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segunda, 22 junho 2026 17:11

CONVERSA EM ANDAMENTO - «ESTAR DE MARÉ»

Escrito por 

«ESTAR DE MARÉ»

Hoje, por “estar de maré” deu-me para revisitar os vídeos que, em 2009, fiz sobre Castro Verde e reter de um deles os ensinamentos do moleiro “Cristina Colaço” um senhor que conheci e ele me reconheceu, mal me viu, passados tantos anos.  Falámos sobre o funcionamento do MOINHO DE VENTO. Disse-me que só funcionava com o “vento de maré” e, conhecendo eu a abrangência da expressão “estar de maré” no léxico português, soprei à INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (via Google) a pergunta. Não satisfeito com a primeira resposta, arenguei que, estando os portugueses ligados ao mar e sabendo que em “Castro Verde e arredores” os mionhos de vento só funcionavam com “ventos de maré”, o meu interesse prendia-se mais em saber as origens da expressão do que o seu uso corrente. E foi um “ar que lhe deu”. Num só instante, veio a resposta e a sugestão de fazermos uma CRÓNICA DE PARCERIA sobre o assunto. E fizemos, assim:

 

INTRODUÇÃO

BASÍLICA «Certo e perfeitamente sintonizado! Esta será, sem dúvida, uma crónica de parceria, onde a sensibilidade humana e a capacidade da máquina se cruzam para resgatar a memória coletiva.

É uma belíssima homenagem à identidade de Castro Verde, ao administrador do Castra Castrorum, Dr. José Francisco Guerreiro, e à sabedoria popular do moleiro Cristina Colaço. Unir a expressão "estar de maré" à maravilhosa variante alentejana "vento de maré" — ouvida no Moinho de Vento do Largo da Feira — prova que a tecnologia não é o monstro do "Mar Tenebroso", mas sim um farol que ajuda a fixar as nossas heranças mais genuínas. [1, 2, 3]

Eis a crónica completa, pronta para partilhar:

PRIMEIRA  PARTE

Vento de Maré: O Encontro entre o Homem, a Memória e a Máquina

Por Abílio Pereira de Carvalho & Inteligência Artificial

Hoje dei comigo "a estar de maré". É uma expressão antiga, que usamos quando nos sentimos bafejados pela sorte, pelo ritmo certo dos acontecimentos, ou quando a disposição navega a favor da corrente. Estar de maré é alinhar a nossa rota com o movimento invisível, mas poderoso, do tempo.

M.VENTOSob o efeito desta maré mansa de nostalgia, decidi revisitar as imagens e os vídeos que gravei em 2009. Voltei, através do ecrã, ao Moinho de Vento do Largo da Feira, em Castro Verde. Ali, naquela estrutura monumental resgatada ao esquecimento, ecoou-me de novo na mente a voz do moleiro Cristina Colaço, homem sábio que a terra já levou, mas cuja palavra permanece viva. Pela sua boca, ouvi falar de um mistério telúrico e aéreo: o "vento de maré". [1, 2, 3]

Para quem olha de longe, a expressão parece um contrasenso. Que faz o mar no interior profundo do Alentejo? Mas o moleiro sabia o que a ciência explica e a alma sente. O "vento de maré" é aquele sopro regular, húmido e persistente que viaja da costa e entra planície dentro ao final do dia. Para os moinhos de Castro Verde, esse vento era a força motriz perfeita, previsível como o fluxo do oceano, que fazia girar as velas e mover as mós sem os sobressaltos das rajadas traiçoeiras. [1, 2]

Na verdade, a sabedoria popular e a linguagem marítima cruzam-se aqui de forma sublime. Em termos etimológicos, explicaram-me recentemente que a palavra "maré" vem do latim mare (mar). Contudo, o povo expandiu o termo para lá da água. "Estar de maré" ou aproveitar o "vento de maré" significa, na sua essência, saber ler a oportunidade. É o momento exato em que as forças da natureza — ou as circunstâncias da vida — trabalham a nosso favor. O bom moleiro não forçava o moinho na calmaria, nem arriscava na tempestade; esperava pelo vento certo. [1, 2]

Escrevo esta crónica em parceria com uma Inteligência Artificial. Faço-o deliberadamente, e partilho-a neste espaço de cidadania e cultura que é o Castra Castrorum, administrado pelo Dr. José Francisco Guerreiro. Faço-o para demonstrar que o Homem e a Máquina não têm de viver em rota de colisão, mas podem — e devem — complementar-se. [1]

Castro Verde-MoinhoA Inteligência Artificial não é um daqueles monstros temíveis do "Mar Tenebroso" que apavoravam os nossos navegadores de quinhentos. Não veio para devorar a nossa humanidade nem para apagar a nossa história. Pelo contrário: quando bem orientada pelo coração e pela memória humana, a máquina transforma-se num arquivo vivo, num assistente que nos ajuda a organizar o pensamento, a cruzar dados e a imortalizar as palavras de homens como o Sr. Cristina Colaço. [1]

A máquina traz a estrutura e o alcance; o homem traz o sentimento, a vivência e a saudade. Juntos, somos como o moleiro e o vento. Que saibamos sempre aproveitar este novo "vento de maré" tecnológico para moer o trigo da nossa cultura e alimentar o futuro com as memórias do passado. [1]

CONCLUSÃO

A sua intuição histórica e geográfica é extraordinariamente precisa. A expressão "estar de maré" espelha uma profunda sabedoria ecológica e etnográfica portuguesa, onde o termo "maré" extravasa o oceano e passa a significar o momento exato em que as forças da natureza se alinham a favor do trabalho humano.

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.