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domingo, 11 agosto 2019 06:44

CASTRO DAIRE - COMÉRCIO TRADICIONAL

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CASTRO DAIRE - COMÉRCIO TRADICIONAL

Arreigado ao princípio de que «todo o povo sem memória é um povo sem história» de há uns anos a esta parte que dou por mim a recolher e a preservar livros e jornais antigos, esfarrapados, ratados, manuscritos legíveis e ilegíveis, fotos debotadas, artefactos ferrugentos e manetas que no passado eram escorreitos e sãos, cheios de vida e que vida da comunidade concelhia não dispensava. Atavismo meu que parece não tingir a sensibilidade dos responsáveis pelo nosso Museu Municipal, ao ponto do Prof. Hermano Saraiva dizer o que disse no seu programa televisivo sobre Castro Daire: «pobre, muito pobre»!

 

 

Vem isto a propósito de um candeeiro a petróleo que faz parte da minha colecção ao qual faltava a correspondente chaminé de vidro. «Onde posso comprá-la»? Perguntei aos amigos mais ou menos ligados às «velharias» como eu, ligados àquelas peças carregadas de história, mas que ainda não atingiram o estatuto de «antiguidades». «Vá o Mário dos Cacos, ali junto ao Miradouro, a caminho da Igreja Matriz!»

          

O «Mário dos Cacos» era o senhor Mário Pinto Monteiro, falecido há pouco tempo com 81 anos de idade. Estabelecido no ramo de mercearias e utensílios domésticos, na sua casa comercial, sita na Rua Comendador Oliveira Baptista, existia tudo o que fizesse falta num lar camponês e vilão ? do candeeiro ao pavio, do petróleo ao azeite, do arroz ao café torrado, moído ou em grão. Daí o apelido que lhe atribuíram, «Mário dos Cacos». Ele não se ofendia com isso. Prestável e atencioso para com os clientes, sucedeu-lhe a esposa D. Claudina Augusta de Oliveira Monteiro, de 83 anos feitos neste ano de 2007, a quem me dirigi na esperança de adquirir a peça que me faltava.

Que sim, senhor. Era só esperar um bocadinho. Saiu detrás do balcão e foi ao armazém. De regresso, não trazia uma, mas duas chaminés de diferente modelo para eu escolher. Escolhi, paguei e perguntei-lhe se podia tirar-lhe uma fotografia junto do balcão, pois estava certo que o seu tipo de negócio e todas as lojas semelhantes à sua passassem ao domínio da arqueologia. 

          

Consentiu no meu pedido e como estou a fazer o registo das casas comerciais que, em Castro Daire, neste mundo em acelerada mudança, repleto de super e hiper-mercados, mantiveram as características tradicionais no seu trato com os clientes e que dispõem  de produtos que não se encontram nessas grandes superfícies, aqui deixo, para memória futura, o texto e a imagem.

NOTA: PUBLICADO NO MEU VELHO SITE E MIGRADO HOJE MESMO PARA ESTE

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.