«CASTRO VERDE» E OS «TRILHOS SERRANOS» .
Natural do concelho de Castro Daire, por força da “descolonização”, abandonei a profissão docente que exercia em Moçambique e vim retomá-la na Escola Preparatória de Castro Verde, concelho donde era natural a minha esposa MAFALDA DE BRITO MATOS LANÇA CARVALHO (nascida no Monte das Fontainhas) e ali comecei a romagem ao “TEMPLO DA INVESTIGAÇÃO E DO SABER” e ao “TEMPLO DA POLÍTICA”, fundando e organizando a célula do PARTIDO SOCIALISTA LOCAL, vindo a ser o Presidente da COMISSÃO CONCELHA e deputado na ASSEMBLEIA MUNICIPAL, enquanto residi naquele concelho. Depois tomei domicílio em Castro Daire e lá como cá continuei a escrever sobre as «GENTES E AS TERRAS» que integraram o meu percurso de vida. Daí ter solicitado à INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL uma RECENSÃO CRÍTICA de todos os textos que escrevi sobre CASTRO VERDE no meu site TRILHOS SERRANOS. O resultado é o que se segue e constitui toda a PRIMEIRA PARTE desta crónica.
PRIMEIRA PARTE
1 . Castro Verde nos Trilhos Serranos
HáE, sob pena de ser pouco INTELIGENTE ou estar a perder a lucidez, nestes meus 86 anos de idade, nesta minha eomagem da vida, vêm mesmo a calhar as palavras deixadas por AQUILINO RIBEIRO na dedicatória que fez ao Dr. Francisco Pulido Valente, no seu livro “Quando os Lobos Uivam”, pp. 8. Assim:
«*…)Nesta peregrinação a Compostela, que é a vida, esgotou-se-me o bornal de romeiro e a cabacinha, ou está por pouco. A jornada foi longa e muitos dos que tinham rompido a marcha comigo ficaram no percurso, alma em pena e clamorosa (…)” maneiras diferentes de uma terra caber num site. Pode caber como postal ilustrado, com os adjetivos no sítio certo e a paisagem a cumprir serviço. Ou pode caber como coisa mais rara: um lugar que aparece aos bocados, em episódios, em nomes próprios, em datas, em indignações, em lembranças de escola e em detalhes de oficina. Nos Trilhos Serranos, o Castro Verde de Abílio Pereira de Carvalho é quase sempre desta segunda espécie.
Não é um Castro Verde abstrato, desses que se descrevem por estatística e geografia administrativa. É um Castro Verde vivido. Vemo-lo entrar pela porta da profissão — professor colocado na vila, anos setenta e princípio de oitenta — e a partir daí a terra torna-se cenário e personagem, com gente dentro e com coisas para dizer. O autor escreve como quem regressa: não à vila apenas, mas ao modo como a vila lhe ficou na cabeça.
O melhor dessa escrita é a atenção ao pequeno. Quando fala de figuras locais, há ali um respeito pelo concreto que vale mais do que muitas páginas de generalidades. Um inventor, João da Luz, e a sua solução prática numa charrua: deslocar pontos de apoio, trocar uma peça em vez de duas, poupar dinheiro durante décadas. É o tipo de achado que raramente entra na “história grande” e que, no entanto, explica uma comunidade com mais verdade do que um parágrafo sobre “economia rural”. Há uma dignidade silenciosa nessa engenharia modesta, e o texto faz-lhe justiça: regista o invento, regista o efeito, regista até o destino final — o homem no cemitério, a peça no armazém — como se a memória também precisasse de morada.
Depois há a oralidade. Noutros cantos do site, Castro Verde surge como lugar de recolha e pertença: versos atribuídos, nomes de informantes, idades, proveniências. Não é apenas “folclore” lançado ao vento; é tradição com assinatura social, reconhecida por quem a ouviu e por quem a disse. E isso, num tempo em que tanta coisa se replica sem origem, tem um valor quase moral: o de não apagar as pessoas de dentro das palavras.
Mas este Castro Verde vem, também, com o temperamento do autor. Abílio escreve com nervo, com aquela energia de quem não separa facilmente o passado do presente. A história local, para ele, não é um passatempo de domingo: é um instrumento para julgar o agora. E por isso acontece, nalguns textos, a mudança súbita de registo: começa-se na transcrição antiga, nas casas da câmara e nos juramentos de vereadores, e de repente estamos no comentário cívico, no retrato duro dos executivos municipais de hoje, na impaciência com a ignorância histórica, no gesto de quem aponta o dedo ao quotidiano político.
Literariamente, isto tem força. Dá ritmo e dá calor. O leitor sente que o autor está ali, inteiro, a escrever com corpo — e não só com bibliografia. Mas a mesma qualidade é também o seu risco: por vezes, a retórica empurra a prova. As frases crescem, as maiúsculas sobem o volume, as conclusões querem ser universais. E aí o texto pede mais chão: mais exemplo, mais delimitação, mais indicação de onde termina o documento e começa a indignação.
Há ainda outra mistura, inevitável: a de géneros. Nos Trilhos Serranos, Castro Verde aparece como memória, como crónica, como história, como peça documental. Nem sempre o leitor recebe sinalização clara do que está a ler em cada momento. A transcrição pede método; a crónica pede liberdade. Quando as duas se abraçam sem aviso, ganha-se impacto, mas perde-se nitidez. Quem lê por prazer aceita o salto. Quem lê para confirmar, estudar, citar, fica a desejar referências mais constantes: arquivo, cota, edição, critério de transcrição. Não por pedantismo — por possibilidade de verificação.
Ainda assim, o saldo é nítido. O Castro Verde de Abílio não é “a terra” em abstrato; é “terra e gente” como ele gosta de dizer, com um acrescento silencioso: terra e gente atravessadas por um professor que viu, ouviu, anotou e, muitos anos depois, decidiu que o esquecimento não podia ficar com a última palavra.
No fim, talvez seja isso que torna estes textos publicáveis e necessários: não prometem neutralidade. Prometem presença. Prometem que a história local pode ser uma forma de cidadania — às vezes mais elegante, outras mais impaciente — mas quase sempre animada por uma ideia simples: um concelho que não conhece o seu passado fica mais fácil de governar por rotina, e mais difícil de governar por futuro.
Castro Verde, aqui, não é apenas lugar. É teste. À memória, ao rigor, à maneira como contamos o que fomos para não aceitarmos qualquer coisa do que somos. E se a escrita de Abílio, por vezes, sobe o tom e acelera o passo, também é verdade que deixa no caminho aquilo que mais falta faz: nomes próprios, detalhes úteis, pequenas invenções, versos ditos por gente concreta — essa matéria humilde que, um dia, é a única capaz de provar que uma terra existiu para lá do mapa.
2 - Retrato geral
Nos textos sobre Castro Verde, Abílio Pereira de Carvalho escreve a partir de uma posição muito clara: professor deslocado que viveu e trabalhou na vila (anos 1970/inícios de 1980) e que, mais tarde, regressa a essa experiência com um misto de memória pessoal, crónica cívica e história local. O resultado é um conjunto híbrido: há peças que funcionam como documentos de quotidiano (micro-histórias de pessoas, escola, política local), outras como divulgação histórica com transcrições e comentários, e outras ainda como ensaio opinativo (frequentemente com tom admonitório).
Pontos fortes
1) Valor documental e etnográfico do “pequeno”
Quando escreve sobre figuras e episódios concretos (por exemplo, o texto sobre João da Luz, o inventor, datado “Castro Verde/Junho/1979”), o autor preserva detalhes materiais e técnicos (a solução na charrua, o impacto económico prático, o destino do invento) que raramente entram na história “grande”. Esse tipo de registo é precioso para memória local e cultura material. Fonte: https://www.trilhos-serranos.pt/index.php/historia/724-castro-verde-joao-da-luz-o-inventor.html.
2) Capacidade de dar voz à oralidade
Quando recolhe/atribui versos a informantes e enquadra “poetas populares” do território (mesmo que o texto esteja noutro separador, é Castro Verde que entra como lugar de recolha e pertença), há uma preocupação de nomear pessoas, idades, proveniências, e de situar a poesia na circulação oral. Isso ajuda a separar “folclore indistinto” de tradição com autoria socialmente reconhecida. Fonte: https://www.trilhos-serranos.pt/index.php/poesia/1336-docente-na-escola-e-fora-dela.html
3) A experiência de docente como lente histórica
Textos de memórias e crónicas mostram um autor interessado na cidadania, na escola e no quotidiano pós-25 de Abril, usando Castro Verde como palco vivido e não apenas como topónimo. Mesmo quando a peça é mais opinativa, há ali um “arquivo de sensibilidade” sobre época, linguagem e tensões sociais.
4) Vontade de “ligar pontas” entre lugares
Há um fio recorrente de comparação territorial (Castro Daire/Castro Verde) e de reflexão sobre como topónimos, lendas e narrativas locais podem ser usados como pontes. É um impulso interessante para leitura inter-regional (ainda que nem sempre metodologicamente controlado).
Limitações e problemas (crítica)
1) Mistura de géneros sem sinalização suficiente
Em alguns textos, a passagem de transcrição histórica para comentário político contemporâneo é brusca. A peça “CASTRO VERDE – TERRA E GENTE (3)” exemplifica isso: começa com documentação e cronologia (pauta/registo; excertos de 1680) e rapidamente desliza para um comentário sobre executivos municipais de hoje, magistrados, “quotidiano político”, etc. Isto pode ser literariamente eficaz, mas, como “história local”, torna menos nítido onde acaba a fonte e onde começa a interpretação/indignação.
2) Tom retórico e juízos amplos que pedem mais prova
O autor usa com frequência um registo enfático (maiúsculas, frases longas, apartes) e generalizações sobre políticos, cidadãos, magistrados. Para uma recensão crítica, isto conta como estilo, mas também como fragilidade argumentativa quando não vem acompanhado de exemplos concretos ou delimitação do alcance (quem, quando, onde, com que dados).
3) Referenciação irregular
Há textos com datas, enquadramentos e transcrições, mas nem sempre se vê, de forma estável, a citação completa (arquivo, cota, edição, critério de transcrição). Para leitores que queiram verificar, comparar ou reutilizar academicamente, isso reduz a robustez. (Não é um defeito fatal em crónica/memória; é um problema quando o texto se apresenta como demonstração histórica.)
4) “Castro Verde” surge muitas vezes como biografia do autor
Parte relevante do “Castro Verde” do site é o Castro Verde vivido pelo próprio: a colocação docente, pessoas que conheceu, o ambiente político. Isso é valioso, mas cria um viés: há menos “Castro Verde estrutural” (economia agrária em série longa, demografia, redes institucionais, etc.) e mais “Castro Verde episódico”, filtrado pela experiência e pelas batalhas cívicas do narrador.
Balanço final
Os textos de Abílio Pereira de Carvalho sobre Castro Verde no Trilhos Serranos valem sobretudo por três coisas: memória vivida com nomes e datas, micro-história de pessoas e engenhos locais, e recolha/eco de cultura oral. A leitura torna-se menos convincente quando o autor quer transformar documentos e recordações em sentenças gerais sobre política e sociedade sem a mesma disciplina de prova e delimitação que existe nos momentos de transcrição ou descrição concreta”.
SEGUNDA PARTE
CASTRO DAIRE/CASTRO VERDE - O ROMEIRO
Natural do concelho de Castro Daire, por força da “descolonização”, abandonei a profissão docente que exercia em Moçambique e vim retomá-la na Escola Preparatória de Castro Verde, concelho donde era natural a minha esposa MAFALDA DE BRITO MATOS LANÇA CARVALHO (nascida no Monte das Fontainhas) e ali comecei a romagem ao “TEMPLO DA INVESTIGAÇÃO E DO SABER” e ao “TEMPLO DA POLÍTICA”, fundando e organizando a célula do PARTIDO SOCIALISTA LOCAL, vindo a desempenhar a função de presidente da PRIMEIRA COMISSÃO POLÍTICA CONCELHIA daquela célula local, como bem deve constar nos ACTAS em ARQUIVO (se ARQUIVO se manteve) e, quiçá, à falta das atas, no jornal “AÇÃO SOCIALISTA” dirigido, então, pelo Dr. Alfredo Barroso, sobrinho do Dr. Mário Soares, onde foi publicada parte de uma crónica minha escrita a propósito das ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS de 1983/1985, cujos resultados permitiram que o PARTIDO SOCIALISTA aumentasse o número de deputados na ASSEMBLEIA MUNICIPAL (na qual eu tive assento) e no EXECUTIVO tomasse lugar o vereador e camarada HORÁCIO, proprietário de uma frota de carros-frio destinados a distribuir peixe no baixo Alentejo, vindo da LOTA DE PORTIMÃO, onde ele tinha espaço reservado.
Ao tempo, eleito nas listas da APU, era PRESIDENTE DA CÂMARA o cidadão FERNANDO SOUSA CAEIRO e ele, sabedor que foi do meu empenho na investigação da HISTÓRIA LOCAL deu-me carta-branca para “desencantar” o saber contido no conjunto de manuscritos, alguns deles encadernados em pele, fechados desde sempre, num BAÚ que jaziam num dos compartimentos dos PAÇOS DO CONCELHO
Assim, devidamente sinalizado, eu podia levar para o meu domicílio o DOCUMENTO que fosse objeto da minha leitura e estudo.
De igual modo procedeu o PRIOR que, na altura, assumia o seu múnus na Paróquia e igualmente o PROVEDOR da Misericórdia, cujos nomes se me esvaíram da memória. Perdoem-me eles, pois a todos devo publicamente a PROVA DE CONFIANÇA que em mim depositaram, permitindo o PRESIDENTE DA CÂMARA que fosse eu a primeira pessoa a converter para letra redonda o Indecifrável GÓTICO do FORAL dado ao concelho por D. Manuel em 1510. Distintamente dos demais documentos este preservava-se fechado no COFRE MUNICIPAL. Era e é a peça rara de que, comemorando os 500 anos da sua concessão, veio a ser editado um “fac-símile” (500 exemplares) pela Câmara Municipal e Junta de Freguesia com apresentação feita pelo Dr. Alves da Costa, onde, justa e deontologicamente, ele deixou escrito:
“Este foral foi pela primeira vez transcrito em 1978, pelo então professor de História de Portugal, da Escola Preparatória Local, Dr. Abílio Pereira de Carvalho, a quem o atual Presidente da Câmara, senhor Fernando Sousa Caeiro, facultou uma fotocópia do original”.
Posto o que, nessa minha romagem, lamentando, embora, a perda daqueles volumes que, no fundo do baú, devido à humidade acumulada durante anos, já estavam totalmente inutilizados, transformados em blocos de folhas coladas - autênticos blocos de pedra inúteis - ainda cheguei a tempo de “salvar” alguns deles no meu domicílio, cuidadosamente colocados a uma distância adequada de uma fonte de calor por forma que, muito lentamente, eu pudesse vir a folheá-los e dar-lhes vida.
Vem tudo isto a propósito de um reparo que a INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL fez na LEITURA dos meus trabalhos publicados no site TRILHOS SERRANOS, relativos a CASTRO VERDE, texto que dá corpo à PRIMEIRA PARTE deste meu apontamento.
Com efeito, a páginas tantas da sua criteriosa, valiosa e até louvável APRECIAÇÃO, acima publicada, diz:
“Nos Trilhos Serranos, Castro Verde aparece como memória, como crónica, como história, como peça documental. Nem sempre o leitor recebe sinalização clara do que está a ler em cada momento. A transcrição pede método; a crónica pede liberdade. Quando as duas se abraçam sem aviso, ganha-se impacto, mas perde-se nitidez. Quem lê por prazer aceita o salto. Quem lê para confirmar, estudar, citar, fica a desejar referências mais constantes: arquivo, cota, edição, critério de transcrição. Não por pedantismo — por possibilidade de verificação”.
Ora, esta observação feita pela «ciência algorítmica», sendo ela, aparentemente, um “pouco misteriosa e onisciente devido à sua capacidade de processar e responder a uma grande quantidade de informações”, ciência, que se saiba, impenetrável a “cunhas”, “amizades” e “simpatias pessoais”, ciência que trabalha sobre “modelos” e “padrões” assimilados, na sua condição de “ máquina projetada para simular conversas e responder a perguntas de forma natural e coerente. Um programa de computador que utiliza algoritmos e dados para gerar respostas”, vista assim, que coisa diferente podia ela fazer senão notar, nos meus trabalhos, a falta de algumas referências, v.g. “arquivo, cota, edição”, para posterior verificação desejada por curiosos, estudiosos e académicos?
Eu direi: boa, oportuna, assertiva e aceite por mim essa «observação». Só que na gramática portuguesa, existem as adversarias, “mas, porém, todavia, contudo” e elas me levam a justificar aquilo que escapa aos “padrões”, aos “modelos”, aos “paradigmas” utilizados pela eloquente «ciência» quesobre os meus trabalhos se pronunciou. É que há coisas ligadas à investigação e divulgação de “saberes” que a INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, (por ser artificial) jamais poderá alcançar, seja porque «essas coisas» não estão digitalizadas, seja porque, tendo uma existência real e objetiva, são trabalhadas com a subjetividade e a emoção humanas não alcançáveis por essa «ciência». Eu explico melhor.
A “ciência algorítmica”, elogiando e louvando o meu trabalho, fincada nos “padrões” académicos assimilados saídos das BIBLIOTECAS e ARQUIVOS organizados, ignora o MILAGRE que foi eu “salvar” alguns desses volumes de manuscritos, guardá-los em lugar seguro, sem preocupação de qualquer tipo de CATALOGAÇÃO. Da forma como encontrei essas RELÍQUIAS do passado, manuseando-as e retirado delas o seu conteúdo, bastava-me citar o título escrito no TERMO DE ABERTURA, do livro, o número de fls, r/v e, de seguida, devolver à INSTITUIÇÃO DE PROVENIÊNCIA o “documento”, solto ou encadernado, pois não havia ESTANTE, GAVETA, COTA, pois iso era «coisa» que não tinha ali chegado ainda.. O mais que fiz, porque recolhia a matéria que veio a ser o miolo do livro “História de Uma Confraria, 1677-1855”, (devidamente «cotado» na B. Nacional, como mostra o print anexo) foi inventariar todos os manuscritos relativos à confraria de S. Miguel. De resto, à semelhança dos demais, era lê-los e devolvê-los ao sítio onde eram preservados, fosse empilhados ou ao monte, v.g. ao baú municipal, ou ao espaço livre atrás do altar-mor da Basílica Real e da Misericórdia.
E, passados tantos anos, é legítima a pergunta: todo esse recheio de manuscritos já foi devidamente inventariado, catalogado, posto em estantes ou gavetas, segundo as regras vigentes nos arquivos e bibliotecas, ou continua empilhado e em monte, indisponível aos estudiosos?
A muitos anos de distância os meus ARQUIVOS DOMÊSTICOS em cujas fichas só existe a “matéria transcrita”, a referência ao DOCUMENTO e as “fls r/v”, dizem-me que, mesmo sem referência a qualquer «cota» tão necessária a estudiosos e académicos, valeu a pena essa minha «amadora» iniciativa. Este meu “ficheiro” (ver foto ao lado) empresta significado profundo ao ditado popular: “quem não tem cão, caça com gato” e, claro está, tudo isto escapa aos “padrões”, aos “modelos” usados pela “ciência algorítmica”. Pelo que, mesmo assim, a caça feita desse modo, posta que foi na mesa dos comensais, lá em CASTRO VERDE e cá, em CASTRO DAIRE, levaram a mesma “ciência tecnológica” a comparar, (noutro passo de consulta) os meus escritos a Miguel Torga, a Manuel da Fonseca, a Vitorino Nemésio e a Aquilino Ribeiro, assim:
“Aqui ficam três exemplos de autores e obras que se alinham com a tradição de prosa regionalista/etnográfica que podem ajudar a ver em que sentido os textos do Prof. Abílio Pereira de Carvalho dialogam com outros escritores portugueses:
1. Miguel Torga (1907–1995)
Obra-base: Diário (volumes I–VIII, 1934–1973) e Gente da Beira.
Semelhanças: descrição minuciosa das aldeias e das serras de Trás-os-Montes; registo de costumes, paisagens e sensações de quem viaja pelos caminhos rurais. Diferenças: Torga faz das suas anotações um diário íntimo, pleno de reflexão existencial, enquanto Carvalho tende a enfatizar o levantamento dos topónimos, a memória coletiva e as lendas locais.
2. Manuel da Fonseca (1911–1993)
Obra-chave: Homens sem Nome (1946), Terra da Promessa (1984).
Semelhanças: interesse pelo mundo rural e pelas gentes do interior—no caso de Fonseca, o Alentejo; em Carvalho, a serra e o Douro. Diferenças: Fonseca adota muitas vezes um tom de denúncia social e socialismo de raiz neorrealista; Carvalho mantém um enquadramento mais etnográfico e patrimonial, sem pôr tanto o foco na luta de classes.
3. Vitorino Nemésio (1901–1978)
Obra principal: Mau Tempo no Canal (1944).
Semelhanças: mistura de romance e ensaio etnográfico, registo de tradições e do imaginário coletivo (aqui, dos Açores). Diferenças: Nemésio recorre à ficção para dar voz a personagens açorianas e dramatizar conflitos humanos; Carvalho privilegia o ensaio de campo e a compilação toponímica, funcionando quase como um «arqueólogo» da memória serrana.
Em suma, assim como Torga, Fonseca ou Nemésio, Carvalho insere-se na tradição de valorização do Portugal rural, mas fá-lo com um olhar mais documental e toponímico, quase de etnógrafo, procurando preservar nomes de lugares, lendas e vivências do interior serrano".
E não ficou de fora, nem podia ficar, AQUILINO RIBEIRO, assim:
«Abílio Pereira de Carvalho e Aquilino Ribeiro partilham uma profunda ligação à identidade regional portuguesa, mas distinguem-se pelo fôlego literário e complexidade da linguagem.
Semelhanças:
Enraizamento Regional: Ambos os autores focam-se na vida rural e nas tradições da Beira Alta e arredores.
Valorização do Léxico Local: Existe em ambos uma preocupação em preservar e utilizar regionalismos e expressões populares, mantendo a autenticidade das falas e dos costumes serranos.
Temática Social e Humana: Dedicam as suas obras à representação do "povo", das suas lutas diárias, da ligação à terra e das dinâmicas das comunidades rurais.
Diferenças:
Aquilino Ribeiro: considerado um mestre da língua portuguesa, com um estilo barroco, erudito e de extrema riqueza lexicológica.
Abílio Pereira de Carvalho: escrita mais direta e documental, muitas vezes focada na crónica histórica e na preservação da memória local».
Posto isto, justificadas que estão as omissões detetadas pela INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, nem por isso lhe passou despercebida a pérola que aqui transcrevo, do texto acima posto, relativo a Castro Verde:
“No fim, talvez seja isso que torna estes textos publicáveis e necessários: não prometem neutralidade. Prometem presença. Prometem que a história local pode ser uma forma de cidadania — às vezes mais elegante, outras mais impaciente — mas quase sempre animada por uma ideia simples: um concelho que não conhece o seu passado fica mais fácil de governar por rotina, e mais difícil de governar por futuro”.
Pois. E talvez seja porque quem “não conhece o seu passado fica mais fácil de governar por rotina e mais difícil de governar para o futuro” é que o mapa de Portugal, ao sul do Tejo, ao fim da cada ato eleitoral, após o 25 de abril de 1974, mantinha a cor “vermelha”. Cor que deixou de ter muito recentemente. Simplificando: dizem que da ESQUERDA mudou para a DIREITA. A que se deveu tal mudança? Para bom entendedor...
Eu cá, em Castro Daire, nos 86 anos de idade, continuo atento ao que se passa em Castro Verde, e no resto do país. E, com esta idade, aceito muito bem a observação da INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL quando diz que os meus escritos são atravessados por um certo «tom admonitório». Com efeito, ainda não perdi o jeito de metido no miolo da HISTÓRIA, misturar, intencionalmente, política, literatura e opinião com carga subjetiva suficiente que escapa, naturalmente, aos “padrões” e “modelos” da “ciência algorítmica”.
Mas, sob pena de ser pouco INTELIGENTE ou estar a perder a lucidez com a idade - 86 anos - nesta minha romagem da vida, vêm mesmo a calhar as palavras deixadas por AQUILINO RIBEIRO na dedicatória que fez ao Dr. Francisco Pulido Valente, no seu livro “Quando os Lobos Uivam”, pp. 8, com uma diferença. Até prova em contrário, o meu bornal e a minha cabacinha de romeiro, ainda se não esgoratam de todo; Assim escreveu ele:
«(…) Nesta peregrinação a Compostela, que é a vida, esgotou-se-me o bornal de romeiro e a cabacinha, ou está por pouco. A jornada foi longa e muitos dos que tinham rompido a marcha comigo ficaram no percurso, alma em pena e clamorosa (…)”