Trilhos Serranos

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quinta, 25 março 2021 12:46

CHARRUA EM FASE DE RESTAURO

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PRIMEIRA FASE

Perteceu a esta casa e nela ficou quando por mim foi comprada e reconstruída. Em fim de vida, fora de uso, pelo trator substituída, em mau estado, o senhor Leonel, seu senhor, sabendo-me professor, no pátio a deixou ficar para museu. Mas eu, deixando-a exposta aos rigores do tempo - chuva, neve e vento, ao sol e ao luar -  todos juntos, vendo-me descuidado, pois outros cuidados tinha, encarregaram-se de pô-la no estado avançado de degradação, para vergonha minha.

1-Carrua-pátio

Passou anos nesta mesa empoleirada. E eu, a subir e descer a escada, olhava para ela, para o cepo, para a aiveca, para o timão e para cada rabiça. E tudo aquilo, chiça!, bulia com o meu sentimento, com esta minha maneira e sensibilidade de ouvir as coisas falar. E não me cansava de perguntar quando arranjava eu um bocadinho de tempo para dar-lhe mais alguns anos de vida e manter essa sua faladura ligada à agricultura. A sua história, a sua glória.

Difícil restauro. Porcas e parafusos calcinados, não havia chave que desse com eles desenroscados. A ferrugem, na seu trabalho severo, fez ninho em tudo o que é ferro e as rabiças e o timão de madeira, prisioneiros assim, não me permitiam a mim, substituí-los. E sem substituição, o seu destino era, seguramente,  apodrecerem, assim, naquela prisão.

2-BCHARRUATriste destino, triste sina. Tanto campo lavrado, tanto pão granjeado, tanto grão semeado, recolhido, malhado, levado ao moinho, feito farinha e pão cozido, tanto eixe”, tanto oixe ditos pelos lavradores às vacas que, naquele seus labores a puxavam nas terras fortes de regadio e entendiam a linguagem que ouviam para andar e para parar e assim, animais e gente, naquela prática,  a entenderem-se prefeitamente sem estudarem gramática.

E agora, má sorte, abandonada, terra de pousio, sem uso e sem préstimo por certa só tinha a morte, destinada ao ferro velho. E um dia, acabaria por ser fundida no forno crematório da metalurgia.

Pois. Mas sem pressas. Não é treta. Cercada de poesia e de poetas, as peças de madeira apodrecidas, ali, sem vida, as rabiças pareciam asas caídas de águia ferida por caçador-caçarreta que dá fogo a tudo o que mexe.

4-CHARUABasta de tanto padecer, disse para comigo. Vais ter vida enquanto eu vida tiver. 

Um disco de cortar ferro, um berbequim em ação e mãos à obra. Os parafusos calcinados foram cortados e novas asas apareceram fixadas com parafusos novos. O mundo se move e a pandemia, COVID-19, obrigando-me ao confinamento, deu-me tempo de sobra e, neste «fechamento», volvido o pensamento para essa peça de museu, ali empoleirada, nestas minhas caseiras e canseiras liças, comecei pelas rabiças, aproveitando os caixilhos de mogno retirados das janelas, ainda novos e duros como ferro. Fazer neles furos foi ver as brocas fumegar e a destemperar.

Este apontamento, esta primeira atenção, chiça!  é o registo ilustrado de como estava cada rabiça. Como estavam e de como estão. A seguir será a vez do timão, pois certo estou de não precisar da geometria euclediana para nele meter mão e restaurá-lo, por devoção à arte e à imagunação humana.

E, professor que sou aposentado, posso garantir que nunca pus de parte qualquer arte, ainda que tenha por certo, ser-me mais fácil carpinteirar, pegar num formão e num martelo,  do que fazer um soneto, cuja estrutura (duas quadras e dois tercetos) tive de aprender e ensinar na HISTÓRIA DA LITERATURA.

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.