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segunda, 27 julho 2026 14:02

CAMÕES - AMORAS E AMORES

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CAMÕES, AMORAS E AMORES

 Os meus fiéis seguidores/leitores não ignoram que, antes de eu lavrar no CAMPO DAS LETRAS, antes de manejar, com algum jeito, uma caneta  (antecessora da máquina de escrever, seguida do computador e, ultimamente, do teclado digital do iPad e do telemóvel) manejei habilmente uma aguilhada e um arado. E, nessa tarefa agro-pastoril, arado vai, arado vem, escrevi, em bustrófedon, a parte oculta do meu curriculum vitae académico.

PRIMEIRA PARTE

Deixada que foi a vida agro-pastoril — já contava 18 anos de idade —, logo que os livros estiveram ao meu alcance, meti-me, sem hesitação, a lavrar o CAMPO DAS LETRAS, arroteando, sem suor, mas com muito esforço e custos financeiros, os ubérrimos domínios da HISTÓRIA e da LITERATURA, senhorios que adquiri sem prévia CARTA DE MERCÊ.

E foi nesse meu lavrar, anos seguidos, leiva sobre leiva, honrado de saber que a História de Portugal contava com um rei poeta de cognome «LAVRADOR» - D. Dinis - que chegou até mim Tito Lívio a dizer-me que os senadores romanos, face a perigosas ameaças externas, precisando de um “líder” numa emergência política, correram a convocar Cincinato, que “encontram a lavrar a terra coberto de suor e pó”.

arado radial-Mesio
biblioteca-1Gostei de saber. O exemplo era promissor. Eu acabava de deixar a aguilhada e o arado. Digamos que de limpar o suor do rosto e sacudir o pó da vestimenta. Até um lavrador, em pleno labor, podia deixar em descanso as ferramentas agrícolas e, por razões de saber, de carácter e personalidade, ser chamado a dar um contributo social diferente em prol da cidade, da res publica, do império, da polis, da comunidade, da pátria.

O caso teve fausto posterior semelhante ligado aos Visigodos. Aconteceu aquando da escolha do Rei Vamba. Isto a fazer fé na lenda que rodeia esse protagonista e que eu deixei, por extenso, nos TRILHOS SERRANOS, na crónica publicada em fevereiro de 2018, com o título “O REI VAMBA”.

Nascido e criado no campo, rodeado de poesia declamada por todo o ser vivo que tinha em redor de mim, pelas diferentes cores da natureza nas quatro estações do ano, inebriado ficava eu, pastorinho escolar, com o canto da cotovia e demais gado alado que, voando, rasgava os ares despertando sonhos e ideias. A cotovia subia, subia, subia, mas sem asas alheias.

Tudo poesia. 

Mas eu  poesia não via no frio que rapava pelos montes, roto e descalço, e também no suor que no chão caía para granjeio do pão, sendo o pão tão pouco e trabalhoso, desde a semeadura ao fornada de broas que se consumiam durante a semana. Côdeas mais de rilhar do que mastigar. 

Biblioteca1E na minha saga de recém-chegado ao CAMPO DAS LETRAS, li com atenção e apetite os nossos poetas medievais e quinhentistas. Poesia provençal, trovadoresca, cantigas de amor, de amigo, de escárnio e maldizer. Autos. Muitos Autos! E que admiração a minha com os «sete arrepelões» que o «vaqueiro» recebeu à entrada e, ele de olhos esbugalhados a ver coisas que «ficava parvo a vê-las». Ele «vaqueiro» pasmado na corte com o que via. E eu encantado com o que lia, a escrita bucólica  a cantar o campo, a cantar os amores de “zagais” e de “zagalas” na sua rusticidade humilde e humana. E não fora o desfasamento entre a realidade por mim vivida e as rimas que lia, mais e maior apreço eu teria pela arte de escrever daquela gente culta e urbana, pela pontaria do seu olhar, lunetas a mirarem a gente camponesa de trabalho e obrigação de pagar os impostos lavrados nas escrituras de emprazamento ou arrendamento.

E, no caminho, veio a HISTÓRIA DA LITERATURA completa, alinhada na sua cronologia própria. Obras, autores, estilo, escrita cortesã e escrita campesina.

E veio depois, entre tantos, um escritor, um romancista de monta, tecelão de reconhecido mérito nas ARTES LIBERAIS - para usar a classificação feita pelos nossos humanistas de quinhentos, as demais eram ARTES SERVIS -  que, enfim, de olhos postos no passado, pensava “com’a’mim”.

LITERATURADeixei rasto disso no trabalho publicado nos Trilhos Serranos, em 2014, intitulado “Influência da Cultura Clássica na Cultura Portuguesa”, adotando e subscrevendo a ironia e a verdade que tresandavam do texto que saiu da pena de Camilo Castelo Branco.

Com efeito, referindo-se ele às aldeias do Minho, questionou o que os poetas bucólicos disseram delas. Assim: 

«A mim me tinham dito os poetas umas coisas que eu não acreditei. Sá de Miranda e Bernardes; Lobo e Fernão Álvares, Camões e Braz Garcia... os quatro pontos cardeais tomados de poetas que melodiavam bucólicos louvores da santa vida pastoril, virtudes de zagalas que faziam corar as rosas de puro envergonhadas

Nessa linha de pensamento, nesse mesmo ano — 2014 — glosei, à minha maneira, o poema de Francisco Rodrigues Lobo, “Quando o sol se alevanta”. Dei-lhe as vestes rurais da minha experiência de vida, bem diferente da “visão” desses outros poetas bucólicos, como bem pode ver-se nos versos que aqui deixo:

 (…) 

E decorreram séculos assim 

Sempre a noite atrás do dia 

Tema de perfumada poesia 

Que a suor me cheira a mim.

Fosse eu um poeta inspirado

Só de papel, caneta e tinta

Ignorasse o peso do arado

Do ancinho e da forquilha

Tanta noite e tanto dia

Que da minha lavra sairia

 Obra mais perfumada e distinta.

 

 Mas... antes que o Sol se alevante 

Me fico. Não vou mais adiante. 

(in Trilhos Serranos, Abílio,  06/2014)


SEGUNDA PARTE


CAMÕESMas não é esse o cerne desta crónica. O que me levou hoje a teclar estas letras é o facto de estarem carregadas de amoras as amoreiras que plantei no alegrete que orla o meu pátio de entrada, mesmo em frente à varanda com acesso por dois pares de escadas laterais constituídas por meia dúzias de escaleiras cada, numa das quais assenta um plinto granítico com um busto de Camões em cima. Ali, rodeado de amoras. E tanto bastou para que, dos recôncavos da minha memória, se avivar o eco de uma relação entre “amoras e amores” ligada a este nosso épico coroado de louros.

Onde tinha lido eu, isto? Matutei, matutei e, sem ter de ir procurar nas estantes da biblioteca, recorri “inteligentemente” ao assistente AI META, que ultimamente se tem prestado a escrever comigo crónicas em parceria

Coloquei a questão e, ultrapassadas que foram reciprocamente as dúvidas — seria na obra épica ou na obra lírica, n’Os Lusíadas ou nas Éclogas? — lá veio o encaminhamento certo.

Porém, alertado, em tempos, de que a IA não é orago e que até pode incorrer em “erros”, mandou a prudência que fosse folhear, confirmar e completar, analogicamente, a informação recebida.

Corri, pois, a abrir uma das várias edições de «Os Lusíadas» que repousam nas estantes da minha biblioteca — cuja capa reproduzo na foto ao lado — e transcrevi, por inteiro, a estância 58 do CANTO IX:

lUSÍADAS-1

«Os dons que dá Pomona ali natura  

 Produz, diferentes nos sabores, 

Sem ter necessidade de cultura, 

Que sem ela se dão muito melhores: 

As cerejas, purpúreas na pintura, 

As amoras, que o nome têm de amores(1)  

O pomo que da pátria Pérsia veio(2) 

Melhor tornado no terreno alheio».

 

E o mesmo fiz com a edição de Pedro Gómez Carrizo — cuja capa também reproduzo — extraindo da ÉCLOGA VIIDos Faunos») os versos que se seguem, destacando a negrito aqueles que tanto procurava e coincidem com os deixados no CANTO IX:

 

ÉCLOGAOlhai, Ninfas, as árvores alçadas 

A cuja sombra andais colhendo flores 

Como em seu tempo foram namoradas, 

Que inda agora o tronco sente as dores. 

Vereis também, se fordes lembradas, 

Como a cor das amoras é de amores (1) 

Em sangue dos amantes na verdura 

Testemunha de Tisbe a sepultura. (1)

 

Nota explicativa: Conta Ovídio que as amoras eram inicialmente brancas e que adquiriram a cor negra ao serem salpicadas pelo sangue dos amantes Píramo e Tisbe

(2) Nota explicativa: Região da Pérsia onde se tecia a melhor tapeçaria do mundo.

 

CONCLUSÃO

Tudo isto porque pretendo fazer um vídeo onde a imagem e a palavra possam eternizar, no CAMPO DIGITAL, esta relação substantiva e semântica de AMORAS E AMORES que não escapou ao nosso ÉPICO.  O seu busto, sobreposto naquele plinto granítico, ladeado de amoras, não deixará de ser singular, como singular foi a sua obra poética. E, assim, justificado fica este meu apego de falar nos trabalhos agro-pastoris, de lembrar autores que, em retrato real ou idílico, algum dia volveram o seu olhar para as gentes camponesas, as gentes que, porventura, deixaram de o ser, saindo para os meios urbanos em busca de melhor forma de vida.  E lembrando, justamente, os que ficaram colados ao torrão natal, a quem se deve estar de pé e povoado o que resta deste PORTUGAL que foi.

NOTA DA «AI META»: «Passei a foice, tirei as gralhas, amoitei a pontuação e deixei a sua CRÓNICA pronta para assentar nos TRILHOS SERRANOS com a chancela da AI META».

 
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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.