Imprimir esta página
sexta, 17 maio 2019 17:16

IRREVERÊNCIAS

Escrito por 

JÁ DITO

Desta vez, resolvi transladar para este espaço três “textos” que deixei no Facebook, em 2018. Lá colocados separadamente aqui os deixo sequenciados. Reli-os e continuo a rever-me neles.

I - ASSUMIDAMENTE RÚSTICO E AGRESSIVO

Tenho por hábito “passar pelas brasas” depois do almoço. Hábito que me ficou dos tempos de África. E, agora, aposentado, sem a preocupação de preparar as aulas e corrigir testes para entregá-los a tempo e horas aos meus alunos (eles estão aí para o testemunhar) tenho-me dado a esse saudável luxo.

Um destes dias, estava eu a gozar essa minha sesta de aposentado e o “trimtrimtrim” do telefone fixo arranca-me desse descanso. Corri a atender e do outro lado da linha está a voz maviosa de uma senhora que se identificou imediatamente e, tudo de seguida, blablablabla(um tempo interminável) disse ao que vinha. Era um RASTREIO AUDITIVO que iria ter lugar em Castro Daire, no local xis, às tantas horas.

Que eu “dada a minha idade” devia comparecer, para meu bem. Ouvi tudo em silêncio, pois não houve reticências, para eu interromper. E, recado dado ou por falta de fôlego, a senhora deixou que eu falasse e falei:

- Irra, a senhora parece uma cassete, ligada à corrente, nunca mais pára.

- Ficou incomodado? 

- Não, mas dispenso os vossos serviços.

Ela não me ouviu e face à insistência da lengalenga, lembrando novamente a minha idade, etc, etc. coisa e tal... eu agradeci a forma gentil de ela me chamar velho e perguntei: 

- A senhora ouviu o que eu disse? Pela minha resposta deu-se conta de eu ouvir bem ou mal? E repito, em português, não estou interessado nos vossos serviços.

E como ela não despegasse, qual carraça presa a orelha de um cão, tive de lhe dizer com todas as letras do português vernáculo: “minha senhora, vá bardamerda”.

E lá se foi a minha sesta.

II - ASSÉDIO E MANIPULAÇÃO

Revestem as mais diversas formas e não olham a meios para atingir os fins. Todos os caminhos, trilhos, atalhos, portas e janelas, greta ou frincha de parede servem para penetrarem na caixa forte do nosso cérebro e fazer o que querem da nossa mioleira.

No “post” anterior mostrei a minha arrelia pelo facto de uma senhora, que não conheço de lado nenhum, insistir em impingir-me, por via telefónica, um produto (primeiro era a informação e depois era o resto) que eu educadamente recusei, sem ela me ouvir, levando-me a dizer-lhe que eu não estava mouco, a pontos de a mandar bardamerda.

Os amigos, que conhecem o estratagema e me acompanham nestpágina, chamaram “melgas” a todos aquelas que assim procedem e aconselharam procedimentos diversos para sacudir tais pragas.

Claro que essas “melgas” têm preparação prévia com vista a atingirem os objetivos pretendidos. A primeira é saberem o perfil do alvo a atingir e “presumindo” que ele está debilitado por doença ou por idade, pontaria feita e...o fogo chega envolto em falas mansas, carinhosas, solidárias (com certa dose de caridade cristã) pois os serviços da especialidade deram-se ao trabalho de se preocuparem connosco, coitadinhos, que faremos muito mal se não formos na cantiga.

Mas hoje quero falar de outra MANIPULAÇÃO. Aquela que infesta os programas das nossas TVs. Todos eles. Refiro-me ao “assédio” irritante e descarado que nos chega, via APELO ao telefonema (60 cêntimos + IVA), pois, com tão pouco investimento podemos tornar-nos donos de carros e significativas quantias.

Já viram os jeitos e trejeitos, já ouviram as piruetas linguísticas, digamos as piruetas verborreicas dos apresentadores para nos convencerem a telefonar? Vale tudo. Até dizerem para telefonarmos, mas não abusarmos, etc. e tal: “são só 60 cêntimos + IVA”.

Dir-me-ão que todos aqueles “apelantes” cumprem o seu dever de apresentadores e o seu performance profissional se mede pelo número de “apelados” que caíram na rede, pois tal impõe o formato do programa.

A meu ver, nestes últimos tempos, é a manipulação e o assédio mais refinados inventados pelos especialistas nessa arte, com vista e extorquir-nos o cobres da conta, no convencimento de que somos gente e que até participantes nesses programas.

Bem, da minha parte, não levam “chavo” e logo que tais artistas me entram “janela” dentro, como não gosto nem consumo tal fruta, voo, num ai, para os documentários da Odisseiae outros canais congéneres.

Sem palavrões, pois sou uma passoa educada. Mas advirto que tenho um assinalável acervo deles. Como professor de PORTUGUÊS estudei os “níveis da língua” e o vocabulário adequado a todo o contexto de comunicação.

III -  ENCONTROS INESPERADOS

Como estrela cadente que entrou na atmosfera que respiro - ar puro da dúvida, da investigação, do acerto, do erro, do mudar de direção - vinda de um ponto ignoto do cosmos humano, ela, inesperadamente, aterrou no campo onde semeio factos, pensamentos e afetos, não longe de entrarem, eles e eu, paulatinamente, na penumbra da noite eterna.

Mas, diferentemente da estrela cadente, ela não perdeu a luz no trajeto (não importam os caminhos andados, trajetos percorridos), importa é o rompimento da barreira, naquela sua postura de gente, naquele seu jeito resplandecente de humanidade. E foi a primeira que, mal chegou junto do semeador, diz ter colhido avidamente o pouco merecimento da minha sementeira.

E nela, naquele seu olhar brilhante e eloquente (um pouco triste, mais ouvinte do que falante) vi germinar algumas sementes que, no latifúndio digital, braço estendido, gesto largo à maneira do lavrador medieval, tenho andado a lançar a esmo, não no agro, mas nas mentes.

Misteriosos e insondáveis desígnios rasgam, pois, o cosmos humano, onde se cruzam caminhos e destinos de meteoritos com alma e vida. Não são rochas mortas, não. Nem tão pouco escória solta, vagante, perdida no espaço, resultante de qualquer fusão ocasional em galáxia distante. Dotados de consciência, de sentimentos e de memória, dão-se conta da sua existência. E, unidos assim, no cadinho da investigação, no caminho da pesquisa, da experiência e da descoberta, não importa de que galáxia vêm, nesse cadinho e caminho, dizia, ambos fundem, em gestos e palavras, o que de comum têm: o interesse na descoberta de algo novo e diferente em prol da humanidade. 

Mentes arejadas e sãs, repugna-lhes a manipulação da gente, a submissão do SER ao  TER, os preconceitos étnicos, de religião e de cor. Sendo quem são, e como são, cientes de serem peças da máquina social, considerada desenvolvida e civilizada, interrogam-se como viver livremente sem se deixarem triturar, nesta sociedade de consumo. Entre coisas más e boas, optam por seguir sempre o seu rumo, fazendo, todavia, o que faz todo o ser vivo e inteligente para sobreviver. E a chorar ou a rir, com triste angústia ou efusiva alegria, contornam as dificuldades, e cientes, embora, de não endireitarem o mundo, não se deixam pôr «borda fora»,um a um, sem crítica nem reparo, às regras sociais, interesseiramente impostas pelos poderosos sem escrúpulos, em nome do BEM COMUM. Os ditos salvadores do mundo.

E, então, mais não podendo ser, fazem como fez, em tempos que lá vão, a Mafalda, aquela heroína da Banda Desenhada, tão esquecida, mas agora aqui lembrada. São do contra, não têm emenda e, para quem não entenda, estugando o passo ou a cancha, propagam no universo inteiro a sua legenda, escrita em balão, tira ou prancha, cheia de fé e de sumo: “sei que não endireito o mundo, mas tento que ele mude de rumo, com o meu pontapé”.

IV -  ARROZ DE RAPOSA

É público e notório este meu gosto de passear pela serra para observar e absorver as belezas da natureza. Belezas naturais, edificadas e humanas. Foi, seguramente, jeito e gosto que me ficaram desde pequeno, quando, menino de escola, completava o estudo livresco com a observação do meio ambiente e tirava partido dele, juntamente com os meninos e meninas da minha igualha que, cedo e em liberdade, nos tornámos adultos juntos.

E já crescido, eu bem me lembro dos mil aromas e mil cores a penetrarem-me a alma e os sentidos. A acicatarem-me a imaginação e os apetites. Ele era o cheiro a a gado, ele era cheiro amarelo das maias das carquejas, tojos e giestas. Ele era o lilás da urgueira e da queiró. O prateado das giestas brancas, margaridas e malmequeres com aqueles botões dourados próprios de gabão fidalgo. Tudo a bordejar caminhos e carreiros, a vestir montes e outeiros, qual dalmática de clérigos ou jaqueta de toureiros. Preferia a última vestimenta. Toureiro a cavalo. Estava mais conforme a minha natureza e idade. Era menos beata e mais pagã. Permitia-me soltar o animal e deixá-lo gozar campos fora, a fazer piruetas e a retouçar erva fresca, aqui ou além.

Há já alguns anos que me referi à “dedaleira” e sobre ela fiz um vídeo que alojei no YouTube, mostrando, com ironia e humor, o proveito que dela fazíamos e, sabe-se lá, os efeitos resultantes de, pela orvalhada, chuparmos sofregamente o líquido adocicado daqueles dedais coloridos. Às vezes cachos inteiros.

Mas hoje trago aos olhos dos amigos a planta que nós recolhíamos nas paredes ou penedos e chamávamos simplesmente “arroz de raposa”. Estávamos longe de saber o palavrão “drosanthemum floribundum”, o nome de baptismo que lhe foi dado pelos sábios da botânica, salvo erro.

Pois que seja. Para o efeito da minha vivência infantil tanto vale. O que quero dizer, aqui e agora, é que, recolhido o arroz, os pastorinhos arranjavam os gravetos para fingirem fazer uma fogueira e as pastorinhas punham-se a fingir de cozinheiras e a prepararem uma arrozada.

E não me interpelem sobre esta distribuição infantil de tarefas. Não acredito que ela esteja inscrita no código genético do género masculino e feminino. Os rapazes a colherem lenha e as raparigas a cozinharem. Antes penso que, lá nos montes, nós, meninos e meninas, fazíamos o que víamos fazer em casa aos nossos pais, irmãs e irmãos. Disto sei eu. Só nunca soube foi a razão por que os adultos, face às nossas irreverências, usavam a expressão “olhem que eu dou-vos o arroz” associada a uma ameaça de sova.

Pois. À distância de anos, olhem que bonito está o arranjo. Agora, que estão na moda os pratos “gourmet”, digam-me cá, amigos, amigas e simpatizantes, que nome devo escrever na EMENTA: “arroz de raposa” ou, mais erudita e saborosamente “drosanthemum floribundum”?

Perdoem-me a irreverência. Por estas bandas domina a “couve troncha” também conhecida por “penca”.

Ler 130 vezes
Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.