PRIMEIRA PARTE
Deixada que foi a vida agro-pastoril — já contava 18 anos de idade —, logo que os livros estiveram ao meu alcance, meti-me, sem hesitação, a lavrar o CAMPO DAS LETRAS, arroteando, sem suor, mas com muito esforço e custos financeiros, os ubérrimos domínios da HISTÓRIA e da LITERATURA, senhorios que adquiri sem prévia CARTA DE MERCÊ.
E foi nesse meu lavrar, anos seguidos, leiva sobre leiva, honrado de saber que a História de Portugal contava com um rei poeta de cognome «LAVRADOR» - D. Dinis - que chegou até mim Tito Lívio a dizer-me que os senadores romanos, face a perigosas ameaças externas, precisando de um “líder” numa emergência política, correram a convocar Cincinato, que “encontram a lavrar a terra coberto de suor e pó”.

Gostei de saber. O exemplo era promissor. Eu acabava de deixar a aguilhada e o arado. Digamos que de limpar o suor do rosto e sacudir o pó da vestimenta. Até um lavrador, em pleno labor, podia deixar em descanso as ferramentas agrícolas e, por razões de saber, de carácter e personalidade, ser chamado a dar um contributo social diferente em prol da cidade, da res publica, do império, da polis, da comunidade, da pátria.
O caso teve fausto posterior semelhante ligado aos Visigodos. Aconteceu aquando da escolha do Rei Vamba. Isto a fazer fé na lenda que rodeia esse protagonista e que eu deixei, por extenso, nos TRILHOS SERRANOS, na crónica publicada em fevereiro de 2018, com o título “O REI VAMBA”.
Nascido e criado no campo, rodeado de poesia declamada por todo o ser vivo que tinha em redor de mim, pelas diferentes cores da natureza nas quatro estações do ano, inebriado ficava eu, pastorinho escolar, com o canto da cotovia e demais gado alado que, voando, rasgava os ares despertando sonhos e ideias. A cotovia subia, subia, subia, mas sem asas alheias.
Tudo poesia.
Mas eu poesia não via no frio que rapava pelos montes, roto e descalço, e também no suor que no chão caía para granjeio do pão, sendo o pão tão pouco e trabalhoso, desde a semeadura ao fornada de broas que se consumiam durante a semana. Côdeas mais de rilhar do que mastigar.
E na minha saga de recém-chegado ao CAMPO DAS LETRAS, li com atenção e apetite os nossos poetas medievais e quinhentistas. Poesia provençal, trovadoresca, cantigas de amor, de amigo, de escárnio e maldizer. Autos. Muitos Autos! E que admiração a minha com os «sete arrepelões» que o «vaqueiro» recebeu à entrada e, ele de olhos esbugalhados a ver coisas que «ficava parvo a vê-las». Ele «vaqueiro» pasmado na corte com o que via. E eu encantado com o que lia, a escrita bucólica a cantar o campo, a cantar os amores de “zagais” e de “zagalas” na sua rusticidade humilde e humana. E não fora o desfasamento entre a realidade por mim vivida e as rimas que lia, mais e maior apreço eu teria pela arte de escrever daquela gente culta e urbana, pela pontaria do seu olhar, lunetas a mirarem a gente camponesa de trabalho e obrigação de pagar os impostos lavrados nas escrituras de emprazamento ou arrendamento.
E, no caminho, veio a HISTÓRIA DA LITERATURA completa, alinhada na sua cronologia própria. Obras, autores, estilo, escrita cortesã e escrita campesina.
E veio depois, entre tantos, um escritor, um romancista de monta, tecelão de reconhecido mérito nas ARTES LIBERAIS - para usar a classificação feita pelos nossos humanistas de quinhentos, as demais eram ARTES SERVIS - que, enfim, de olhos postos no passado, pensava “com’a’mim”.
Deixei rasto disso no trabalho publicado nos Trilhos Serranos, em 2014, intitulado “Influência da Cultura Clássica na Cultura Portuguesa”, adotando e subscrevendo a ironia e a verdade que tresandavam do texto que saiu da pena de Camilo Castelo Branco.
Com efeito, referindo-se ele às aldeias do Minho, questionou o que os poetas bucólicos disseram delas. Assim:
«A mim me tinham dito os poetas umas coisas que eu não acreditei. Sá de Miranda e Bernardes; Lobo e Fernão Álvares, Camões e Braz Garcia... os quatro pontos cardeais tomados de poetas que melodiavam bucólicos louvores da santa vida pastoril, virtudes de zagalas que faziam corar as rosas de puro envergonhadas.»
Nessa linha de pensamento, nesse mesmo ano — 2014 — glosei, à minha maneira, o poema de Francisco Rodrigues Lobo, “Quando o sol se alevanta”. Dei-lhe as vestes rurais da minha experiência de vida, bem diferente da “visão” desses outros poetas bucólicos, como bem pode ver-se nos versos que aqui deixo:
(…)
Mas não é esse o cerne desta crónica. O que me levou hoje a teclar estas letras é o facto de estarem carregadas de amoras as amoreiras que plantei no alegrete que orla o meu pátio de entrada, mesmo em frente à varanda com acesso por dois pares de escadas laterais constituídas por meia dúzias de escaleiras cada, numa das quais assenta um plinto granítico com um busto de Camões em cima. Ali, rodeado de amoras. E tanto bastou para que, dos recôncavos da minha memória, se avivar o eco de uma relação entre “amoras e amores” ligada a este nosso épico coroado de louros.
Olhai, Ninfas, as árvores alçadas