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domingo, 01 fevereiro 2015 14:13

CHÓ, ARMADILHA PARA PERDIZES

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O CHÓ, ARMADILHA PARA PERDIZES

Direi que o «chó» (para usar a fala e a grafia de Cujó, concelho de Castro Daire) apesar da sua simplicidade, era um dos artefactos que mais me fascinava, enquanto produto da inteligência humana posta ao serviço na luta pela sobrevivência. Se calhar resultante dos mil trambolhões e alçapões por que a humanidade passou na caminhada da sua longa evolução hominídea.

 


CHÓS-1Para quem nunca viu tal esparrela, mas está farto de ver filmes de cowboys, a melhor imagem que posso transmitir-lhe dela é compará-la às portas vai-e-vem dos salões americanos do faroeste, só que em tamanho miniatural e assentes em posição horizontal de forma a abrirem apenas para baixo, para um buraco, tal qual um alçapão, daí resultando que, feita que fosse a entrada, impossível era a saída. Era o que se podia dizer «queda sem tiro», expressão a contrariar aquela velha e relha muito usada entre caçadores de «tiro e queda», e bem assim, para justificar a analogia, semelhantemente ao tiro mortal do xerife que, entrando de rompante e a pontapé nesses salões de portas giratórias, em menos de um ai saca do revolver e, tiro e queda, manda para o galheiro o pistoleiro procurado. A coisa, apesar de simples, tinha os seus quês, como aliás todos inventos do bicho  homem que não caem do céu aos trambolhões, como os flocos de neve em tempo dela e em zonas frias da Terra. Vamos por alíneas:

a) A parte mais fácil da armadilha era um buraco aberto no chão, aproximadamente com um metro de fundura. Onde e como? Essas eras as primeiras perguntas que o «caçador furtivo» dirigia aos seus botões. Conhecedor dos terrenos que pisava, nado e criado neles a brincar e a guardar gado, ou a roçar matos para estrume ou lenha para a lareira, começava por matutar no assunto. A esparrela tinha de ser posta num local pouco frequentado por terceiros por forma a que só ele pudesse beneficiar do produto do seu engenho e trabalho. O que nem sempre acontecia, pois melhor do que um caçador furtivo, era outro caçador furtivo. Mas nada há na vida sem risco e o serrano, um dia a ser roubado e outro dia a roubar, tomando, embora, todas as precauções e sabedor de que na falperra-mundi cabem pobres como ricos, cada um buscando o objeto dos seus anseios ou necessidades, lá arriscava. Escolhia, de preferência, uma propriedade sua, uma leira de semeadura a beijar matagais, em zona de perdizes. Feita a  opção, começava primeiramente por preparar o terreno em redor, por forma a que todos os carreiros e trilhos existentes por perto confluíssem ali, disfarçados com giestas, fieitos, carquejas e outros arbustos. Tudo a imitar a natureza, pois ele sabe que, até o bichinho mais inofensivo da criação tem os seus instintos de defesa e de sobrevivência.

b) Depois, e durante algum tempo, procedia aos exames preliminares. Ia verificando se os carreiros estavam puídos, se tinha de pôr aqui e mais ali um fieito, mais além uma giesta, tapar o que fosse preciso e conveniente, tudo a afunilar naquele ponto. Parava e procurava no chão aqueles três risquinhos a unirem-se num só ponto como se fossem três pés de cerejas, três risquinhos em leque, tal é a impressão digital que as perdizes, deslocando-se a pé, deixam no cartório notarial da sua residência e vida. Visto isto dia após  dia, uma semana inteira, certificando-se por esses sinais de que era tão certo as perdizes irem ali diariamente esponjar-se ao sol depois de encherem o papo e despejarem os intestinos, semelhantemente a um cristão que religiosamente vai à missa aos domingos para encher-se de versículos bíblicos e despejar ali os seus pecados, testificado isso, dizia eu, tudo estava pronto e só faltava armar o «chó».

c)  Consistia esta armadilha numa espécie de portas giratórias como acima ficou dito e agora, para melhor entendimento, comparo a uma janelaChós-2 com duas folhas, com os caixilhos laterais prolongados, à semelhança de uma padiola de 40 a 50cm de comprimento. As folhas, colocadas no interior dessa moldura, formavam uma autêntico alçapão e cada uma delas tinha por dobradiça um cordão feito de crina de cavalo ou rabo de vaca, material sempre disponível à mão do camponês, lavrador, pastor, tamanqueiro, ferreiro, caçador e o diabo a sete. Esses cordões, torcidos a preceito, tornavam-se uma espécie de mola que fazia retornar as portinholas à situação horizontal inicial, depois da presa ter sido engolida no buraco. Um pequeno batente impedia que elas abrissem para cima.

3  - Armadilha proibida, as suas pequenas dimensões facilitavam o seu transporte e ocultação debaixo de uma capucha ou banda de casaco. E era conveniente não a deixar escondida no monte, pois podia acontecer no dia seguinte estar lá apenas o sítio, na certeza tacitamente aceite, entre os habitantes da aldeia,  de que não haveria apresentação de queixa do roubo na regedoria local ou esquadra de polícia mais próximas.

A hora indicada para colocar o «chó» era à noitinha, ao escurecer, mas com luz bastante para a coisa ficar nos «trinques». O aldeão sabendo, por experiência e convívio, que as perdizes se alimentam à tardinha antes de recolherem aos altos penates onde pernoitavam, para no dia seguinte regressam cedinho ao celeiro do costume, certifica-se ser um dos últimos sobreviventes humanos a andar por ali e procede à montagem. Instalado o equipamento cobre-o com uma ligeira camada de terra a que sobrepõe, para melhor disfarce,  outra camada de folhas de arbustos. Mira, remira, dá uma olhadela em redor, benze-se e deixa o lugar com um «seja o que Deus quiser». Mas Deus, às vezes quer que outro habitante da aldeia seja mais madrugador e, em vez de perdizes, o dono, chegado mais tarde, só lá encontre as penas. Isso aconteceu à pessoa que está a escrever estas linhas, homem nado e criado na serra, aquele que, antes de se meter atrevidamente na arte das letras, se iniciou atrevidamente na arte da caça furtiva.

Os links que se seguem mostram como eu. a partir da experiência vivida em Cujó nos meus tempos de juventude,  recuperei artesanalmente esta peça arqueológica, deixando uma ideia do seu funcionamento, primeiro, e depois, com uns toques de arte, imaginação e criatividade, fiz dele uma peça decorativa da minha biblioteca. É só clicar.

1 -   http://youtu.be/hOmzcHu3gX4 

2 - http://youtu.be/v3mshz8Nvl4?list=UU7F8Z0Zl7dH1As66bZKgmSg 

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.