De facto as reformas trazidas pela Revolução Liberal, não fizeram mossa apenas no clero com as reformas de José António de Aguiar. Também as reformas relacionadas com a extinção dos morgadios deixaram rasto na história de Portugal. A casa brasonada de Grijó, bem como todos os seus bens rústicos, constituíam um morgado que vinha de longe, já que, em 1631, Manuel Ribeiro Coelho e a sua irmã, Maria Coelho, instituíram uma capela de setenta missas anuais «sob os bens do vínculo ou morgado da Nossa Senhora de Grijó».
Passaram-se duzentos anos desde essa instituição e, em 1835, os donos do morgado, residentes em Penafiel, com casa em Abragão, resolveram desfazer-se do património, vendendo-o, em 1843, ao senhor Joaquim de Almeida, da Casa do Chão do Forno, no Gafanhão.
O património desta casa constava a Casa Nobre, com capela anexa, da casa dos caseiros contíguas e outras casas em Reriz, Casal e Caniçais. Juntavam-se a isso todos os campos das terras de pão, e vinho, olivais, soutos de castanheiros e montes, prados livres e alodiais, foros, moinhos e até um barco que fazia a travessia do Paiva no sítio de Cabaços. Os bens dispersavam-se pelas freguesias do Gafanhão, S. Martinho das Moitas, Reriz, Pinheiro, e também pela freguesia de S. Francisco d'Orgens, concelho de Viseu.
Dos bens móveis constavam as alfaias de uso na capela, utensílios dos celeiros e lagares (tinham lagares junto à Casa Nobre e nas casas de Reriz), madeiras serradas, vacas, dívidas existentes confirmadas por escrituras públicas, ou simples escritos, cujo rol se encontrava na posse de alguns caseiros.
O comprador desembolsou por tudo isso oito contos de reis (8.000$000), metal sonante, sendo seis contos (6.000$000) pelos bens de raiz e dois contos de reis (2.000$000) pelos restantes móveis, semoventes e direito e ação à cobrança das dívidas.
A escritura de venda informa-nos que as razões da transação se deveram ao facto das casas precisarem de grandes consertos e os proprietários terem dificuldade em realizá-los devido a morarem longe daqui.
Fosse por essa razão ou em resultado das medidas legislativas decorrentes da Revolução Liberal de 1820, viradas para a extinção dos morgadios, a verdade é que estes bens rurais da velha nobreza, à qual pertencia o senhor Rodrigo Monteiro Correia de Vasconcelos Guedes Mourão, nascido em 25-04-1800, fidalgo cavaleiro da Casa Real, com mercê de vida no Senhorio de Porto Carreiro e na Alcaidaria-Mor de Celorico de Basto, bem como da sua distinta esposa Dona Isabel Cardoso Coelho Nobre, nascido c. 1820, ambos residentes em Penafiel, com casa em Abragão, mudaram de proprietário. Deixaram de ser património de gente que morava longe, para se tornarem património de gente próxima. (Escritura de Compra, Arq. Particular)
De posse do imóvel brasonado e dos bens rústicos que integravam o património adquirido, o novo proprietário resolveu imediatamente construir uma ponte no sítio de Cabaços, onde um barco, como se vê na escritura, fazia a travessia do rio Paiva de margem para margem. Dizemos imediatamente, pois adquirindo ele a Casa no ano de 1843, chegados que somos ao ano de 1876, isto é, 33 anos após, já o pavimento dessa ponte se encontrava em condições tais que levou Joaquim de Almeida a estar presente na sessão de 24 de Abril desse ano, por virtude de ter solicitado à Câmara autorização para o reparar. Vejamos:
«Foi convidado para esta sessão extraordinária o cidadão Joaquim de Almeida, de Grijó, a fim de um requerimento de interesse público que o mesmo cidadão pretende apresentar, o qual depois de lido se viu que pedia autorização para, à sua conta, reformar a ponte do Paiva que por ele foi edificada no sítio de Cabaços, visto achar-se já muito deteriorado o pavimento da mesma e querendo satisfazer desde já ao encargo que tomou de concorrer com a quantia de um conto e seiscentos mil reis para que esta Câmara possa apreciar a obra intentada pelo requerente. Apresentou também o respectivo projecto da mesma ponte. Ao que a Câmara depois de examinar a planta da referida ponte e discutir o requerimento apresentado, acordou em deferir a pretensão do prestante cidadão Joaquim de Almeida por julgarem muito importante e de maior utilidade para este concelho e por verem que o projecto da planta apresentada satisfaz o objectivo a que é destinada» (Liv. das Actas das Sessões da Câmara de 1874-1878, fls 77v-78r)*
Deferido o requerimento e a pretensão, Joaquim de Almeida reparou o piso da ponte e por ali passaram, durante muitos anos, as pessoas que, na corda do Paiva, se deslocavam de uma margem para outra, fosse em negócios, de Alvarenga a Castro Daire e vice-versa, ou em trabalhos agrícolas nas redondezas.
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ARMAS:
Escudo esquartelado:
1º QUARTEL: 1 castelo com 2 javalis, agarrados a ele
2º QUARTEL: 1 javali ao centro rodeado de outros mais pequenos
3º QUARTEL: 1 javali ao centro e 7 em miniatura à sua volta
4º QUARTEL: uma árvore ao centro e dois javalis ou leões agarrados a ela
Timbre: elmo sob uma coroa real
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* Esta minha abordagem sobre a construção e reparação da Ponte de Cabaços foi feita pela primeira vez no meu livro «Castro Daire, Indústria, Técnica e Cultura», editado pela Câmara Municipal, em 1995. Posteriormente a essa data fui contactado e visitado pessoalmente por um tal Filomeno Silva que recolhia elementos para o miolo do livro «Rio Paiva» que, de co-autoria, veio a ser editado no ano de 1999, pela «Associação de Defesa do Património Arouquense, Água do Douro e Paiva, SA, Campo das Letras».
A seu pedido forneci-lhe documentos vários e demovi-o da convicção que ele tinha da Ponte de Cabaços ser obra dos romanos. De posse do meu livro e das informações prestadas de boa fé, ele telefonou para a Biblioteca Municipal, pediu fotocópia da acta citada no meu livro e, sem trabalho de pesquisa, remeteu para o original como se fosse ele a queimar as pestanas na descoberta. Visto isto, por virtude de detestar estas «espertezas», dirigi-lhe uma carta registada apresentado o meu protesto, carta que ele não respondeu. Posteriormente denunciei essa atitude pouco digna de um historiador em nota de rodapé do meu livro «Mosteiro da Ermida», editado no ano 2001. Ali apelei ao leitor para fazer o cotejo destas publicações e saber onde estava a «voz» e onde estava o «eco» na investigação e divulgação da História Local. Na introdução ao meu livro «Rota Sinuosa» editado no ano 2003, em que ponho a nu os plágios feitos na corda do Rio Paiva, desde Vila Nova de Paiva até Arouca, voltei a pôr o assunto que aqui renovo, disposto a repeti-lo sempre que for oportuno. É que isto, para além do que eticamente se exige de qualquer cidadão, também faz parte da LITERACIA arrabaldina.
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NOTA: Do meu livro inédito "Castro Daire, Clero, Nobreza e Povo" que deixo como herança imaterial aos meus filhos, Mas, para que conste a todo o tempo. aqui digo já que publiquei, pela primeira vez, a história do «SOLAR DE GRIJÓ»(antes de mim, ignoro que alguém o tenha feito) no jornal «Voz do Montemuro», nº 1, mês de julho de 1985. Voltei a falar desse solar e seus bens no meu livro «Castro Daire; Indústria, Técnica e Cultura», ed. pela Câmara Municipal em 1995, no capítulo da «Indústria Lagareira» e, posteriormente, sempre que foi preciso alertar os incautos para a diferença que existe entre a «voz» e o «eco» v.g. denunciar quem se utiliza de trabalho alheio, chamando a si «habilidosamente» o produto da investigação de outrém, como vai sendo hábito nos tempos fáceis do «copy/paste).
Publicada que foi a crónica, solicitei uma ADENDA CRÍTICA à INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL que veio de pronto, assim:
«Com muito gosto. O seu artigo apresenta uma excelente contextualização da transição socioeconómica em Portugal após a Revolução Liberal de 1820, cruzando a micro-história do Solar de Grijó com dinâmicas de propriedade e infraestruturas locais.
Segue uma Adenda Crítica estruturada, focada no rigor histórico e no valor metodológico da sua investigação, pronta para ser integrada na sua crónica.
ADENDA CRÍTICA
O Solar de Grijó como Reflexo Micro-Histórico do Liberalismo Português
A crónica do historiador Abílio Pereira de Carvalho sobre o Solar de Grijó oferece mais do que um mero registo genealógico ou patrimonial. O texto constitui um valioso testemunho micro-histórico de três fenómenos cruciais para a compreensão do Portugal profundo entre os séculos XVIII e XXI.
1. A Desestruturação do Antigo Regime e a Nova Burguesia Rural
A venda do morgado em 1843 ilustra na perfeição o impacto prático das reformas liberais, nomeadamente a posterior extinção dos vínculos. A transição do património do fidalgo Rodrigo Monteiro Correia de Vasconcelos — ausente e sediado no Entre-Douro-e-Minho — para o proprietário local Joaquim de Almeida espelha a derrocada da velha aristocracia fundiária. Este fenómeno marca a ascensão de uma burguesia rural operante. Esta nova classe estava focada na rentabilização e na gestão de proximidade dos recursos agrobiológicos da bacia do Paiva.
2. Infraestruturas e Progresso: A Substituição do Barco pela Ponte
A substituição do histórico "barco que fazia a travessia do Paiva no sítio de Cabaços" pela construção de uma ponte robusta por iniciativa de Joaquim de Almeida é um indicador de desenvolvimento. Demonstra como a privatização ou a nova gestão dos bens alodiais e senhoriais impulsionou a melhoria das acessibilidades locais. Este esforço culminou no restauro da infraestrutura em 1876. Retira o isolamento às populações que transitavam entre Alvarenga e Castro Daire.
3. Rigor Epistemológico e a Salvaguarda da Investigação Local
O desabafo final do autor transcende a mera queixa autoral; toca num ponto crítico da ética historiográfica contemporânea. A historiografia local depende do trabalho minucioso e físico em arquivos paroquiais e municipais (como o Livro das Actas das Sessões da Câmara aqui citado).
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O combate ao "mito" romântico de que a ponte seria romana, desmontado pela prova documental de 1843/1876, prova a importância do empirismo científico contra o facilitismo da tradição oral descontextualizada.
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A denúncia do plágio e da replicação acrítica (o "eco" vs. a "voz") serve como um manifesto em defesa da literacia histórica. Reafirma que a compilação de dados exige honestidade intelectual para com as fontes primárias e secundárias.
Em suma, o Solar de Grijó, embora hoje ameaçado pela ruína física, permanece edificado na memória identitária da Beira Alta graças à investigação documental que fixa a sua verdadeira relevância histórica.