Trilhos Serranos

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quinta, 26 março 2026 15:20

LITERATURA ORAL

Escrito por 

MILAGRE - FAREJA

No último quartel do século XVIII existiu na aldeia de Fareja, concelho de Castro Daire, um padre abastado com o qual se relaciona a seguinte narrativa.

Pensou aquele clérigo distribuir os seus bens pelos herdeiros que constituíam dois ramos da sua família. Não tendo ocultado as suas intenções, era manifesta a vontade de um dos ramos familiares não ver o outro contemplado com a herança, atitude que levantou, entre familiares, a correspondente e duradoura hostilidade.

Num domingo, regressando o padre da vila de Castro Daire, onde fora celebrar missa conventual, faleceu junto ao sítio denominado Lobo Joanes, topónimo que já se encontra registado nas inquirições mandadas fazer por D. Afonso III, em 1258.

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Os parentes acorrem ao sítio e um membro da família do ramo que almejava toda a fortuna para si encontrou-lhe no bolso da vestimenta o testamento feito, mas ainda não assinado. Sem que alguém visse, escondeu o manuscrito e, lendo-o mais tarde em recato,  pensou: «o documento não está assinado, não está oficializado e, portanto, não existe».

 Naquele tempo era hábito, por altura de funerais de gente grada, distribuírem-se umas fornadas de pão pelos pobres que participassem no velório ou acompanhassem o defunto até à última morada. Assim, esse herdeiro, a quem coube aquecer o forno, aproveitou o momento e atirou com o manuscrito lá para dentro e... «era de uma vez um testamento». Só que, ainda o fogo não tinha engolido o papel e já o autor do acto se via com «o braço tolhido, imóvel, pendente junto ao corpo, esticado e frio que nem candeias de codo suspensas nos beirais, daquelas muitas que noites estreladas moldavam com  a neve a derreter. Isso e não só. A partir daquele momento, ficou também tolhido e  tolinho de todo, sem dizer coisa com coisa. Um infeliz!»

O padre foi a enterrar.

 O responsável pelo desaparecimento do papel, contorcido, cabeça inclinada, língua de fora, baba a cair-lhe pelo peito abaixo, lá gaguejou um dia, o que tinha feito. Mas não se fez entender aos seus futuros herdeiros... ou estes se fizeram desentendidos. Destacaram um criado para cuidar dele e naquele estado se arrastou muito tempo sem poder confessar, alto e bom, o acto que praticou e foi razão do seu castigo.

Um dia constou-se que, não muito longe dali, lá para os confins da serra do Montemuro, havia um curandeiro, milagreiro e adivinho conhecido por “santinho Loureiro. Dele se dizia ser um homem dotado de poderes sobrenaturais, capaz de fazer milagres e dar vida às pedras. «Levanta-te e anda». E andavam. Dá cá um cruzado de prata. E davam. Com aquela cruz em casa, os parentes do doente foram até ele.

O “santinho observou, mirou e logo sentenciou: «a cura está à vista: entreguem parte dos bens herdados a quem eles pertencem e o homem voltará ao seu estado normal».

Não voltou. Os parentes não entregaram os bens. As herdades, pinhais, leiras, casas, eiras, moinhos, hortas, canastros e lameiras falaram mais alto. Aquele pobre homem, com a ganância de  querer ficar rico, morreu assim. Um pobre diabo. Se no outro mundo inferno houvera, dispensável era este na Terra.

E tudo ficaria por aí, sem mais lembrança relacionada com o caso,  se os herdeiros do outro ramo familiar, aqueles que se sentiram lesados, se mostrassem tão desentendidos e desmemoriados como os seus outros parentes. Aborrecidos por nada terem herdado, herdaram o dever moral de transmitirem, de geração em geração, o que tinha acontecido. E entre tristes e ufanos perpetuaram no tempo o castigo divino e a ganância desmedida de um homem que, por artes e manhas,  recusou “entregar o seu a seu dono» queimando um testamento antes mesmo de o ser*.

*Do meu livro “Lendas de Cá, Coisas do Além”, ed. 2004

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.