligasse aos Templários. Veja-se o caso de Aleister Crowley, que em pleno século XX, precisamente em 1914, ingressa na Ordem dos Templários do Oriente (OTO), a qual, para garantia dos futuros convertidos diz possuir «a CHAVE que abre todos os segredos maçónicos e herméticos, nomeadamente o ensino da magia sexual, o qual explica, sem excepção, todos os segredos da Natureza, todo o simbolismo da Maçonaria Livre e todos os sistemas de religião».(Bailey, et all, 1983: 73)

Mas nas paredes do edifício aparecem outras siglas em forma de chave. Menos misteriosas quanto à sua identificação, misterioso e oculto se mantém igualmente o seu significado. No arcano V do Tarot aparecem duas chaves em cruz. Elas «simbolizam o cruzamento entre o conhecimento que se desvela e o saber oculto». (Resina, 1998:224)

Assinatura de pedreiros? Verdade era, porém, que na arte de esconjurar demónio de um corpo, para fechar a morada ao ponto do maligno não tronar a entrar, o exorcista tinha de tomar «uma chave de aço, em ponto pequeno» e dizer a seguinte oração:

«O Senhor lance sobre ti a Sua Santíssima bênção e o Seu Santíssimo poder para que te dê a virtude eficaz, para que toda a morada ou porta por onde entra Satanás por ti seja fechada, jamais o Demónio ou seus aliados por ela possam entrar, pis abençoada seja em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Jesus seja contigo. (Deita-se água benta em cruz sobre a chave)». (Cipriano, 1998:42)

Mas que importância poderia ter ao tempo da construção do mosteiro e vida do Eremita Roberto esse conjunto de sinais, esses hieroglifos cabalísticos, capazes de serem lidos ou decifrados só por iniciados?

Decorriam os tempos em que a «astrologia era havida por verdadeira ciência e a Igreja distinguia-a daquela que, baseada nela, era, todavia, cabala».(Saa, 1978:59)

Ser iniciado ou formado em tais matérias, astrologia ou cabala, dava estatuto, dava fama e proveito em toda a Europa, numa Europa que vivia sob o síndroma do fim do mundo e da vinda do Anticristo, esse herói privilegiado dos teólogos e dos místicos, que iria obcecar os monges de Cluny e o seu abade Odon, singularmente impressionados pela leitura de uma obra intitulada Tratado do Anticristo, redigido por volta de 960 por Adson, abade de Montier-en-der, a pedido de Gerberge, rainha dos Francos e irmã do imperador Otão I. (Clebert,1995:19-20) Tratado cujo conteúdo muito impressionará o jovem imperador Otão III, por volta do ano 1000, que para preservar o seu reino, contra esse príncipe encoberto, toma conselho e exemplo, não mais junto dos prelados que o rodeiam, mas na consulta dos eremitas que, na sua solidão, tem o mister de meditar sobre o tempo. É assim que visita S. Nilo, velho monge retirado para o monte Gargan, num mosteiro que não era mais que um conjunto de pobres cabanas que partilhava com outros anacoretas. «Estes monges, diz o imperador, são verdadeiramente cidadãos do Céu, vivem como estrangeiros na Terra». (Clebert,1995:86)

Os profetas e os astrólogos, aqueles que advinham o futuro, tem, pois grande aceitação, tal como os monges «que tem o mister de meditar sobre o tempo», nas modestas instalações que habitavam, retirados do século.

A astrologia, a ciência em que se apoiava a adivinhação do futuro estava pois na ordem do dia e, ainda que perseguida na sua variante cabalística, ela chegaria aos nossos dias cheia de saúde com professores e clientela assegurada. Os meios científicos mais sofisticados, como a televisão, a Internet e quejandos dão-lhe ampla divulgação. E as linhas telefónicas de valor acrescentado tem mais que justificada a sua existência.

Mas voltemos às siglas, figuras ou restos hieroglíficos. E mesmo ao lado da chave e da lebre, eis um emaranhado de riscos que destoam, claramente, de todas as outras siglas, quer pelo traço, quer pelo conjunto de elementos que compõem uma espécie de paisagem rural. Que diabo é isto? Sim, que diabo é isto? Já houve que lhe chamasse «agnus dei», mas nós propomos interpretação diferente. Aqueles triângulos em primeiro plano imitam montes e cerros. Aqueles traços saídos do chão que imitam? Aqueles guiões de ladainha ou procissão, em forma de losango, com uma cruz dentro e a outra cruz mais à frente, não oferecem dúvida: são os símbolos da Igreja. E o animal que, de cabeça voltada para trás com aquele par de cornos, olhar assustado como quem se prepara para dar às de vila diogo, o que significa? (Fig. seguinte)

Um «agnus dei»? E porque não um Aquelarre, o lugar de iniciação chamado ?Prado do Bode?, onde o Demónio, «a quem o tem por deus e senhor, aparece (?) comummente, na figura de bode». (Rego,1981:28)

Desenhado no interior da igreja, do lado esquerdo da porta no sentido de quem entra (do lado direito está a pia de água benta) o bode tem razão para estar atarantado. O arrais da Barca do Inferno, o «excomungado nas igrejas» (Vicente,1997:74) olha para trás e fita os símbolos do seu grande adversário de sempre. Neste quadro, desenhado a traço simples e tosco, estão patentes as marcas de Maniqueu, estão ali representadas duas forças antagónicas - o Bem e o Mal - a Igreja e Satanás, aquela na perseguição deste e de todos os seus dilectos seguidores: bruxos, bruxas, benzedeiras e adivinhos.

Assinatura de pedreiro? Seguramente que não.

Sabendo nós que «Satanás tem grande força, especialmente nos cornos, por isso é de ter presente que onde houver cornos tem diabo metido» (Cipriano,1998, nota do introdutória do editor) , podemos dizer que não foi só na Igreja da Ermida do Paiva (que, como vimos, segundo alguns esteve ligada aos Templários) onde o chifrudo foi desenhado. E em França, perto da aldeia histórica de Falicon existe uma pirâmide em cujo sopé foram encontradas as ruínas daquilo que se supõe ter sido um lugar habitado no séculos XII e XIII pelos Templários e pelos Antoninos hospitalários. Muito perto, no conjunto das construções, eleva-se uma torre quadrada e da sua cave ergue-se a conduta de uma chaminé onde se encontra o desenho de uma figura com cornos enormes. Um diabo exorcismado? Recordação singela de uma visão fugitiva concedida aquando da iniciação dos Templários, dessa cabeça cornuda que encerra os segredos do conhecimento numérico, geométrico, transmutável e transmutativo? Sem dúvida tudo ao mesmo tempo». (Guinguand,1975:187-188).

Não é de estranhar pois que o bode apareça aqui, numa das pedras do templo. Ele, com a sua cabeça «cornuda que encerra os segredos do conhecimento numérico, geométrico, transmutável e transmutativo». E números e figuras geométricas é o que não falta nas paredes do Mosteiro da Ermida.

Mas a figura do bode pode comportar uma outra interpretação. Pode estar ligada a uma das «rogações» de Maio a que fez referência o Reitor Pedrosa em 1772. Assim: «Na primeira 2ª fª vai a ladainha à Cruz do Ribeiro aonde espera também a da freguesia de Pinheiro e incorporadas ambas voltam a esta Igreja da Ermida aonde finaliza». (Pedrosa, 1772:43)

Mais prolixo na explicação das outras rogações do que nesta, só no trabalho de campo encontrámos a explicação para o laconismo do Reitor.

Demos a palavra ao senhor Manuel Fernandes Costa, natural de Cetos, freguesia de Pinheiro, com 90 anos feitos em 2000-03.03.

«Ladainhas da Ermida e de Pinheiro? Sim senhor. Íamos daqui para Pinheiro e dali para a Cruz do Ribeiro. Juntávamo-nos aos da Ermida e juntos íamos para a igreja do Mosteiro, onde terminava. E, desculpe, esta ladainha tinha um nome muito esquisito. Chamava-se «ladainha dos cornudos».

O caso fundamentava-se numa lenda: «em tempos distantes, na sequência de uma prolongada seca, as gentes do campo ao verem morrer de fome e sede os animais que eram a base da sua economia, levantaram as mãos ao céu e pediram chuva até que, de mole, caísse a cornadura aos poucos animais que restavam. Pedido feito, prece atendida. À seca seguiu-se tal invernia que, ficando os animais sem cornos, foi necessário fazer uma «rogação» para que não chovesse mais».

A ser assim, e à semelhança das procissões onde, nos tempos modernos os animais ainda são incorporados, e não obstante sabermos que são ?inúmeros, de resto, os rituais heterodoxos que começam por ser proscritos nas Ordenações Manuelinas do Reino, nomeadamente as adivinhações e mezinhas praticadas com as denominadas «cabeças de saudadores, encastoadas em ouro, ou em prata» (Torres et al, 1995:28), cabeças usadas para «benzer o gado», faz sentido o bode marchar à frente das cruzes, excluídas que sejam mais duas versões que correm sobre a mesma ladainha: uma, dizendo que não se podiam junguer as vacas naquele dia senão caíam-lhe os cornos; a outra dizendo que a rogação se destinava a evitar invernias, causa directa da praga do cornelho que dava nos centeios.

Assinatura de pedreiro? Seguramente que não.

Ler o seu significado, para quem não foi, nem é, iniciado, nem seguiu os passos historiados no capitel acima referido, terá forçosamente de interrogar-se e interrogar as próprias siglas. Desenhadas na Idade Média, esse tempo conhecido por Idade das Trevas, tempo em que se impuseram valores e ideias, tempos de transição para outros tempos, são realmente os tempos em que o passado estava vivo no presente, apesar de procurar-se o seu completo apagamento, com excomunhões, perseguições e autos-de-fé. Os monumentos e documentos testemunham isso mesmo. A Ermida do Paiva com as siglas e as figuras que ornamentam as suas pedras, os capitéis das suas colunas, os seus modilhões, aí estão a provar que os elementos culturais clássicos e pagãos, num entrançado de valores religiosos e profanos, não só permaneciam vivos no espírito das gentes, como as levavam a deixar a marca material do seu pensamento/acção. Tanta sigla!

Tanta sigla! Olhe aquela ali! A dupla espiral «símbolo que encontramos nas mais diversas culturas antigas como a céltica e a grega. Representa a harmonia entre a inspiração e a respiração. O movimento centrípeto e centrífugo. A captação dos mitos e arquétipos e a sua manifestação do mundo sensível» (Loução, 2000:66) E aquela, ali?

É a letra do alfabeto fenício (1000 a.C)? O tridente de Posídon, uma pata de galinha, ou, tão só, a assinatura, o sinete do pedreiro? Se calhar, pensando como Livraga citado por Loução, tudo isso e mais alguma coisa inaudita por preconceito ou reserva mental, («os investigadores envolvidos num dogma religioso, racial, político ou de classes sociais estão inabilitados pela Natureza para verem a Verdade, ainda que diplomados por cem universidades» (Loução,2000:89) cujo significado dispensa recuar a tão eruditas informações, já que o seu significante, ainda que estilizado e reduzido à forma mais simples, sempre esteve e está perto do homem em todos os tempos e lugares. O que é da natureza humana, da natureza humana se há-de manter eternamente. E ainda que, por foça das filosofias ou doutrinas adversas, entre em profunda hibernação, tarde ou cedo emerge pujante de força e de verdade.

Ora dê liberdade à sua imaginação, dispa-se de preconceitos maliciosos, encare com naturalidade o que foi natural antes de ser considerado pecaminoso, tenha presente que «na maioria das tradições simbólicas, as idealizações da nudez representam inocência, liberdade, vulnerabilidade, verdade e, frequentemente, divindade (e que) embora a nudez simbolize igualmente carnalidade, vergonha, maldade, o corpo sem adornos foi com muita frequência um símbolo de pureza» (Tresidder, 2000:15), tenha presente a figura humana que referimos acima, aquela esculpida num dos modilhões deste templo, nua e sem quaisquer adornos e, assumida essa postura, sem receio de engrossar o rol daqueles que têm propensão para visões, para ver o invisível e ouvir o inaudito, fazendo acreditar multidões naquilo que dizem ver e ouvir? olhe aquela sigla dê-lhe corpo, complete uma figura humana, ponha-a de pé, deitada, de pino, faça o mesmo com as espirais abertas, simples ou acopladas que se multiplicam a esmo por muitas destas pedras (mas que voltas é preciso dar para se penetrar no tesouro escondido ou disfarçado!) e não tardará a descobrir nos elementos esquematizados, até agora considerados «sinetes de pedreiros», os símbolos da fertilidade, o mistério da vida, assim, tão simples como os simples encaram o quotidiano dos simples é o reino dos céus.

E creia que está bem acompanhado dando corpo e músculo a tais siglas. Veja o que diz Grahame Clark relativamente a idênticos sinais, alguns mesmo iguais, deixados nas profundezas das cavernas pelos «caçadores da idade da pedra»:

«Ainda mais concludente, porém, é a presença, tanto na arte parietal como na mobiliária, de numerosos sinais acerca de muitos dos quais se pode demonstrar, com elevada probabilidade, que simbolizavam o sexo masculino, o sexo feminino e a união de muitos destes. A natureza sexual de certos sinais, mais ou menos pictográficos, não oferece dúvidas. E, ao compará-los com outros, vê-se que muitos destes são ou simplificações ou desenvolvimentos dos sinais básicos. O facto de em muitos casos os sinais «masculinos» e «femininos» se poderem justapor vem ainda confirmar a sua interpretação como símbolos do sexo» (Clark,1969:81-82)

Gigantesco foi o passo civilizacional que o homem deu desde o tempo das cavernas, das antas e dólmens, esses túmulos/templos (Domingos, 2000-08-11) ao tempo das catedrais e das igrejas, esses templos/túmulos. Mas curta foi a mudança na sua essência humana, na sua forma de encarar o mistério da vida e a sua representação simbólica.

Sinetes de pedreiros? Não só, seguramente.

Tanta sigla!

Ali está o ziguezague, o símbolo do relâmpago, «ligado à ira divina ou potência fertilizadoras, é um exemplo raro de um fenómeno simbolicamente ligado tanto ao fogo como à água, pois precedia frequentemente a chuva; e quer como criador, quer como destruidor, era contemplado com uma mistura de medo e reverência. Os lugares atingidos pelo relâmpago tornavam-se chão sagrado e as pessoas que lhe tocavam traziam uma marca de Deus, se sobrevivessem, ou julgava-se serem transladadas imediatamente para o céu, se morressem». (Tresidder,2000:108)

Iniciação, astrologia, artes mágicas, repositório de culturas e crenças, o papel dos mosteiros e dos monges desempenhado no domínio da agricultura, no âmbito da saúde e assistência, a terapêutica utilizada nas curas, onde a influência dos astros, da magia, da religião e a ciência da época andavam de mãos dadas com o destino e a vida do homem. E os pedreiros, metendo o escopro nas pedras, rabiscando ou desenhando siglas, mais não fizeram do que cumprir ordens de quem, por força de estudo ou de ouvir dizer, estava familiarizado com crenças, culturas e saberes que assentaram primeiramente arraiais lá para o Egipto e Caldeia, vindo depois a germinar e a florescer no mais inóspito rincão da Europa, como era o caso na Ermida de D. Roberto.

Esta igreja, com outros templos, castelos ou construções semelhantes por companhia (bem perto estão os mosteiros de S. João de Tarouca, de Salzedas e a Ponte fortificada da Ucanha, também siglados) constitui um repositório científico, religioso e mágico legado por civilizações distantes, acrescido de respostas próprias adequadas ao estádio de pensamento dominante, ou subversivo, na altura em que foram construídos

E neste contexto, sublinhando-se o papel desempenhado pelos monges no âmbito da saúde e assistência, é bem de crer que aos mosteiros se deve a génese das rezas e benzeduras que, argamassando padre-nossos, ave-marias e santos, hão-de projectar-se no tempo e no espaço através de bruxas, benzedeiras e curandeiros. Foram estes depois perseguidas pela Igreja? Pudera! Nas coisas do espírito havia que manter o monopólio e desconhecem-se até agora as razões que levaram à expulsão dos monges da Ermida em 1312.

Eles partiram. Mas o seu saber hermético, espalhado por todas aquelas siglas, ali ficou e ali continua a ser um enigma. E a nós de pouco nos valeu ter descoberto a chave do seu tesouro. Num livro de tantas páginas foi bem pouco o que deciframos, admitindo mesmo nada termos decifrado.

É que espicaçados pela curiosidade, incapazes de abrir o cofre, apenas nos foi dado espreitar pelo buraco da fechadura. Feito isso, deixando-nos levar pelas asas da imaginação, reflexão e espírito criador, o que significa termos descoberto apenas os símbolos da fertilidade, os símbolos ligados ao mistério da vida?

Cremos, todavia, que a espreitadela valeu a pena e, sabe-se lá, talvez o leitor, numa das suas futuras e indispensáveis visitas ao Ermitério do Padre Roberto, levado pela curiosidade acicatada por esta nossa descoberta, fazendo-se acompanhar do «Livro do Frenético Desejo do Devoto de Aprender os Enigmas das Antigas Escrituras», cujo autor nele expôs muitas regras para compor e decifrar alfabetos misteriosos, bons para a prática da magia, e também daqueles livros árabes que enumeram um série de artifícios engenhosos e ensinam a substituir uma letra por outra, escrever uma palavra ao contrário, colocar as letras na ordem inversa, tomando uma sim e outra não, voltando depois ao princípio, substituir as letras pelos signos zodiacais, mas atribuindo às letras escondidas o seu valor numérico e depois, segundo um outro alfabeto, converter os números em novas letras (Eco, 1980:162), talvez consiga chegar onde nós não chegámos.

E se isso acontecer, se passar no exame em que nós reprovámos, bem pode, marchar todos os anos ali para os lados de Trás-os-Montes, in loco dicitur Vilar de Perdizes, onde, em torno Padre António Lourenço Fontes, têm gravitado astrólogos, curandeiros, bruxos, adivinhos, médicos, sociólogos, padres, endireitas, curiosos e estudiosos. Aí pode expor a sua sapiência hermética ou, então, o que também está a dar, montar uma linha telefónica de valor acrescentado pois não lhe faltarão clientes de todos os estratos sociais e pedir que lhes faça horóscopo do futuro. E se o seu critério de vida assentar no ter e não o ser esteja certo que ganhará muito mais com meia dúzia de horóscopos do que nós com a publicação deste trabalho, depois de muita investigação. E uma vez lá aproveite e participe no jantar-reunião das bruxas depois de se inteirar da ementa: de entrada: «presunto do curandeiro». De seguida de ?vitela excomungada na brasa?. Sobremesa: «peras bebadas com a bruxa», tudo regado com ?vinho dos mortos?. Por fim ?uma sopa de urtigas? (Ribeiro,2000:11)

Mas para terminar esta série de artigos sobre as siglas, matéria repescada de um capítulo do meu livro «Mosteiro da Ermida» publicado no ano 2000, capítulo, onde a simbologia e o saber simbólico, onde a imaginação ocupou o espaço da heurística e hermenêutica aplicadas aos factos e documentos, onde o pensamento cartesiano deu lugar à intuição, nada melhor que referir uma peça que, pelo seu simbolismo, pelos símbolos que a adornam, bem merece ser evocada.

Referimo-nos a uma das preciosidade que pertenceu ao mosteiro da Ermida e que, Aarão de Lacerda, em 1919, localizou em Lisboa no Museu da Arte Antiga. Trata-se do báculo. Assim o descreve esse autor:

«Báculo em cobre dourado da Ermida do Paiva, do século XII, mais conhecido por báculo de Castro Daire. O seu estilo harmoniza-se com o monumento onde servia: o lavor das imagens, os símbolos, os ornatos são cheios desse arcaísmo que inconfundivelmente apresenta a torêutica românica. Tanto o baixo relevo da Virgem, como o do Salvador abençoando guardam aquele hieratismo bizantino que torna as produções pouco naturalistas e mais próximas dos princípios ortodoxos. Depois o bestiário repete-se ali como num modilhão ou num capitel: na parte inferior da crossa vêem-se três lagartixas com as caudas enrroladas simbolizando o segredo, e na parte superior a proteger o medalhão, onde se ostenta de um lado o Salvador e do outro a Virgem do o Menino, uma cobra significando a vigilância». (Lacerda, 1919:67-68)

Atente agora o leitor na representação gráfica de algumas das siglas do Mosteiro da Ermida. Pense em tudo o deixámos escrito neste capítulo e pergunte-se se elas serão, de facto, assinaturas de canteiros.





(a) A mais recente confirmação disso é o símbolo adoptado pelo novíssimo Bloco de Esquerda, com assento parlamentar: uma estrela de cinco pontas com uma bola no sítio da cabeça.

(b) «Nóvea e novêna». A nona parte ou de nove partes uma. Acha-se com frequência e ainda nas cortes de Lisboa de 1455. Daqui pam anneveado, quando de nove alqueires se paga um. Documento de Lamego do séculio XIV? (Elucidário, vol. II, pp 439)

(c) «Disposição da terça parte da herança a benefício das almas dos pios testadores, e isto ainda que tivessem filhos de mulher legítima e forçosos herdeiros. (Elucidário, Vol. II, pp 605)

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.