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domingo, 02 agosto 2026 21:10

CUJÓ -TERRA ANIMAIS E GENTES

Escrito por 

AS NOSSAS TERRAS, AS NOSSAS GENTES

Em 2015 publiquei no meu mural do Facebook o apontamento que hoje aqui reproduzo (PRIMEIRA PARTE)  onde falei de CUJÓ, das suas GENTES e forma de elas ganharem a vida. De entre outras atividades, sobressaíam, naturalmente, a AGRICULTURA e a PASTORÍCIA, sem esquecer todas as tarefas e obrigações correlatas. Ora vejá-se neste ano de 2026, o que escrevi em 2015 e a razão por que retomei o assunto, nas PARTES seguintes.

 PRIMEIRA PARTE

(2015)

Falar de pastorícia é falar de GENTE e de GADO. É andar pela serra, pelas nossas serras, lameiros e tapadas, é viajar no tempo, é recuar um bom par de anos e comparar a base da economia desses tempos com a economia dos tempos de hoje. É ver os nossos montes cheios de vida, massas ondulantes de movimento e de cor. É ouvir os mugidos aflitivos das crias perdidas e mugidos identificadores das mães a sossegá-las e a socializá-las no rebanho, lá, nos montes, onde hoje vemos o movimento e a zoeira dos geradores eólicos que substituíram rebanhos e pastores. 

Falar de pastorícia é falar da responsabilidade dos pastores, dos deveres e obrigações que os ligam aos animais que de si dependem, da obrigação imposta pela consciência  (e hoje também pelas leis) de bem tratar, com comida, bebida e transporte, os animais que estão ao cuidado, à guarda de quem assume ser DONO deles.

IMG 0054Falar de pastorícia e andar hoje pelas nossas serras, é constatar a mudança dos tempos, é ver os montes desertos e que só na canção de António Mourão se pode pedir "ó tempo volta pra trás", sabendo que tal não é possível. 

Falar de pastorícia, de ontem e de hoje, é saber que, ao contrário do subsídio que hoje o Estado concede por cabeça aos criadores, por forma a retardar a desertificação e abandono total dos nossos campos, os criadores de outros tempos, em vez de subsídios, eram obrigados a MANIFESTAR a lã produzida, BRANCA E PRETA  (hoje ninguém compra lã, diziam-me há bem pouco tempo os pastores da vigia de Alhões, em plena Serra do Montemuro) tal qual se vê no verbete que hoje publico, relativo ao ano de 1927. 

Por ele ficamos a saber que Maria Duarte, viúva, natural de Cujó, através de David Duarte Pereirinha, declarou ter "colhido" nesse ano, 3 quilos de lã branca e 4 quilos de lã preta. Tudo confirmado pelo Regedor João Pereirinha Silva, em obediência às leis vigentes. Ora vejam, amigos meus. E para além dessa informação não deixem de reparar na letra tremida do declarante e na letra segura do REGEDOR. Por sinal ambos da família PEREIRINHA.



SEGUNDA PARTE

(2026)

Decorria o ano de 1927 e,  no manifesto obrigatório da lã produzida nesse ano, aparecem dois nomes de apelido PEREIRINHA, sendo um deles o REGEDOR. (Ver verbete da lã, mais acima).

JOSÉ MÁRIOOcasionalmente, encontrando-me, há tempos, com José Mário Pereirinha, natural de Cujó, falámos sobre a História da terra, do que se ia perdendo por lá e o que se devia preservar para memória dos vindouros. Perguntei-lhe se não haveria nos álbuns de FAMÍLIA a foto de um seu ancestral que eu conheci em pessoa e tive como homem de autoridade sem ser autoritário. Respondeu-me que sim, que iria diligenciar no sentido de satisfazer o desiderato que lhe manifestei que era mostrar mais um ROSTO de CUJÓ. 

O tempo passou e quis o destino que José Mário Pereirinha viesse a ser eleito Presidente da Junta da Freguesia nas últimas ELEIÇÕES  AUTÁRQUICAS. Assim, assumidas que foram essas funções, acrescidas foram as suas obrigações e deveres na cronologia da HISTÓRIA POLÍTICA E SOCIAL da terra, daí que eu, aproveitando a oportunidade, retomasse recentemente o assunto. E ele, acedendo gentilmente ao meu pedido, fez-me chegar, prontamente,  as fotos dos familiares que encontrou.

E lá mais abaixo veremos o rosto que muito gosto tenho em pôr no mundo. O rosto de JOÃO PEREIRINHA E SILVA, digno de figurar na GALERIA das pessoas naturais da terra que muito fizeram para tornar a povoação de Cujó FREGUESIA INDEPENDENTE, pois, em 1927, sendo JOÃO PEREIRINHA E SILVA regedor, ainda CUJÓ pertencia à FREGUESIA DE SÃO JOANINHO, como bem se lê no MANIFESTO DA LÃ, deixado na PRIMEIRA PARTE.

Bem andará, pois, o atual PRESIDENTE DA JUNTA, JOSÉ MÁRIO PEREIRINHA, em honrar a MEMÓRIA de todos esses nossos antepassados, com FOTOGRAFIAS ou sem elas. Sabemos bem que os tempos eram outros e nem todas os naturais da aldeia se deram ao cuidado, (ou tinham posses) para deixarem o seu ROSTO em papel, mas em papel ou memória oral deixaram, seguramente, o seu NOME. E alguns desses NOMES deixei eu, em 1993, no meu livro “CUJÓ, UMA TERRA DE RIBA- PAIVA”, editado pela JUNTA DE FREGUESIA, sendo então  Presidente SECUNDINO DA SILVA CARVALHO. Escrito “pro bono”, ele Presidente,  para a JUNTA ser ressarcida dos custos financeiros gastos na IMPRESSÃO, recebia, por inteiro, o produto da venda dos livros. Ele e todos os PRESIDENTES DE JUNTA SUCESSORES. Todos sabem isso. O autor não recebia um centavo do trabalho feito. Sublinho isto porque, há dias, um jovem natural de Cujó me disse e pensava que o produto da venda dos livros revertia a meu favor. 

BALDIOS-1Pois. E eu, nascido e criado em CUJÓ, primeiro HISTORIADOR natural do  CONCELHO DE CASTRO DAIRE  a tomar assento no pódio “NOTABLE PEOPLE” (degrau “DISCOVERY & SCIENCE”) e a integrar, com muita honra (sem falsa modéstia)  a lista dos HISTORIADORES DE PORTUGAL, tudo disponível no GOOGLE (prestígio e mérito  que adquiri sem cunhas, peitas ou servis obediências, prestígio e mérito que não enjeito, pois me foi atribuído  por reconhecidas figuras públicas, seja académicas, seja políticas, remetendo. assim,  para o ridículo toda e qualquer opinião que, por despeito, mediocridade ou complexo, tente diluir o MÉRITO que credenciado está para o probo desempenho do ofício ) ,desde há muitos anos que, nesta “ERA DO CONHECIMENTO DIGITAL”,  me tenho esforçado por colocar no GLOBO TERRESTE, em letra e imagem, o nome de CUJÓ, das suas GENTES, das suas ARTES e OFÍCIOS, sempre ciente de que “UM POVO SEM MEMÓRIA É UM POVO SEM HISTÓRIA”. Relevando sempre a sua postura social LABORIOSA, a sua HONRADEZ e união «um por todos e todos por um» em momentos de perigo, v.g. um incêndio na moradia ou palheiro de um vizinho, o desaparecimento, inesperado, de alguém perdido nos montes (lembro o caso do Vicente da Silva, já relatado por mim em vídeo)  a defesa de um BEM COMUM como foi a SUPLICAÇÃO de 1888 dirigida ao PRESIDENTE DA CÂMARA de Castro Daire, envolvendo o baldio comum entre Monteiras e Cujó, já por mim publicada com todos os seus trâmites e assinaturas dos “suplicantes” (VER FOTO AO LADO)

 

 

TERCEIRA PARTE



E poderá perguntar-se. então, se CUJÓ comunidade serrana, camponesa era constituída por santos e anjinhos? Não. Claro que não! Comunidade humana que era, o seus elementos tinham quezílias de vizinhança e de família, entre si. Tinham as suas zaragatas, os seus desentendimentos,  os seus pecadilhos individuais e sociais. Mas esses, num contexto sócio religioso,  o HISTORIADOR deixa-os para o confessionário e absolvição do confessor. O HISTORIADOR releva conscientemente o carater coletivo do povo e presta sentida homenagem a toda essa GENTE com nome ou anónima, toda a GENTE que, sem receber nada em troca do Estado (saneamento básico era coisa do porvir. Os partos eram acompanhados pela sabedoria acumulada das “parteiras” da aldeia) com uso ou não da “almofada parideira”, do “chá dos três adubos” sempre ao lado. Pagava, religiosamente, os seus impostos, cumpria as suas obrigações de cidadania, fornecia homens para o cumprimento do serviço militar, manifestava a lã produzida durante cada ano civil, como vimos na PRIMEIRA PARTE e, descalça ou  de tamancos, deixava  pegada nos caminhos que, saindo da aldeia, levavam a “lá pialém”, “lá piarriba”, “lá piabaixo”, “lá p’ra Paivó”.

CUJÓ-JOÃO PEREIRINHA E SILVA ANAGente que animava os campos e a serra, que nos montes pastoreava os seus gados, que neles cortavam carquejas e tojos para estrume, que neles recolhiam lenhas para queimar nas lareiras sem chaminés (o fumo era um bem precioso para tratar as carnes fumadas), casas cobertas de colmo, sem o mínimo de comodidades, terras policultivadas em redor, toda essa GENTE (analfabeta ou semianalfabeta) merece ser lembrada por forma a que as nova GENTE ESCOLARIZADA e CURSADA, que hoje habita a POVOAÇÃO, que nela gasta os pneus dos seus carros e outros veículos motorizados,  se não esqueça que, em cada esquina de casa levantada ou em ruinas, em loja de gado transformada em garagem, em cada espaço melhorado,  gritam as vozes desses nossas antepassados e soa o toque de um chocalho ou campainha de gado. Que, em torno da escola fechada se ouve ainda o alarido, a algazarra da criançada que ali aprendeu as primeiras letras, aqueles que  por essas letras se ficaram ou, nos seminários, liceus e universidades, outros horizontes de conhecimento alcançaram.

Enfim. Um filme que roda nas bobines da minha memória, nestes meus 87 anos de idade feitos. E chegado aqui o HISTORIADOR, aqui nascido e criado, que,  deixou a enxada, o arado e a aguilhada, para além de render homenagem sincera a toda esta GENTE RIJA, ao mesmo tempo que dou a conhecer ao mundo o senhor regedor JOÃO PEREIRINHA E SILVA, um cidadão de Cujó, cuja personalidade e autoridade extravasa claramente dos traços do seu ROSTO, aquele olhar firme, fixo em algo distante, aquele bigode de pontas arrebitadas (em 1927 ele já era regedor e eu nasci em 1939, quando o conheci já essas pontas tinham caído), face a tal figura e às minhas memórias, o HISTORIADOR não pode deixar de interpelar-se sobre os registos que, passados que sejam mais 87 anos na cronologia da HISTÓRIA, a geração que agora habita a POVOAÇÃO deixará dela. Que povoação? Que memórias? Que TERRA, que ANIMAIS e que GENTES?  



CONCLUSÃO

Mas isso será trabalho para outro HISTORIADOR empenhado em  fazer HISTÓRIA COM GENTE DENTRO. Natural ou não da aldeia, sem MEMÓRIAS ORAIS, outro remédio não terá senão recorrer a documentos escritos, analógicos ou digitais. E sabendo que as PEDRAS também são documentos, também falam, não deixará de aquilatar o grau de sensibilidade e respeito pelos protagonistas da HISTÓRIA, na salvaguarda do seu património material e imaterial, natural e edificado (exemplo moinhos hidráulicos, fontes, datas inscritas algures,  eiras, canastros e atalhos empedrados);  não deixará de fazer juízo histórico sobre os naturais de CUJÓ que, para efeitos de melhor serventia não souberam conciliar o  passado e o presente,  e  fizeram em pedaços o pontelo monolítico conhecido por PONTE DA LESTRA, esse pergaminho megalítico de uso horizontal que testemunhava, no fio do tempo,  a verticalidade e engenharia dos artistas da pedra que levaram e gravaram longe o nome da sua terra - CUJÓ.

 

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.