Trilhos Serranos

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terça, 02 fevereiro 2021 13:00

BIBLIOTECA

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ARTES E LETRAS

Toda a BIBLIOTECA é um templo. Lugar, supostamente, de silêncio, meditação, leitura, elevação do espírito, dos afetos e do pensamento. E, sendo isso, a sua entrada deve anunciar ao crente (a toda a gente), por legenda ou por imagens, o espaço simbólico que vai pisar e o respeito que lhe merece...se lá entrar.

 PRIMEIRA PARTE

PORTA-1-REDCada estante é um altar, cada prateleira um nicho de relíquias de santos e pecadores, narrativas de pensadores, o drama e a comédia humanas, apresentadas e representadas por criadores, mágicos e prestidigitadores das artes e das letras, atentos ao mundo, aos amores, ódios, contentas, paz e guerra.

Entrar numa biblioteca, abrir os olhos a cada uma da “relíquias” ali guardadas, retirá-las do seu nicho, mirá-las, contemplá-las e interrogá-las horas a fio, num relacionamento empático com os protagonistas, é entrar no mundo dos espíritos, é dialogar com os autores mortos sempre vivos, graças ao misterioso, talentoso e artificioso pensamento humano nelas projectado. Mortos-vivos que, também noutros escritos, são meteoritos que vagueiam livremente no espaço etéreo da Internet (em versões digitais), onde, a qualquer instante, o cibernatura navegante, esbarra com eles em encontros ocasionais ou fruto de gosto e de procura, indagação, navegação.

Ler um livro, em recato, é viajar livremente no tempo e no espaço. É entrar numa cápsula em movimento, numa sonda de descoberta e penetrar em mundos desconhecidos, perdidos algures onde se esconda, na terra, no ar e no mar. É aprender o não sabido. O dito. O inaudito. É ir além dos horizontes geográficos e mentais que nos formatam os caminhos, os pensamento e as acções desde meninos. É conhecer outras terras, outras gentes, cores e religiões. Usos e costumes. Outros odores e sabores. Outros deuses, ídolos e santos. Outros rituais (tantos!), culturas diferentes, jeitos de viver, de sentir, de vestir e de comer.

MAFALDA-1Confinado em casa por força da PANDEMIA COVID-19, hoje não me apetece ler. Creio que estou a ficar afectado por esta “pestilência”. Pois se sempre gostei de ler como se justifica este meu marasmo e falta de apetite para estender o braço, retirar um livro da estante e pôr-me a viajar na canoa, piroga, barca, caravela, nau, galeão, fusta, pangaio, paquete turístico, nave ou sonda de espaço sideral, deleitar-me com o universo, as galáxias, os planetas, as estrelas e asteróides em movimento, frutos da imaginação e do pensamento?

SOFÁ-2Sem apetite para a leitura, recosto-me, primeiramente, no “chaise longue” que integra a mobília do espaço. Depois, estendo as membros inferiores, cabeça voltada para as estantes e lanço, desinteressado, sobre elas uma olhar holístico.

Tábuas na vertical, na horizontal, livros aprumados, livros deitados, jornais, revistas, fotos de família e biblôs vários, aqui ou ali. No receheio obras de HISTÓRIA, ensaios, estudos, romances, arquitetura, pintura, música, poesia, canções, sonetos, elegias, odes, onde, num só verso, o poeta inspirado mete todo o universo.

SEGUNDA PARTE

E nessa posição, diria somente a olhar para os livros que li e/ou consultei, esperançoso de ferrar o dente naqueles que estão na lista de espera e angustiado por saber não ter tempo de vida para ler os restantes, decidido a repousar a vista e o pensamento, fechei os olhos e adormeci.PANORÂMICA-2

Mas o sono deu lugar ao sonho, e o bicho carpinteiro acolitado pelo lenhador que, de podão em punho, persiste em abrir veredas na floresta das letras, apressaram-se a montar tenda e, em menos de nada, substituem as estantes e os livros que eu acordado via por uma enorme tela de cinema onde projetam um filme com banda sonora de elementos naturais, de animais e gente. Sem cronologia nem lógica, a fita corria como água de rio entalado entre montanhas. O vento e seu assobio atravessa as frinchas de portas e janelas. Relâmpagos rasgam o céu e trovões medonhos ribombam em redondo. Águas bravas deslizam encostas abaixo, a derrubarem e arrastarem teres e haveres humanos sem compaixão. Choros e gritos lancinantes de medo e de dor. Adultos e crianças, animais e gente. Pares de namorados a correr e a saltitar, alegremente, de mãos dadas e aos rebolões por montes e prados. Rebanhos e seus pastores a vencerem os frios do inverno. A neve veste a noiva para o altar. Os pegureiros arregalam os olhos nos meses de maio e junho com as flores que revestem serras, outeiros e montes, com diferentes cores, a cada qual a sua sorte, até a púrpura da morte. E no caminho o murmúrio cristalino das fontes.

DAMAUma zoeira constante, semelhante a uma romaria ou feira. A quietude santa da minha biblioteca, virou zoeira de pintar a manta, uma sinfonia de cantos, choros e ais, donde sobressai a vibração das cordas da rabeca que (sem cordas), havia na casa dos meus pais. Passado de meninice e juventude. O gorjeio do passaredo interrompido pelo zurro da “burra” que os malhadores de centeio fazem na eira, para galanteio do mulherio. Tudo flui sem nexo e o realizador do filme, distraído ou de propósito, ilustra a narrativa com sexo, vidas ocultas a cirandar por veredas tortuosas, estultas. Mistura a dor e o prazer, a alegria e o pranto. Um espanto. Intrigas políticas de bastidores, envenenamentos e mortes, narrativas de ficção que, de tão imaginativas, verdades são. Encíclicas papais e tudo o mais de doutrina edificante moral e social.

O passado funde-se com o presente, como o nevoeiro se funde no horizonte na crista dos montes, numa espécie de esconde-esconde. Um caos Uma confusão e, então, lampejo o Paraiso, a Eva e o Adão. Marco Polo na rota sa seda. Muitos rios e montanhas. Cavalos e camelos. Que aventura, que trabalhos, que perigos, que manhas. Europa, Ásia, África E eu, com os amigos, a saltar penedos e a balouçar-me nas pernadas de árvores, como BIBLIOTECA PANONÂMICA-1primatas. Os navegantes a rasgarem os mares e a gritarem acima, acima gajeiro, até ao céu Moisés a conduzir o povo judeu em busca da terra prometida Ele é o deserto Ele é a fome Ele é a fé. Ele é Nazaré. Ele é Belém e Jesus, filho da Mãe Maria e do Espírito Santo. «Jesus, Maria, José» abrem testamentos notariais per omnia saecula saeculorum. Ele é, na zoeira de feira, o pregão da lota de peixe e da regateira. Ele é a confusão da batalha O tilintar das lanças gregas e troianas Dos gládios e lanças romanas Das espadas turdetanas, nas Espanhas. Falcatas lusitanas. Imperadores, legionários e pastores Montes e planícies Castros e cidadelas Ruínas de muralhas  que foram GEOCONDAmoradas de antepassados. Invasões bárbaras. Rebanhos cobrem serras e lameiros. O campo é um humano formigueiro. Lenhadores, agricultores, pastores, artesãos. Lugarejos, aldeias e cidades. Machados Vikings a vencer mares  e a subir rios Os tiros das escopetas americanas Canhões de naus e galeões dos mares Piratas Assaltos e albarroamentos a esmo Naufrágios e náufragos de mãos postas, olhos no céu a pedir perdão dos seus pecados. Tesouros afundados e escondidos em ilhas ignotas Conquistas próximas e remotas O lamento da queda do império berra em cada um dos contentores alinhados ao longo do cais de Santa Apolónia. São os sonhos desfeitos chegados ali de barco para de lá jamais saírem. E lá reclamam e apodrecem sem serem reclamados. Não os ouvem os destinatários. Tribos indias africanas e aborigenes australianas O grito ululante de turbas-multas enfurecidas vencedoras e vencidas O silêncio solitário do eremita Coisa sabida e dita Conquistadores senhorios criados escravos servos da gleba enfiteutas Celeiros públicos e particulares Arrendamentos e foros tirados da terra. Fome, peste e guerra. Salões de valsa folgada baloiçada ao ritmo da música. Senhores e damas. Bailaricos e cantorias de trabalho e romarias. A azáfama dos pescadores. A terra fumega. As searas ondulantes. O cheiro a trigo. Os milheirais e as cruitas dos caneiros a dizerem adeus por força da aragem. Lições de pedagogos a despertar e iluminar mentes e mentores carismáticos, políticos e religiosos, a embrutecê-las, a subjugá-las, a dominá-las, a conduzi-las na caminhada almejada. Milhões de pessoas a deixar-se conduzir cegamente. A seita torna-se igreja, igreja gente, igreja templo, êxodos humanos. Peregrinos tantos, consoante os santos da devoção. Migrações. Romarias, rezas e pancadarias. E berram-se blasfémias, ódios, rancores, traições e solidaridades Safaris na selva. Elefantes, búfalos hienas e o urro do leão.

cantico dos canticos Tantos. Leilões de escravos com pregões iguais às esmolas oferecidas aos santos. Uma mercancia humana e em espécie. Colonos que chamam sua terra alheia. Uns bem sucedidos outros frustrados. Maleitas incuráveis que resistem às mezinhas de bruxas postas nas encruzilhadas dos caminhos e rezas de benzedeiras. O trote de cavalos que são lobisomens. As crenças populares. Luzes suspensas no ar que são almas do outro mundo. Raízes de culturas e modelação de comportamentos. Argamassa de civilizações. Os Incêncios são jobóias de fogo coleantes, de quilómetros, a venceram a savana e a floresta. Monogamia, bigamia, poligamia. Patriarcado. canto IXMatriarcado, consoante. Arcos e flechas. Os louros dos vencedores e as lágrimas dos vencidos. As catedrais de futebol, os deuses adorados e as massas humanas adeptas de joelhos aos seus pés e artelhos. Imperadores e reis nos seus tronos. De tudo são donos, das terras dos vassalos e criados. Tempos passados caldeados por ferreiro irreverente, o cérebro da gente, sempre em acção, supostamente em descanso em leito manso. Uma confusão. Palratório de prisão, visitas e presos separados por redes, um quarteirão, a Maria não ouve o João, o Joaquim não ouve a Mercedes, a Joana não ouve o Manel, uma torre de Babel, todos falam e ninguém se entende, seja ele, seja ela, de um lado a liberdade, do outro a falta dela.

bocageE no meio da zoeira de feira, no meio do turbilhão, ouço o vejo a traça que entre os livros se esconde, “rap...rap...rap...rapa. Nada lhe escapa e tudo leva a eito, a torto e a direito. Sem critério nem respeito mordisca do mesmo jeito o “Cântico dos Cânticos” bíblico, o Canto IX d’ Os Lusíadas”, os “Sonetos Eróticos” de Bocage. Voraz, nada há que a desanime ou desencante. Rata o “Sermão da Montanha” e o “Inferno de Dante”. Nenhuma delas dorme. E nada lhes escapa. Tudo as encanta, desde o Marquês de Sade ao asiático Tantra. Por onde passam  deixam a sua marca conforme a  escrita cuneiforme. Seja nas edições vulgares e de luxo, tudo a eito, moralistas e seus contrários. Traças de seu nome, de longes tempos vêm, tempos que não havia livros. Elas pertencem ao grupos de insetos mais “primitivos” que habitam a terra, e traças que são traçam, destróem, comem e defecam os pensamentos, os afectos e as emoções de autores mortos que, atentos às mazelas e belezas do mundo nas artes e letras se mostraram criativos e se mantiveram vivos. E a ver e a ouvir esses pequenos insetos assassinos...rap....rap...rap...acordei.

EPÍLOGO


FAMÍLIAEsfreguei os olhos e lembrei-me de ter dito que uma biblioteca é, supostamente, um templo e lugar de silêncio. Adormeci, mas em sonho, vi e ouvi o inaudito. O diálogo travado entre os livros, os seus autores, mortos e vivos, os protagonistas que eles criaram, ressuscitaram, faladores, vindos do além, do inferno ou do céu, num escarecéu assim, tal qual descrevi, puseram em mim a dúvida:

«- Será que realmente adormeci ou toda aquela vozeira de romaria e de feira não passou de um delírio danado decorrente do confinamento a que estou votado?»

Não tivesse eu a certeza de que os livros, efectivamente,  falam, que são carrosseis em andamento, que neles tudo se cheira e move, diria, de bom siso, com algum humor e riso, que denuncio sintomas mentais da Covid-19. De contrário, um dia destes, sei lá, já mesmo amanhã, teria de ir  ao consultório do especialista do divã.

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.