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segunda, 18 fevereiro 2019 15:45

MEMÓRIAS MINHAS - CALORES, CORES E ODORES ÍNDICOS

Escrito por 

RETALHOS DE VIDA

Em 19-03-2013 publiquei no meu velho site o texto que se segue. Por ser um espaço online que deixou de estar no ativo por razões a que sou alheio, ainda que se mantenha aberto como repositório do que lá escrevei, graças à gentileza do servidor, para facilitar a vida aos meus seguidores, aqueles que ainda tem alguma dificuldade em navegar neste espaço sideral, cheio de luz, mas também de buracos negros,  procedi, hoje mesmo, à sua migração para este meu novo espaço. Assim:

I

 

Arte-1-REDZMeados do século XX. Ali, naquela cidade costeira banhada pelo Índico, porto de mar aberto ao mundo, cais a abarrotar de bares sem horário, prontos a receberem os marujos dos barcos atracados de fresco, sempre ansiosos por terra firme e mulheres soltas, gira-discos de braço mecânico a rodar,  a pôr e tirar música pedida a troco de moedas, ali, dizia, por mais reduzido que fosse o espaço, via-se a humanidade inteira, o homem no seu todo, selvagem, culto, agressivo, viajado, sedentário, alto, baixo, meão,  pensativo, bêbado, divertido, nacionalidades várias, machos e fêmeas  de todas as idades, raças, credos e cores. 

Na antiga Grécia, no porto de Pireu,  havia um louco que  se julgava dono de todos os barcos atracados no cais. Naquele porto do Índico,  os embarcadiços, chegados aos bares,  julgavam-se os donos do mundo inteiro e, mal transpusessem as portas vaivém tipo dos saloons do faroeste americano,  havia seguramente brequefesta. Homens do mar, curtidos de sol e de sal, sardentos, armados  em galarozes de capoeira, a fazer jus aos treinos de recrutas recebidos nas escolas e quartéis, «esquerdo, direito, direito esquerdo, à direita volver, rastejar, em frente marche» alguns a exibirem tatuagens de mulheres nuas, a disputa de uma fêmea era geralmente o pretexto para, num repente, vermos ali uma fita da segunda Guerra Mundial. E o «corta!» ou «the end» do cineasta, digamos, o armistício entre as partes envolvidas, só chegava com a intervenção da PM ou das forças policiais, cuja esquadra ficava, ali mesmo, à mão de semear. Um estado prevenido vale por dois.

 

II



Seios-RedzUm dia (quantos?) acompanhado de um colega de estudos, depois de estarmos horas seguidas a estudar a Grécia, de passarmos em revista os estilos dórico, jónico e coríntio, de circundarmos o Partenon boquiabertos frente aquele exemplo de arquitetura, depois de pararmos frente ao Erecteion, a mirar, em pormenor, as Cariátides, depois de aquilatarmos o conceito de beleza helénica refletida em todas as suas obras, arquitetónicas, escultóricas, filosóficas e literárias, tudo feito com peso, conta e medida, modelos que romanos e povos posteriores, ditos civilizados, copiaram, deixámo-nos de filosofar, deixámos os silogismos de Aristóteles, passámos por Diógenes solitário e enroscado no seu barril e seguimos Epicuro, noite alta, em direção à rua do prazer e do pecado, onde porta sim, porta não, havia espaços noturnos e diurnos de diversão, com mulheres a rodos.

Ora, num lugares desses as fêmeas não se faziam rogadas. Mal nos sentámos, ainda não tínhamos aquecido o assento das  cadeiras e já os nossos joelhos recebiam o calor das nádegas de duas Bacantes residentes. A dele,  branca, maquilhada de Sofia Loren, modelo muito imitado pelas jovens devido às fitas de cinema em voga, tinha sido arrancada à tela poucas horas antes. A minha, negra, uma vespa sem modelo nos écrans, não fosse ela de carne e osso, não sentisse eu o calor do seu corpo, numa temperatura de fazer subir qualquer termómetro, diria que me tornei dono de uma estátua moldada em pau-preto, saída das mãos de um escultor maconde ou qualquer outro artista banto, que, na vida,  jamais vira a Vénus de Milo, nem soubera quem foi Praxiteles ou Míron. As linhas e volumes daquela animada escultura negra, sentada no meu colo,  nada tinham a ver com o conceito de beleza hotentote, povo onde a mulher para ser bela e atrativa terá se passar pelo molde «esteotopígio»,  que o mesmo é dizer,  exibir uma bunda natural arrebitada, qual cadeira em vez de cadeira. E também havia dessas belezas no bar. Ali havia de tudo e ali tudo mexia e vivia.

 

III


Arte-3«Então, queridinho, não me dedicas um disquinho?» O gira-discos era um mealheiro, uma fonte de rendimento do proprietário do bar, a par das bebidas consumidas nas mesas e algo mais com colchões e lençóis no primeiro andar.  E lá me saía do bolso a moeda que entrava na ranhura do gira-discos resguardado dentro de uma vitrina. Lentamente como um robô (robô, que era isso, então?) aquele braço mecânico, do feitio de meia-lua, parecido com uma seitora daquelas que eu, na serra, por estas bandas do Montemuro, usava para segar erva ou centeio antes de atravessar o Equador,  aquele braço, dizia, acordava, levantava-se, dirigia-se ao disco pedido, pegava nele, içava-o, dava meia volta e já na posição horizontal descia suavemente até assentar aquela roda de vinil no prato a girar como a mó de um moinho. E  logo se enchia o ambiente de calor e música, pois vinha a dança, e vinha a bebida, o champanhe falsificado, e vinha outra dança, e vinha outra bebida, a coca-cola, e vinha mais dança e mais bebidas gaseificadas e por fim, às páginas tantas, lá vinha também o resto. O ar que lá se respirava era uma neblina  empestada de tabaco, de essências de perfumes baratos (sempre disponíveis no  monhé da esquina), caril, sândalo de mistura com um cheiro a suor e catinga e os vapores sorrateiros dos vulcões intestinais de tanto twist e marrabenta, tudo tolerado somente por pituitárias ébrias de sexo ou insensíveis ao ambiente pela dose exagerada de testosterona. Tais odores, sons, línguas, falas, dialetos e mil sotaques cruzados, impregnavam as paredes, as cortinas, as roupas  e todos os demais tarecos do bar, com fortes sinais de muito uso e de conhecimento alargado do cosmos visível e invisível.

Naquela manhã tinham acostado no cais dois navios hasteando, cada qual,  as bandeiras nacionais: alemã e inglesa. Naquela noite, a horas tantas, as portas giratórias abriram-se de rompante, pum-catrapum! Pronto. A fita ia começar. Depois da bonança a tempestade.  Era tempo de nós abandonarmos a costa.  Chegaram os marujos e nós zarpámos porta fora.

Estávamos  hospedados na casa de uma senhora que recebia hóspedes com mensalidade estipulada: mil escudos com comida, dormida e roupa lavada. Viúva, experimentada da vida, havia muito tempo que deixara a mocidade a calcorrear as terras vermelhas das savanas africanas na companhia do marido,  dedicado à caça grossa, profissão que nunca engrossou os cabedais do casal, pois dinheiro ganhado no mato, nas matas citadinas da jogatina e do putedo se desfazia como manteiga em focinho de cão. Um búfalo, numa caçada azarenta, pô-la viúva. Valeu terem mandado construir aquela  moradia. E como o marido, em vida, fez questão se ser sepultado no pequeno espaço ajardinado que separava a rua da porta da entrada, ali estava a pedra tumular do caçador que foi caçado, bem à vista da viúva hospedeira e dos hóspedes que ela acolhia como meio de sobrevivência.                                                                

 

IV  

 

Arte-4

Na hora do almoço do dia seguinte a cada uma dessas nossas noitadas, como mãe conselheira adotiva que nos sabia longe e desprotegidos das nossas mães naturais, perguntava sempre: «meus filhos, por onde andaram ontem à noite? Cuidado com a sífilis». A sífilis era a doença do tempo e a essa senhora não lhe passava despercebido o aroma do prazer, do pecado e do risco da doença exalado pelas roupas que tínhamos despido à chegada e dado para lavar como sempre fazíamos.   Nunca esqueci o rosto dessa mulher e, lembrando e escrevendo tudo isto à distância de anos, sabendo-a seguramente desfeita em pó, dada a diferença que tínhamos de idade, e ainda porque, com a descolonização, não restará vestígio algum da campa tumular do caçador caçado sepultado no pátio da casa que foi dele, na casa onde vivi, dormi, comi e convivi, estou em crer que o faço mais em memória da sua simpatia, estima e conselhos, do que impelido pelo instinto animal selvagem que permanece em mim, que não perdi até hoje nos degraus do escadório hominídeo,  desde o pátio australopiteco até ao pátio homo sapiens sapiens.

 
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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.