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sábado, 03 fevereiro 2024 21:07

REVOLUÇÃO NEOLÍTICA (1)

Escrito por 

REVOLTA DOS AGRICULTORES

Foi o gigante passo humano registado na cronologia da evolução do HOMEM na luta  pela sobrevivência. Fixado à terra e tirando dela parte dos alimentos,  o HOMEM deixou de ser simplesmente RECOLETOR, a depender dos frutos sazonais,  e passou decididamente a ser PRODUTOR. 

INTRODUÇÃO

E, com a ligação definitiva à terra, aos sítios, surgiram os lugarejos, os povoados, as quintas, as aldeias e as cidades. E surgiram as técnicas e ferramentas agrícolas. E fizeram-se as vasilhas de madeira, de pedra  e de barro para recolha e preservação das sementeiras e colheitas. E eis os celeiros. E eis as adegas. E eis oa comes e bebes sem deslocações obrigatórias,

E apareceram as profissões segundo as necessidades dos “quefazeres” comunitários. E a terra lavradia e pastoreio tornaram-se a principal fonte de RIQUEZA. As produções abundantes deram lugar à troca e transação dos excedentes entre tribos vizinhas e afastadas. E eis o comércio.

E a bobine da HISTÓRIA enrolou sobre si própria séculos e séculos de labor, de imaginação, de inteligência, de técnicas agrícolas e artesanais, antes de enrolar a grande INDÚSTRIA, os SERVIÇOS, o grande COMÉRCIO e a GLOBALIZAÇÃO.


PRIMEIRA PARTE


portugueses-2Vem isto a propósito da presente REVOLTA DOS AGRICULTORES que, deixando as suas grandes herdades e as suas pequenas hortas, do norte ao sul de Portugal, na França inteira e outros países europeus, chegaram espora aos cavalos escondidos sob o cspô das suas carretas e tratores,  decididos a pôr cerco às cidades do “mando e comando”. A lembrar religiosamente os cercos medievais, essa velha técnica de vencer o adversário, o inimigo, pela fome e pela sede.

Lenhador que assumo ser na FLORESTA DAS LETRAS, que, de podão em punho me aventuro a abrir “trilhos de pensamento e conhecimento”, publiquei ontem mesmo, no meu mural do FACEBOOK,  uma versalhada sobre o EVENTO (mais “documento histórico” do que “poesia de compêndio”) e do conjunto respigo para aqui as duas últimas estâncias, reportando-me às grandes cidades, assim:

agricultores“(…)

Habitadas por senhores
De governo e colarinho branco
Dum viver, sem calos na mão
Por afogamento ou seca morrearão
Pois não se granjeia o pão
Nos “rivulus merdaram”
Em que todas elas se tornaram.


 E os cercos medievais
Que matavam à fome os sitiados
Não são tempos passados
Passatempo dos historiadores
São dos tempos atuais
Bem o mostram os AGRICULTORES”.

europa-2Claro que, o  fio do meu podão levou a eito todos os grandes aglomerados urbanos de “mando e comando”, nacionais e estrangeiras, sedes exportadoras de “conhecimento”, “serviços”, “indústrias”, “tecnologias” e o mais do que são capazes, mas, numa evolução dicotómica, elas obrigadas foram a tornar-se importadoras e dependentes dos produtos do campo, nomeadamente produtos alimentares e energéticos. 

Quisessem os RÚSTICOS, OS RURAIS, moradores nas quintas e nas aldeias e essas GRANDES URBES (estou a pensar na capital do reino, Lisboa) colapsariam frente a um alteroso tsunami camponês, sem necessidade do embate das placas tectónicas, responsáveis pelos terramotos e maremotos que reduzem a escombros o património edificado e à penúria, à dor e à morte os seus habitantes


SEGUNDA PARTE


E porque tenho a CAPITAL no pensamento, verificada que está a histórica evolução humana e o binómio “CAMPO/CIDADE”, simultaneamente senhorio e enfiteuta, v.g. ambos, reciprocamente, beneficiários  e interdependentes, ocorre-me trazer à colação as imagens de LISBOA  vertidas em filme por OSBERNO, dando de barato a disputa de saber se foi ele o autor ou destinatário da sementeira e colheita que armazenada ficou no CELEIRO DO CONHECIMENTO HISTÓRICO. 

Dotado, como os demais seres humanos, das naturais lentes de filmar postas sob as sobrancelhas com o nariz de permeio - os olhos - aponta as pupilas ao objeto que o impressiona e grava na retina e na memória a paisagem e vida ao seu alcance. De posse disso tudo, pergunta-se como vai transmitir a terceiros e ao futuro as imagens e os sons que retivera? Uma velha aspiração do ser humano que é comunicar, que é partilhar com o seu semelhante as suas experiências, saberes e emoções.

As técnicas de transpor para fora da “câmara escura” as imagens retidas em película, seriam invenções humanas do porvir. Mas ele, que conhecia a transmissão de ideias através da “escrita pitográfica ou figurariva”, que conhecia a “escrita cuneiforme” e “hieroglífica”, dispunha de um poderoso meio de COMUNICAÇÃO que era a “escrita alfabética”. Dominando o LATIM, sem líquidos e química adequada para revelar as imagens retidas, pega num pergaminho, molha a pena de pato em tinta e deixa escorrer para a posteridade, colinas abaixo,  a LISBOA que os CRISTÃOS conquistaram aos MOUROS, em 1147. Eis a «revelação» que fez, assim:

lISBOA.CAPA-10000«É este um rio que desce das regiões de Toledo, e em cujas margens se encontra oiro, quando no princípio da Primavera as águas se recolhem ao leito. Há nele tanta abundância de peixe, que os habitantes acreditam que dois terços da sua corrente são de água e o outro terço de peixes, É também rico de mariscos como de areia, e é principalmente de notar que os peixes desta água conservam sempre a sua gordura e sabor natural sem os mudar ou corromper por qualquer circuns­tância, como acontece entre nós. Ao sul do rio fica Almada, região abundante de vinhas, figos e romãs. A terra ali, tão fértil de searas que da mesma semente se recolhe o fruto duas vezes. É rica de mel e celebrada pelas montarias de ani­mais. Para os mesmos lados fica o castelo de Palmeia. 

Ao norte do rio está a cidade de Lisboa, no alto dum monte arredondado e cujas muralhas descendo a lanços, chegam até à margem do Tejo, dela separado apenas pelo muro. Ao tempo que a ela chegámos era o mais opulento centro comercial duma grande parte da Europa. 

Os seus terrenos, bem como os campos adjacentes, podem comparar-se aos melhores, e a nenhuns são inferiores, pela abundância do sole fértil, quer se atenda à produtividade das árvores, quer à das vinhas. É abundante de todas ao mercadorias, ou sejam de elevado preço ou de  uso corrente; tem ouro e prata. Não faltam ferreiros. Prospera ali a oliveira. Nada há nela inculto ou estéril; antes, os seus campos são bons para toda a cultura. Não fabricam o sal: escavam-no É de tal modo abundante de figos, que nós a custo podemos consumir uma parte deles. Até nas praças vicejam os pastos. É notável por mui­tos géneros de caça: não tem lebres, mas tem aves de várias espécies. Os seus ares são sau­dáveis, e há na cidade banhos quentes. Fica-lhe próximo o castelo de Sintra, à distância de quase oito milhas, no qual há uma fonte puríssima, cujas águas, a quem as bebe, dizem, abrandam a tosse e a tísica; por isso quando os naturais dali ouvem tossir alguém, logo depreendem que é um estra­nho. Também tem limões. Nos seus pastos as éguas reproduzem-se com admirável fecundidade, porquanto só com aspirar as auras concebem do vento, e depois, sequiosas, têm coito com os cavalos. Desta forma se casam com o sopro das auras. 

lISBOA.CAPA-20000
À nossa chegada tinha a cidade sessenta mil famílias que pagavam tributos, incluídos os dos subúrbios em volta, mas excluídos os homens que não estavam sujeitos à tributação de ninguém. O alto do monte é cingido de uma muralha circular, e os muros da cidade descem pela encosta, à direita e à esquerda, até à margem do Tejo. Ao sopé dos muros existem arrabaldes alcandorados nos rochedos cortados a pique, e são tantas as dificuldades que os defendem, que se podem ter em conta de castelos bem fortificados. A sua po­pulação era mais numerosa do que se pode ima­ginar. Com efeito, segundo depois soubemos pelo alcaide, isto é, pelo governador,  depois de a ter­mos tomado, teve esta cidade cento e cinquenta  e quatro mil homens, exceto as mulheres e crianças, mas incluídos os habitantes do castelo de Santarém que, expulsos aquele ano da sua cidade, ali se tinham fixado como hóspedes, e bem assim todos os nobres de Sintra, Almada e Palmeia, com muitos mercadores de toda parte da Espanha e de África. Mas sendo tantos não tinham armaduras com lança e escudo mais que quinze mil homens; e com estas armas saíam a combater ora uns ora outros, conforme a ordens do seu governador o determinavam. Os seus edifícios estão aglomerados tão apertada­mente que, a não ser entre as dos comerciantes, dificilmente se achará uma rua com mais de oito pés de largura. A causa de tamanha aglomeração de homens era que não havia entre eles nenhuma religião obrigatória; e como cada qual tinha a religião que queria, por isso de todas as partes do mundo os homens mais depravados acorriam aqui como a uma sentina, viveiro de toda a licen­ciosidade e imundície. Sob o domínio dos reis cristãos, antes que os Mouros a tomassem, num lugar junto da cidade e que se chama Campolide, venerava-se a memória dos três mártires Veríssi­mo, Máxima e Júlia, virgem, de cuja igreja total­mente arrasada pelos Mouros restam ainda so­mente três pedras como lembrança da sua des­truição, as quais nunca dali puderam ser retiradas. A respeito delas dizem alguns que são altares; outros, porém. Afirmam que são pedras tumulares. E acerca da cidade  basta por agora o que fica dito».


TERCEIRA PARTE


LisaboaUma fotografia assim, feita em 1147, fui encontrá-la, não nas várias HISTÓRIAS DE PORTUGAL que adornam a minha biblioteca, feitas por autores de renome, mas num livrinho de bolso, formato 16,5x11,5, editado em 1972 pelo Ministério da Educação Nacional, Direção Geral de Educação Permanente. É seu autor António Carlos Leal da Silva, com a colaboração de Francisco G. Santana. Curiosa coisa. Ora, uma fotografia assim, a mim chegada em tal livro, nunca deixaria de estar presente no meu pensamento, como esteve, por certo, no pensamento do Arquiteto Ribeiro Teles, acérrimo defensor de uma LISBOA ecológica, sem habitações levantadas no leito de ribeiras e rios, uma urbe humana que conjugasse passado/presente/futuro (casa e jardim), que evitasse o binómio campo/cidade, dois mundos num só mundo, mais antagónicos do que complementares. 

Sendo ele monárquico e eu republicano, com idade para ser meu pai, de tanto escutá-lo e respeitá-lo, aqui estou a lembrá-lo. Tal como lembrei na versalhada que publiquei no meu mural do FACEBOOK nos primeiros dias de janeiro de 2024, a propósito da NOVA AD (PSD/CDS/PPM) que vai a eleições em março p.f.

(…)

Mas onde está a sabedoria
Essa postura de antigamente?
Aquilo era outra gente
Igual não há, hoje-em-dia.
Dava gosto ver e ouvir o trio
Mesmo com ele discordando
Mas o tempo foi rodando
E perdeu-se honra e o brio.

(…)”

 EPÍLOGO

De Osberno destacam-se a orografia onde assenta a cidade, as cores e sons rurais, não obstante, à época, ser  “o mais opulento centro comercial duma grande parte da Europa”  e, por isso mesmo, uma cidade multicultural, de costumes vários. Coisa que nunca deixou de ser pelos tempos fora. E o escriba, integrado nas hostes dos CRUZADOS contra a moirama, não deixa de aconchegar a “brasa à sua sardinha” quando realça que “a causa de tal aglomeração de homens era que não havia entre eles nenhuma religião obrigatória; e como cada qual tinha a religião que queria, por isso de todas as partes do mundo os homens mais depravados acorriam aqui como a uma sentina, viveiro de toda a licenciosidade e imundice”. Que é como quem diz: os “cristãos são outra louça”.

E era o que faltava eu ficar calado nos tempos que correm e não associar a Lisboa medieval e os cercos que sofreu  à atual REVOLTA DOS CAMPONESES que, descontentes com a “governança” ameaçaram cercá-la ou entrar mesmo ruas e avenidas adentro. E calado ficar também no momento da escolha dos governantes que têm permitido a existência, séculos fora, destes dois «PORTUGAIS»: litoral/interior, urbano/rural, campo/cidade. Um desertificado e outro superpovoado.

 E desses governantes há aqueles que, de passagem,  deixaram pegada funda, resistente às enxurradas e ventanias dos tempos históricos  e  aqueles cujo rasto não resiste ao sopro da mais suave e leve brisa que, à copa do carvalhal, não arranca sequer o  mais poético, tímido e receoso  fru-fru-fru”.

E tudo isto, no dia em que em Lisboa se fizeram manifestações racistas por grupelhos que ultimamente têm florescido em Portugal inteiro,  claro fica que se eles estudassem mais a HISTÓRIA DE PORTUGAL, tornar-se-iam mais patriotas e mais respeitadores dos HINO NACIONAL.

 

 

 

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.