Trilhos Serranos

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domingo, 22 agosto 2021 04:16

AFRICA - VIAGEM NOCTURNA

Escrito por 

TEMERÁRIA É A JUVENTUDE

«Conhece-te a ti mesmo», eis o antigo aforismo grego (cujo autor verdadeiramente se ignora) que tenho seguido ao longo da vida, visando não apenas compreender os meus comportamentos, mas também conhecer os comportamentos dos meus semelhantes, para respaldo inteligente do relacionamento civilizado a que está sujeito todo o ser social e político, condenado, de facto, a viver em sociedade e nela deixar (ou não) a sua pegada humana. E pegada humana é a que se segue, posta em letra redonda, para evitar equívocos. Assim:

 

PRIMEIRA PARTE

Em mil novecentos e setenta e um/dois, lá nas costas do Índico, eu integrei o grupo de estudiosos que, orientado pelo Professor CAVALEIRO PAIXÃO e ESPOSA, ambos da Universidade de Lourenço Marques, procedia às escavações no «campo arqueológico paleolítico» do MASSINGIR, sito a 300 quilómetros da capital da colónia, espaço pré-histórico que seria alagado pela barragem então ali iniciada no rio dos Elefantes, afluente, muitos quilómetros abaixo, do rio Limpopo, pela empresa Tâmega.

MoçambiqueLocalizado e reconhecido o campo, antes que houvesse tal alagamento, deslocámo-nos para ali com armas e bagagens numa carrinha tipo “pão de forma”, daquelas muito usadas na época. E, lá chegados, apesar de nos servirmos dos aposentos pré-fabricados da Empresa Tâmega, onde pernoitávamos e comíamos, não nos livrámos de, em pleno campo de escavações, proceder à abertura de uma vala funda que, com uma tábua de través, serviria de “SENTINA”. Isso mesmo, a SENTINA, dotada da indispensável pá que ali ficou disponível permanentemente para tapar com terra o que, por razões fisiológicas, cada um de nós lá fosse deixar. Aquele petisco malcheiroso, mas apetitoso para o mosquedo. Ó ciência, a quanto obrigas! Chegado a necessidade do alívio, pés assentes na tábua, de cócoras, presumivelmente à maneira do pai Adão,  ali, solitários, acabavam-se os pruridos dos graus académicos, os níveis de escolaridade atingidos, as proveniências e origens sociais e profissões exercidas no ganho da vida. Ali, onde se aplicavam as sofisticadas técnicas arqueológicas com vista ao estudo e conhecimento da vida dos nossos antepassados distantes - Idade da Pedra - obrigados éramos a praticar o primário e instintivo gesto do felino que, sem exames nem diplomas, nem docentes, nem discentes, sem exames nem diplomas, tapa, decentemente, os  dejetos depois deles se aliviar.

Previamente sabedores de que a zona ia ser alagada, havia que recolher o material arqueológico encontrado à superfície e/ou estratos de escavação, depois do espaço devidamente esquadrinhado com régua e esquadro, cordéis e estacas, com todos os ESSES e ERRES recomendados pela Ciência específica. E foram muitas as sacadas de artefactos líticos que dali partiram para caixotes, caixotões e caixotins que constituíam os arquivos da Universidade. Muita quadrícula explorada, muita medida feita, cota registada, muita terra peneirada e ala. Os estudos minuciosos de laboratório e datação seriam levados a cabo posteriormente.

barragemNão sei que fim foi dado a esse material lítico. O 25 de abril de 1974 estava à porta e com ele a independência da colónia. Também não sei se há estudos posteriores relativos a essa CAMPO ARQUEOLÓGICO e CRÉDITOS atribuídos ao casal pioneiro de arqueólogos - os CAVALEIRO PAIXÃO - que orientou o grupo de trabalhos que eu tive o privilégio de  integrar.

Mas, seja como for, não tenham esses artefactos sido alagado por razões ideológicas, como alagado foi o sítio onde foram recolhidos por imperativo de estudo (ver foto ao lado tirada do Google, neste ano de 2021), também não é essa a razão deste meu apontamento.

E a sua razão é que numa dessas deslocações de pesquisa e estudo, pelo facto de eu ter adquirido um carro novo japonês - Isuzu Bellet - a fim de lhe fazer a rodagem, fui em carro próprio, seguindo a carrinha «pão de  forma» na qual já tinha viajado em sessão anterior. Estrada de terra batida, escusado será dizer que, entre a partida e a chegada, o meu carro novo mudou de cor com aquela poeira vermelha que, levantada do chão, penetra através de tudo quanto são poros de pele humana e orifícios de árvores e de veículos.

SEGUNDA PARTE

Trezentos quilómetros separavam o ponto de partida do ponto de chegada. De um lado a cidade das acácias, árvores de copa aberta ramificada, inconfundível palanque florido e verdejante, donde as cigarras, na sua cegarrega permanente, enchem ruas e avenidas como orquestra sinfónica que atua «pro bono» ao ar livre para quem quer ouvir. E, do outro lado, o campo arqueológico rural da IDADE DA PEDRA, onde, por ora,  roncam os potentes motores das máquinas que ali revolvem e deslocam terras destinadas ao tapume da construção da barragem.

1-MARQUES - CópiaNo decurso dos trabalhos, as notícias da capital chegavam ao sítio, ao fim da tarde, levadas pelo jornal. Eu era já professor no “EXTERNATO MARQUES AGOSTINHO” e, num desses jornais, chegou a notícia dramática de que a esposa do DIRETOR desse ESTABALACIMENTO DE ENSINO o tinha assassinado a tiro de pistola, à secretária. Que seria sepultado no dia seguinte. Fiquei em estado de choque ao saber isso, mas, recuperado num instante, não hesitei. Conhecedor a notícia à noite, decidido a acompanhar um AMIGO à sua última morada, à noite, abandonei o campo de  escavação e pus as rodas na estrada. Sentado ao volante foi toda a noite a rodar, a vencer de retorno a distância que só conhecia das duas vezes que percorrera dias antes. Assim mesmo, SOZINHO. Medo? Nem pensar. Trezentos quilómetros de estradas rasgadas numa área considerada território de elefantes, leões, búfalos, leopardos, girafas e toda a fauna selvagem que se vê na foto que, mais abaixo,  ilustra este apontamento, retirada do «ATLAS DE MOÇAMBIQUE», editado pela “Empresa Moderna”, Lourenço Marques, 1962, (FAUNA, pp. 29).

Medo? Nem pensar. Seguir em frente foi a opção e não houve lugar para mais interrogações. Surdo e mudo cheguei a tempo do enterro e jamais assisti a semelhante cerimónia fúnebre. Não se via ponta de veículo. Viam-se sim quilómetros de coroas de flores a deslocarem-se pela estrada adiante, a caminho do cemitério. O senhor MARQUES AGOSTINHO, era um caso sério. Fundador e Diretor do EXTERNATO a que pôs o seu nome – o Estabelecimento de Ensino Particular mais afamado e frequentado em toda a cidade de Lourenço Marques - era conhecido por gente grada e gente humilde. Gente da política, da polícia e da educação. A sua morte trágica abalou a cidade inteira. E morosa caminhada foi a sua até à cova. E eu diria que, nesse dia, as cigarras, as eternas inquilinas das acácias, em vez de entoarem, como sempre, a sua costumada sinfonia, entoavam o lacrimoso Requien de Mozart: o corpo de um HOMEM IMPORTANTE descia, trágica e inesperadamente, à terra vermelha tropical..

M.AGOSATINHOO meu carro, ainda coberto com o pó vermelho da viagem noturna, integrava o féretro. Ao meu lado a minha mulher MAFALDA que conheci como aluna naquele estabelecimento de ensino. Ambos surdos e mudos ali íamos nós, juntos no mesmo veículo e outra coisa  não éramos senão mais um elo da gigante lagarta, colorida e ondulante a deslocar-se em lento, muito lento movimento.

Tenho disso memória viva. E terminada a cerimónia, cada qual regressou às suas moradas. E mais me lembro ainda que, fosse pelos sentimentos e emoções sofridas e caladas que carreei durante a viagem noturna SOZINHO naqueles TREZENTOS QUILÓMETROS de distância, fosse pela dor e silêncio do enterro, fosse porque desaparecera para sempre o AMIGO que fez do ALUNO que estudou no seu ESTABELECIMENTO DE ENSINO professor dele, perdi a voz durante 4 ou 5 dias. Não saí de casa em todo esse tempo e só por mímica comunicava com a minha mulher. Fiquei abúlico e afónico.

selva

 

Feita a DESCOLONIZAÇÃO, de retorno ao CONTINENTE, colocado em Castro Verde, percorri, a bem dizer, Portugal de NORTE A SUL e de ESTE A OESTE. Radicado naquela vila alentejana por imperativo profissional – docente que era -  dali a Faro era um saltinho pela Estrada Nacional nº 2. E, com família em Castro Daire, todos os anos nas férias, os quinhentos quilómetros que separam os dois Castros eram vencidos pela Citroen Dyane que adquirimos, logo que pudemos. Idem depois de ser colocado em Castro Daire, seguindo para o Gerês, via Chaves. Atravessei vilas e cidades com a família inteira sem GPS e/ou equipamentos similares facilitadores de orientação. O mesmo naqueles 300 quilómetros que separam Lourenço Marques de Massingir. Nem medo, nem hesitações.

Mas - «conhece-te a ti próprio» - se isso fiz em tempos idos, se na juventude, não temi percorrer 300 quilómetros de noite , sozinho, numa estrada rasgada em território que sabia ser habitat natural da mais feroz fauna africana, chegados que foram os meus 75 anos de idade (já vou nos 82) recusei-me, por medo, a deslocar-me a Lisboa e a enfrentar a selva humana que circula nas negras artérias da capital,nos seus  viadutos e túneis. E porque a senilidade ainda me não tolheu a lucidez do discernimento  – dou este texto como prova disso - não raro me interrogo até que ponto os animais da selva e das matas se vão cada vez mais urbanizando e humanizando, ao contrário dos seres humanos que, nessa selva citadina, se vão, a cada vez mais, despojando da sua humanidade.

 

lisboa RED

 

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.