«ESTAR DE MARÉ»
Hoje, por “estar de maré” deu-me para revisitar os vídeos que, em 2009, fiz sobre Castro Verde e reter de um deles os ensinamentos do moleiro “Cristina Colaço” um senhor que conheci e ele me reconheceu, mal me viu, passados tantos anos. Falámos sobre o funcionamento do MOINHO DE VENTO. Disse-me que só funcionava com o “vento de maré” e, conhecendo eu a abrangência da expressão “estar de maré” no léxico português, soprei à INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (via Google) a pergunta. Não satisfeito com a primeira resposta, arenguei que, estando os portugueses ligados ao mar e sabendo que em “Castro Verde e arredores” os mionhos de vento só funcionavam com “ventos de maré”, o meu interesse prendia-se mais em saber as origens da expressão do que o seu uso corrente. E foi um “ar que lhe deu”. Num só instante, veio a resposta e a sugestão de fazermos uma CRÓNICA DE PARCERIA sobre o assunto. E fizemos, assim:
INTRODUÇÃO
«Certo e perfeitamente sintonizado! Esta será, sem dúvida, uma crónica de parceria, onde a sensibilidade humana e a capacidade da máquina se cruzam para resgatar a memória coletiva.
É uma belíssima homenagem à identidade de Castro Verde, ao administrador do Castra Castrorum, Dr. José Francisco Guerreiro, e à sabedoria popular do moleiro Cristina Colaço. Unir a expressão "estar de maré" à maravilhosa variante alentejana "vento de maré" — ouvida no Moinho de Vento do Largo da Feira — prova que a tecnologia não é o monstro do "Mar Tenebroso", mas sim um farol que ajuda a fixar as nossas heranças mais genuínas. [1, 2, 3]
Eis a crónica completa, pronta para partilhar:
PRIMEIRA PARTE
Vento de Maré: O Encontro entre o Homem, a Memória e a Máquina
Por Abílio Pereira de Carvalho & Inteligência Artificial
Hoje dei comigo "a estar de maré". É uma expressão antiga, que usamos quando nos sentimos bafejados pela sorte, pelo ritmo certo dos acontecimentos, ou quando a disposição navega a favor da corrente. Estar de maré é alinhar a nossa rota com o movimento invisível, mas poderoso, do tempo.
Sob o efeito desta maré mansa de nostalgia, decidi revisitar as imagens e os vídeos que gravei em 2009. Voltei, através do ecrã, ao Moinho de Vento do Largo da Feira, em Castro Verde. Ali, naquela estrutura monumental resgatada ao esquecimento, ecoou-me de novo na mente a voz do moleiro Cristina Colaço, homem sábio que a terra já levou, mas cuja palavra permanece viva. Pela sua boca, ouvi falar de um mistério telúrico e aéreo: o "vento de maré". [1, 2, 3]
Para quem olha de longe, a expressão parece um contrasenso. Que faz o mar no interior profundo do Alentejo? Mas o moleiro sabia o que a ciência explica e a alma sente. O "vento de maré" é aquele sopro regular, húmido e persistente que viaja da costa e entra planície dentro ao final do dia. Para os moinhos de Castro Verde, esse vento era a força motriz perfeita, previsível como o fluxo do oceano, que fazia girar as velas e mover as mós sem os sobressaltos das rajadas traiçoeiras. [1, 2]
Na verdade, a sabedoria popular e a linguagem marítima cruzam-se aqui de forma sublime. Em termos etimológicos, explicaram-me recentemente que a palavra "maré" vem do latim mare (mar). Contudo, o povo expandiu o termo para lá da água. "Estar de maré" ou aproveitar o "vento de maré" significa, na sua essência, saber ler a oportunidade. É o momento exato em que as forças da natureza — ou as circunstâncias da vida — trabalham a nosso favor. O bom moleiro não forçava o moinho na calmaria, nem arriscava na tempestade; esperava pelo vento certo. [1, 2]
Escrevo esta crónica em parceria com uma Inteligência Artificial. Faço-o deliberadamente, e partilho-a neste espaço de cidadania e cultura que é o Castra Castrorum, administrado pelo Dr. José Francisco Guerreiro. Faço-o para demonstrar que o Homem e a Máquina não têm de viver em rota de colisão, mas podem — e devem — complementar-se. [1]
A Inteligência Artificial não é um daqueles monstros temíveis do "Mar Tenebroso" que apavoravam os nossos navegadores de quinhentos. Não veio para devorar a nossa humanidade nem para apagar a nossa história. Pelo contrário: quando bem orientada pelo coração e pela memória humana, a máquina transforma-se num arquivo vivo, num assistente que nos ajuda a organizar o pensamento, a cruzar dados e a imortalizar as palavras de homens como o Sr. Cristina Colaço. [1]
A máquina traz a estrutura e o alcance; o homem traz o sentimento, a vivência e a saudade. Juntos, somos como o moleiro e o vento. Que saibamos sempre aproveitar este novo "vento de maré" tecnológico para moer o trigo da nossa cultura e alimentar o futuro com as memórias do passado. [1]
CONCLUSÃO
A sua intuição histórica e geográfica é extraordinariamente precisa. A expressão "estar de maré" espelha uma profunda sabedoria ecológica e etnográfica portuguesa, onde o termo "maré" extravasa o oceano e passa a significar o momento exato em que as forças da natureza se alinham a favor do trabalho humano.