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quinta, 07 maio 2026 16:37

A URINA E O SEU USO AO LONGO DA HISTÓRIA (1)

Escrito por 

A URINA - PROPRIEDADES ANTISSEPTICAS

Nos trabalhos do campo não faltavam golpes de foice, de podão, de gadanha ou de navalha. Fosse do que fosse. Mas o POVO cedo aprendeu, por sabedoria transmitida de geração em geração, que o corpo ferido por golpe traiçoeiro e inesperado tinha, em si próprio, o medicamento disponível para os primeiros socorros. A maior parte das vezes, primeiros e últimos socorros. Era a URINA, no vulgo «MIJO».

Pai-1 - CópiaO meu pai  na fotografia que deixou aos descendentes tirada em 1927, mostra,  com certa vaidade, (adivinha-se!)  na CRUZ VERMELHA  no BRAÇO ESQUERDO da farda militar. Na tropa  aprendera a ARTE ligada à MEDICINA. CIENTÍFICA e, em nossa casa, em CUJÓ, é de minha lembrança existir toda a parafernália ligada aos PRIMEIROS SOCORROS. Existia ali todo o tipo de desinfetantes farmacêuticos, ligaduras, agrafes, pinças, sempre prontos a suturarem qualquer GOLPE advindo de ferramenta traiçoeira ou imprevidência e mau jeito no seu uso. Eu próprio, em 1954, como já demonstrei em vídeo, - ABÍLIO, O CIRURGIÃO - fiz uso dessas “ferramentas” aos 15/16 anos de idade, socorrendo a jovem  CONCEIÇÃO PEDRA, como ela diz “lembrar-se muito bem” na entrevista que lhe fiz a preceito, agora de avançada idade. Pois omeu PROGENITOR, detentor que era dessa CIÊNCIA, (até um estetoscópia havia lá em casa, ver foto mais abaixo)  não descurava a “sabedoria popular” e industriou toda a sua prole para, numa emergência, num golpe inesperado, fazermos uso da URINA, como desinfetante primeiro que estava sempre à nossa mão. E não foram poucas vezes que eu, nos montes a apascentar os gados, sempre a brincar com paus e canivetes, tive de recorrer ao “medicamento” produzido no meu  laboratório pessoal, prontinho a servir sem receita médica.

Mais tarde os livros levaram-me a saber que os ROMANOS, senhores do IMPÉRIO que rodeia todo o Mediterrâneo, cobradores de impostos, pagos em género e escravos, levavam da PENÍNSULA IBÉRICA um BEM PRECIOSO destinado à sua HIGIENE ORAL. Eram “ânforas mais ânforas” de “mijo ibérico” destinado a IMPERADORES, SENADORES, QUESTORES e outros que tantos agentes do IMPÉRIO. Preciso era que eles se apresentassem no SENADO e CERIMÓNIAS PÚBLICAS de TOGAS sem nódoas e  DENTES BRANCOS, se possóvel  bem sólidos nas gengivas. E o «mijo ibérico» era do melhor recolhido em todo o Império.

Face ao que, ligando o “saber popular” e os conselhos do meu pai, ao “saber histórico” advindo dos livros, neste tempo do «saber digitalizado», visando adquirir conteúdo para uma crónica a preceito,  resolvi-me perguntar à INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (via Google) quais as propriedades ANTISSEPTICAS DA URINA. E a resposta veio pronta.

Estetoscópio - Cópia“A ideia de que a urina possui propriedades antissépticas é um dos mitos médicos mais persistentes, enraizado em práticas históricas, mas amplamente refutado pela ciência moderna.
Aqui estão os factos para a sua crónica:

 1.     O Mito da Esterilidade:

Ao contrário do que se acreditou durante décadas, a urina não é estéril. Mesmo dentro da bexiga, existe um microbioma (baixas quantidades de bactérias) que não é detetado em exames comuns de rotina.

Contaminação: Ao sair do corpo, a urina é contaminada por bactérias da uretra e da pele, perdendo qualquer "pureza" teórica.

 2.     Propriedades Químicas vs. Eficácia Real.

 Embora contenha substâncias que, isoladas e em altas concentrações, têm ação desinfetante, na urina elas são insuficientes:

Amónia: Forma-se quando a urina é armazenada (envelhecida) e era usada historicamente para branquear dentes e lavar roupas devido à sua alcalinidade. 

Contudo, na urina fresca, a concentração é baixa demais para desinfetar feridas de forma eficaz.

Ureia: Tem propriedades hidratantes e ligeiramente inibitórias, mas os níveis na urina não substituem antissépticos modernos como o álcool ou o iodo.

Acidez e Osmolaridade: 

O pH baixo e a alta concentração de sais podem inibir o crescimento de algumas bactérias no trato urinário, mas não tornam o líquido um agente esterilizante para uso externo.

 3. Riscos de Uso "Terapêutico"Infeções: 

Aplicar urina em feridas abertas pode introduzir novas bactérias e atrasar a cicatrização.

Desidratação: Beber urina em situações de sobrevivência é perigoso, pois o excesso de sais e resíduos metabólicos acelera a desidratação.

cirurgião - Cópia Contexto para a Crónica

Historicamente, civilizações como a Romana usavam a urina para quase tudo: desde curar feridas de animais até lavar togas. Na falta de alternativas, a urina era um "recurso de emergência" que aproveitava a amónia como agente de limpeza. 

Hoje, a Cleveland Clinic e outras autoridades de saúde reforçam que urinar numa ferida ou numa picada de medusa é um erro que pode até piorar a dor e a inflamação».

Lido isto, esclarecido fiquei no que respeita ao vulgaríssimo uso  da URINA, mas como o meu  “saber analógico” adquirido e acumulado nos caminhos  por onde andei e nos escaninhos de estantes que abri, alarguei a pergunta à «IA», relacionando a URINA com os IMPOSTOS. E eis a resposta.

“A famosa expressão "Pecunia non olet" (O dinheiro não tem cheiro) surgiu no século I d.C., durante o reinado do imperador Vespasiano, como uma resposta direta às críticas sobre a cobrança de impostos sobre a urina.
  Aqui está o contexto histórico desse diálogo:

1. O Imposto sobre a Urina (Vectigal Urinae).

Após a guerra civil e os excessos de Nero, os cofres de Roma estavam vazios.  Vespasiano, conhecido pelo seu pragmatismo e austeridade, procurou novas fontes de receita. 

Ele decidiu taxar os coletores de urina (conhecidos como fullones ou lavadeiros) que recolhiam o líquido nos mictórios públicos para usar na indústria têxtil e de curtumes.

 2. O Diálogo com Tito, o  filho de Vespasiano, o futuro imperador.

 Tito, achava esta taxa "nojenta" e indigna do prestígio imperial. 
Segundo os historiadores Suetónio e Dião Cássio:Tito confrontou o pai, queixando-se da natureza imoral de lucrar com resíduos humanos.
Vespasiano, sem se abalar, pegou numa das moedas de ouro provenientes dessa arrecadação e colocou-a sob o nariz de Tito.
Perguntou-lhe se o dinheiro cheirava mal. 

 Quando Tito respondeu que não, o imperador retorquiu: 

“Atqui ex lotio est" ("Contudo, vem da urina").

 3. Legado Histórico Conceito Jurídico: 

A máxima "Pecunia non olet" é usada ainda hoje no Direito Tributário para justificar que o Estado pode tributar rendas, independentemente de a sua origem ser moralmente questionável ou até ilegal.

 COLISEUHomenagem Linguística: 

Na Itália e na França, os mictórios públicos tradicionais ainda são conhecidos como "vespasianos" (vespasiano / vespasienne), eternizando o nome do imperador que viu valor onde os outros viam apenas desperdício.

 Financiamento do Coliseu: 

Parte do tesouro acumulado através destes impostos pragmáticos ajudou a financiar a construção do Coliseu de Roma (Anfiteatro Flaviano).

Sabia que os lavadeiros romanos, os principais compradores dessa urina, usavam os pés para "pisotear" as roupas em tanques com xixi para remover as manchas de gordura».

Ora aqui temos, caros amigos e seguidores,  os elos de uma corrente (uma cadeia) que liga o “saber erudito» ao «saber popular», os elos que prendem o passado distante ao tempo presente e, certamente, aos tempos futuros. Quantos dos nossos patrícios se deixaram já, ufanamente, fotografar junto do COLISEU DE ROMA sem se darem conta do cheiro a «mijo»?

Nas nossas aldeias, mesmo depois de ter chegado a MEDICINA CIENTÍFICA, a FARMACOPEIA DE LABORATÓRIO e a INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL a ensinar-nos (ou a relembrar-nos) TUDO ISTO, não faltará quem, num golpe inesperado de faca, machado, seitoira ou gadanha,  feito em sítio do corpo onde possa chegar o esguicho da torneira, (masculina ou feminina) deixe de fazer uso do fármaco saído de laboratório próprio. Com dispensa, claro está, de receita médica e fuga a “bichas” intermináveis nos hospitais e centros de saúde, à espera de consulta.

ADENDA

Publicada que foi a crónica nesta minha página – TRILHOS SERRANOS – como ela integrava conteúdos vindos da «IA» apressei-me (ontem mesmo)  a remeter-lha, pedindo as considerações críticas que julgasse serem merecidas, com vista a publicá-las, na sequência, como ADENDA ao texto publicado. E os «algoritmos » que laboram sob a designação de INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, num só instante - trrrrrrr – debitaram a preciosidade que hoje aqui deixo:

 «Esta é uma crónica fascinante que preserva um saber etnográfico precioso. O texto equilibra bem a nostalgia com o rigor histórico de uma época em que nada se desperdiçava.

 Aqui tem uma proposta de ADENDA técnica e contextual, escrita num tom que respeita a identidade dos seus "Trilhos Serranos":  

 1 - O Ciclo da Sobrevivência – Entre a Ciência e a Memória.
O uso da urina mencionado nesta crónica, embora cause estranheza aos olhos modernos,  fundamentava-se numa economia de subsistência rigorosa e em princípios químicos que a ciência viria a validar. 

 a)    Agente de Limpeza: 

A amoníaco, resultante da decomposição da ureia, era o "detergente" da época, essencial para desengordurar lãs e branquear tecidos. 

b) Curtimenta: Na lida das peles, a acidez da urina era o recurso disponível para amaciar o couro e preparar o calçado que calcava as fragas. 

c)   Medicina de Recurso: Em isolamento serrano, as propriedades antissépticas da ureia serviam para tratar gretas nas mãos e pequenas infeções cutâneas. 

d)    Fertilizante de Ouro: A riqueza em azoto, fósforo e potássio tornava-a um adubo líquido imediato, garantindo o viço das hortas de socalco.  

Esta prática não era sinal de escassez de higiene, mas sim uma prova da inteligência adaptativa do povo serrano, que transformava o descarte em recurso, fechando o ciclo perfeito entre o Homem e a Terra». 

 Ora, feita esta LEITURA CRÍTICA, a “IA”,  no sentido de eu “enriquecer  a crónica», valorizando o estilo dos  meus TRILHOS SERRANOS, colocou-me as seguintes questões: 

 «Se quiser ajustar o foco da adenda, diga-me:
Prefere realçar o lado químico/científico? Gostaria de focar mais no aspeto histórico e social das comunidades serranas? Quer um texto mais poético para condizer com o estilo da crónica».

Respondi prontamente, dizendo que um  «um texto  poético para condizer com o estilo da crónica» seria bem-vindo. E, em menos de um ai, veio a resposta, assim:

 Adenda: O Ouro Líquido do Tempo.
Na esteira do que acima se narrou, há um não-dito que paira sobre as pedras das nossas serras, uma espécie de alquimia doméstica que o tempo insiste em não apagar. 

 Falar do uso da urina é, afinal, evocar uma poesia da necessidade, onde nada se perde, tudo se transforma — e tudo se dignifica. 
Há uma beleza crua no gesto ancestral de guardar o "ouro líquido" para curtir o couro, para branquear o linho que vestia a pele, ou para despertar a terra adormecida. Não era apenas pragmatismo; era um diálogo íntimo com a matéria. O corpo, na sua sabedoria biológica, produzia o remédio e o adubo que a terra e a casa pediam.
Imaginemos as noites serranas, o frio a bater na janela, e aquele recipiente de barro ou zinco no canto do quarto. Nele, depositava-se mais do que um resíduo: depositava-se a continuidade do ciclo. Era o homem, a casa e a horta numa comunhão silenciosa.

Ao reler esta crónica, convido a olhar para este uso antigo com olhos de poeta, não de cético.  
Há uma nostalgia olfativa que nos liga aos nossos avós, um cheiro a rústico, a "casa de lavoura", que contava histórias de sobrevivência e inteligência prática. 
Guardar a urina era, no fundo, um ato de amor à terra que dava o sustento. Uma forma de dizer, sem palavras: nada te falta, porque tudo o que sai de mim, a ti pertence. Que esta adenda sirva para perfumar com memória o uso desse recurso tão humano, tão serrano, tão nosso».

CONCLUINDO

NOTA 1

 A “IA” dixit e eu subscrevo tudo, expurgando, porém, na parte que me toca, mesmo numa “versão poética” qualquer tipo de “nostalgia” desses tempos. Na testada do meu livro «O Vinculo de Sebastião Vieira», editado em 1988. deixei bem clara a minha postura face ao evoluir histórico, citando Soares Lusitano (séculoXVII): «aquilo que me move não é nem a novidade, nem a autoridade do que é antigo, mas a verdade das coisas» e sempre tive por bordão de apoio o pensamento de  Benedetto Croce, historiador que, cito de memória, disse «estudar o passado para dele se libertar e não para o trazer de volta».
De resto, em diversos dos meus escritos,  tenho combatido a expressão tão frequentemente ouvida: “antigamente é que era bom”, essa sim a tresandar a “nostalgia”  sem conteúdo que a sutente.

NOTA 2

 Eu não disse, e a “IA” também não disse, que os tribunos romanos, enrolados nas suas  togas brancas, tornadas «alvíssimas» graças às propriedades da URINA,  eram tribunos cujas palavras saíam das suas saudáveis bocas  com esse líquido higienizadas. Palavras deles e de outros patrícios contemporâneos perfumaram as minhas aulas de LITERATURA – em latim clássico. E quão diferentes eram elas das proferidas por alguns dos nossos tribunos que se apresentam no Parlamento de fato, gravata, camisa branca e colarinho engomado, bocas limpas com a melhor pasta dentífrica saída de sofisticado laboratório, mas toda a narrativa que produzem cheira mal à distância, empesta o ambiente, e creio que, tais palavras, tais narrativas,  nunca chegarão às antologias de estudo dos nossos liceus e universidades.  

 

 

 

 

 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.