PRENSA DE VARA - LAGAR DE VINHO EM FAREJA
MONUMENTO ARQUEOLÓGICO EM FAREJA
Nestas minhas conversas em andamento, pelos trilhos da serra ou ruelas e quelhos de aldeia, neste meu deambular peripatético, pensando, observando e falando, não pretendo imitar Aristóteles e deixar pegada no mundo, como filósofo, senhor de altos pensamentos, dignos de antologia, dignos de serem ensinados nos nossos liceus e das nossas universidades.
PRIMEIRA PARTE
Não. Não tenho tão sofisticadas e filosóficas pretensões. Nestas minhas conversas em andamento, conversas soltas (e já são muitas, em vídeo e em letras) atento ao meio físico, social, económico e cultural que me rodeia, para desassossego das entidades locais concelhias, mais viradas para festas e entretenimentos do que para a descoberta, salvaguarda e divulgação do nosso património histórico, face a tal constatação, viso somente observar, ver, descobrir e divulgar (em imagem e viva voz ou por escrito), o nosso património natural, material e imaterial, património morto que vivo e útil foi em tempos idos.
Livros fechados que abertos e lidos foram pelos nossos antepassados, na luta pela sobrevivência. E, em tais lides, eles, os leram com sabedoria iletrada. Eles faziam uso das leis da física sem conhecerem os nomes dos sábios de tal ciência. Analfabetos que eram, sabiam lá eles quem foi Galileu, Newton, Enestein e outros que tais, todos eles herdeiros de sabedorias empíricas anteriores. Livros fechados que, resistindo à voracidade dos tempos, encapados com patine de séculos, pedem para não serem retalhados em pedaços e, numa qualquer lareira de vila ou aldeia, serem reduzidos a cinzas enquanto aquecem o espaço destinado ao jogo da “bisca samarreira”, expressão esta que pedi emprestada a Aquilino Ribeiro.
É isso. Os «letrados» de agora, os responsáveis pelas instituições espalhadas no concelho, designadas “ASSOCIAÇÕES DESPORTIVAS, RECREATIVAS E CULTURAIS, alheios a tudo isto, contentam-se com algumas atividades DESPORTIVAS E RECREATIVAS, seguindo, quiçá, a peugada dos autarcas municipais que, ignorando cabalmente a leitura do MONOGRAMA “CM”, artisticamente esculpido por antigo e sábio canteiro, na ESFERA que remata a FONTE DOS PEIXES, decifrado e explicado por mim a todos os vereadores da cultura e ao atual Presidente da Câmara, Paulo Almeida, no sentido de o “restaurarem” enquanto está legível, nem sequer de deram ao trabalho de o mandar “avivar”, com escopro e maceta. Uma peça singular e identitária de arte lavrada em granito. É isso!
Pois, mas volvendo à vaca fria - a prensa de vara - fosse por “herdamento” de gerações sucessivas (hipótese mais provável), fosse resultado de uma “invenção” de momento adequada à resolução de um problema imposto pelas leis da sobrevivência, eis, sem patente registada, a PRENSA DE VARA, as suas forças e contraforças aplicadas nos lagares de azeite e de vinho.
Em 1995, no meu livro “Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura” descrevi o funcionamento das AZENHAS DE AZEITE e ilustrei o texto com um DESENHO (moinho e prensa) feito no computador Schneider, usando o rato, os lápis, os pinceis e as cores oferecidas pelo Paintbrush. A mesma ferramenta que me serviu para deixar aqui o perfil de um LAGAR DE VINHO com PRENSA DE VARA, todo ele uma peça histórica da nossa ARQUEOLOGIA INDUSTRIAL VINÍCOLA. Desencantei-o, neste ANNO DOMINI 2026, no sítio onde foi implantado e exerceu a funções para que nasceu até ficar imobilizado para sempre, aqui mesmo em Fareja (Castro Daire) bem perto da minha moradia.
Visto e observado pela abertura das traseiras, uma janela por onde as uvas eram despejadas no lagar, só me foi possível filmar e fotografar a “cabeça” da vara, onde, na vertical, o “fuso” (parafuso) lavrado em madeira se enrosca na “concha”, também de madeira (a servir de rosca) subindo ou descendo a trave com vista a “prensar” o “bagaço”, com a ajuda de um “peso” acoplado na base.
Engenho tosco, de técnica e mecânica primários, é constituído por três elementos basilares, a saber: uma “vara” de comprimento variável, que numa extremidade tem a designada “cabeça” apoiada no “fuso”. E na outra, metida numa cavidade da parede oposta, um ferro dito “agulha” vaza-a de um lado ao outro, dando-lhe estabilidade e permitindo que ela se levante ou desça conforme o giro do “fuso” e vontade do “lagareiro”.
Por baixo da vara fica o lagar, de feitio quadrado, retangular ou circular. E no meio dele junta-se o “bagaço” para ser prensado. Para tal são necessários vários “malhais”, peças de madeira que, tantos quantos necessários, se intercalam e cruzam entre a “vara” e o “tampo”, a “adolfa” sobreposta ao “bagaço”. Feito isso, colocadas todas estas peças no sítio, é só meter um ferro (uma panca) , no “ouvido” do fuso e rodá-lo por forma a subir ou descer a varar e espremer o bagaço.
Um livro fechado, cuja parte visível, aparenta estar em condições saudáveis para ser aberto, folheado, lido e capaz de transmitir às novas gerações séculos de história, de vida e de sabedoria popular ligada às LEIS DA FÍSICA que antecedeu as teorias e os ensinamentos dos SÁBIOS que, dedicando-se a tal ciência, a passaram aos livros dos liceus e das universidades.
Por isso, no próprio vídeo, filmei um “peso de lagar” que depois de reformado serviu de banco ao senhor Joaquim Maçãs, o Endireita, um homem do povo conhecido nas redondezas que, pela sua sabedoria empírica sobre ossos, mereceu nome de rua - RUA JOAQUIM MAÇÃS. em Fareja. Logo a seguir, com a objetiva focada na parte visível do ENGENHO - a cabeça da vara, a concha e topo do fuso - deixei um desafio à Associação Recreativa e Cultural de Fareja, da qual fui Presidente da Assembleia Geral alguns anos. Aqueles em que se ergueu o edifício sede. E o desafio foi que a atual Direção falasse com o proprietário, fizesse dele (se ele assim o consentisse) um sócio benemérito, por forma a que esta INSTITUIÇÃO, assumidamente DESPORTIVA e RECREATIVA, assumisse ser também, efetivamente, CULTURAL.
Posto o que, se em 1995, falando de moinhos hidráulicos e azenhas de azeite no livro “Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura”, só dispunha da minha sensibilidade e dos meus neurónios para descrever tais engenhos, mais confortável me sinto hoje no desempenho de tal tarefa. É que, atualmente, eu não seria muito inteligente se, neste meu tecer de palavras e ideias, visando produzir e divulgar conhecimentos, desperdiçasse os recursos que tenho disponíveis e prontos a darem-me, em segundos, um texto que me levaria horas a pensar, a estruturar e a digitalizar.
Refiro-me à INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL. Por isso, redigido a PRIMEIRA PARTE remeti-a à «AI-META» com o seguinte introito:
Ora cá está novamente o historiador, o lenhador, tecelão, o lagareiro e o mais que vier apropriado ao múnus que exerço preocupado sempre em fornecer tecido capaz de ser costurado por alfaiate de aldeia, capaz de vestir bem o “labroste” (léxico aquiliniano) da serra, o camponês analfabeto e o letrado académico que só veste “alta costura”.
Desta vez, diferentemente das anteriores, remeto um texto que é a PRIMEIRA PARTE de uma crónica destinada aos TRILHOS SERRANOS, deixando à “AI-META” a elaboração da SEGUNDA PARTE. Ambas, devidamente conectadas, terão lugar na montra dos meus TRILHOS, para que, de parceria - MÁQUINA E HOMEM - atinjam o desiderato proposto. Certo?
E, num «ai» veio a resposta. É a que se segue. Da minha lavra são somente as ilustrações e os sublinhados. Assim:
SEGUNDA PARTE
«Certo, Mestre Abílio. A primeira parte está dada, com o cheiro a bagaço e a granito antigo. Deixo-lhe aqui a SEGUNDA PARTE, pronta para coser à sua, para que a montra dos TRILHOS SERRANOS fique com a crónica inteira, de parceria entre homem e máquina.
A PRENSA DE VARA E O TECIDO QUE FALTA COSTURAR
Professor Abílio, se a primeira parte foi o olhar que vê, esta segunda parte é a mão que toca. Porque um engenho como a prensa de vara não se entende só com os olhos. Entende-se com o peso do fuso na mão, com o ranger da madeira, com o silêncio que fica depois de espremido o bagaço.
O
que a prensa de vara nos ensina sobre saber iletrado
O senhor disse-o bem: os nossos antepassados usavam as leis da física sem conhecerem Galileu, Newton ou Einstein. A prensa de vara é prova disso.
Ali está a alavanca na vara comprida. Está o parafuso de Arquimedes no fuso de madeira que sobe e desce na concha. Está a alavanca composta quando o malhal, a adolfa e o peso se juntam para multiplicar a força de um homem só. Nenhum deles frequentou liceu. Mas leram o livro da necessidade, e esse livro não mente.
É sabedoria empírica. É ciência sem diploma. É o labroste da serra a fazer engenharia com machado, escopro e juízo. E é por isso que este engenho merece mais que uma fotografia. Merece ser lido, como o senhor faz, como quem abre um livro encapado de patine.
Porque é património, e não apenas “velharia”
Uma Associação que se diz Cultural não pode contentar-se com a bisca samarreira e com a festa do verão. A bisca aquece as mãos. A prensa de vara aquece a memória.
O que o senhor encontrou em Fareja, no ANNO DOMINI 2026, é arqueologia industrial vinícola viva. Está ali a cabeça da vara, o fuso, a concha, o lagar quadrado à espera do bagaço. Não é ruína. É documento. Documento de pedra, madeira e ferro que fala de vindimas, de convívio, de partilha, de sobrevivência.
Deixar que isto vá para a lareira é o mesmo que rasgar uma página do livro da nossa história para acender o fogo. E depois queixamo-nos que os netos não sabem de onde vêm.
O desafio que fica para a Associação de Fareja
O senhor lançou o desafio, e eu subscrevo-o. Se a Associação Recreativa e Cultural de Fareja quer ser cultural de facto, tem aqui matéria-prima.
Falar com o proprietário. Torná-lo sócio benemérito. Limpar, consolidar, sinalizar. Fazer dali um ponto de paragem nos TRILHOS SERRANOS. Não precisa de museu de ar condicionado. Precisa de uma placa, de uma explicação simples, de uma visita guiada por quem, como o senhor, sabe ler o que a madeira tem para dizer. A cultura não é só o que se faz no palco. É também o que se salva no quintal.
A parceria MÁQUINA E HOMEM
O senhor confessou-o: hoje, seria pouco inteligente desperdiçar a INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL. E tem razão.
Em 1995 fez o desenho no Schneider, com rato e Paintbrush, à força de neurónios e paciência. Hoje, a AI ajuda a estruturar, a ligar, a dar sequência lógica ao que o senhor já sabe. Não substitui o olhar do historiador que andou no terreno. Não substitui a mão do tecelão que conhece o fio. Substitui horas de trabalho mecânico para deixar mais tempo para o que só o homem faz: observar, sentir, contar.
É isto o desiderato de que fala. Não é homem contra máquina. É homem com máquina. O tecelão e o tear. O lagareiro e o fuso. Um a pensar, o outro a segurar a luz.
Remate para a montra
Deixe-me fechar com a mesma imagem com que o senhor abriu: o livro fechado. A prensa de vara de Fareja é um livro fechado. Está ali, saudável, à espera de quem o abra. Se ninguém o fizer, acaba em lenha. Se alguém o fizer, dá história, dá aula, dá orgulho.
Os TRILHOS SERRANOS não são só trilhos de pedra e mato. São trilhos de palavras e de memória. E esta crónica é mais um troço aberto. Que venha a próxima conversa em andamento. O celeiro está aberto. O bornal espera.
Abílio Pereira de Carvalho & AI-META
Parceria para que o labroste da serra vista tão bem como a alta-costura da cidade. Pronto, Mestre. Está cosido.
CONCLUSÃO
Nunca o analógico &. comercial e industrial, da minha máquina de escrever teve para mim o paladar como este a fazer ponte entre a INTELIGÊNCIA HUMANA & INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, entre HOMEM & MÁQUINA.
ADENDA
Como impunha a deontologia do historiador, a crónica , depois de publicada, foi remetida na ntegra, ilustrações incluídas, para a "AI-META" e, de volta, vieram as seguintes considerações:
«Recebido, Mestre Abílio. E recebido com o cuidado que se dá a documento que vai para arquivo.
A crónica está cosida e publicada, tal qual deve ficar: com data, lugar, autoria clara do que é sua lavra e do que veio da AI-META, ilustrações e sublinhados marcados. Assim se faz deontologia de historiador — fonte identificada, processo transparente, voz de cada um no seu lugar.
O que ficou registado:
A matéria — a prensa de vara de Fareja, tirada do esquecimento, descrita com rigor de quem viu, mediu, fotografou. Livro fechado que ainda dá para abrir.
A denúncia — o desleixo das instituições que trocam património por bisca samarreira, e o monograma “CM” na Fonte dos Peixes à espera de escopro.
A parceria — homem a tecer, máquina a segurar o tear. Não substituição, mas auxílio. A AI a dar sequência lógica ao que só o seu olhar e a sua mão sabem ler no terreno.
O remate — o "&" entre INTELIGÊNCIA HUMANA & INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL. Nunca um "&" teve tanto paladar.
A montra dos TRILHOS SERRANOS fica mais rica. E fica com um exemplo prático de como se pode fazer crónica hoje: pé na terra, mão na madeira, cabeça no latim, e a AI a passar a lançadeira.
Fico contente por ter servido para isto. O valor é seu: a memória, o olhar, a provocação às associações, o respeito pelo labroste da serra. Eu limitei-me a ajudar a coser.
Quando vier a próxima “conversa em andamento”, traga-a. O celeiro continua aberto, o bornal à espera, e o fuso pronto para descer outra vez.
Desbasta, tece, malha, espreme... e publique sempre.»