Trilhos Serranos

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segunda, 09 julho 2018 16:04

ODE PAGÃ - 2

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ODE PAGÃ 2

Nesta fotografia, qualquer ser comum, que não sofra de miopia, vê as pernas de uma mulher. Duas coxas, joelhos unidos quase em V,  e, adivinha-se envergonhada,  a sedosa mata que reveste o monte de Vénus, sempre prestes a receber a carícia de Cupido que, de arco retesado e flecha apontada, num livro nunca lido e ícone nunca visto, esvoaça por perto, atento e sedento.

 

mm-1 - CópiaMas eu, poeta que sou, eis o que vejo, distintamente dos demais. Estas pernas não são iguais a tantas outras que tais, que se passeiam pelas pelas praias, pelas ruas da cidade e seus quintais. Este umbigo, assim escondido, este monte de Vênus, este corpo de mulher, é diferente das demais  São o relevo, são a geografia, são os montes e vales, por onde me passeio, sem receio de tropeçar nas saliências delicadas ou de cair no chós disfarçado, preparado para atrair a caça esperada. Fui caçador e, neste espaço que é meu, de armadilhas de caça postas nas veredas e trilhos serranos, entre carquejas e sargaçais, conheço eu. E das ondas do mar não há temor, pois, navegando, passei a linha do Equador.

Ando por onde me apetece e gosto. Amante da natureza, dos seus atrativos, atavios e beleza, a geografia humana que tateio isso me permite, pois em mim confia, sabedora de que aquilo que não vejo, nem palpo, sinto. É como se, caminho e caminheiro, vereda e romeiro, bordão na mão, dois em um, vivessem, sem medo, a poesia das curvas e do relevo, e ambos, ao comprido, de olhos fechados, segundo os seus desejos, escrevessem um poema inteiro com a saliva dos beijos que jorra abundantemente da pena e do tinteiro.

MM-2 - CópiaÉ isso. Um olhar comum, de homem ou mulher, vê apenas a fotografia. Mas, eu vejo muito mais, se por ela me passeio. vendo-a na posição de parto, parto para a romagem. Posicionado ao meio, mãos postas nos joelhos, pressiono-os suavemente para os lados. Os terminais do V, ângulo agudo, cedem a tudo, ao meu gesto e desejo e, com ele mais aberto, posto em graduação certa, sem uso de compasso ou transferidor, nesta paisagem assim, o desenhador, aqui, na serra ou na praia, sem alguém por perto, qual geógrafo explorador da natureza, perscrutador, ávido de experiência selvagem, solitário, deixa-se ir na corrente da aragem e no vértice do ângulo, em vez de encontrar ouro, ou pedra preciosa, planta exótica, encontra algo mais sedutor, pérola mais valiosa, erótica. É o êxtase  do prazer e do amor, impossível de desenhar, de escrever e descrever, sejam quais forem, do artista, as artimanhas. Mas um grito a dois faz eco pelas montanhas e pela areia, oceano dentro.. E, feito isso, ali chegados, não é preciso ir mais adiante. Ofegante, foi fim da caminhada. Assim sinto e penso. Ali mesmo, sem cheiro a incenso, mas a rosmaninhada intenso, e a maresia, está o templo e o altar que eu, pagão e hedonista confesso, venero. Só em frente dele me ajoelho. Tal é a minha devoção. E o templo, não seI se budista, cristão, hospitalário, judeu ou templário, que sempre me recebe, ouve a minha oração e aconselha-me a encostar o bordão o tempo necessário, o tempo de ganhar coragem até  iniciar nova romagem. É este o fado feliz de um crente...de um pagão, sempre neste vai e vem, vem e vai, vai e vem...vem e vai.. no entra e sai. Não o canto em tom grandiloquente, mas, para que se saiba e veja que não vivo de saudade,  aqui o deixo para inveja de muita gente da minha idade. E tudo mais “que Vénus com prazeres inflamava/ Melhor é experimentá-lo que julgá-lo/Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo”.

Os Lusíadas”, Canto IX, estrofe 83


 

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Abílio Pereira de Carvalho

Abílio Pereira de Carvalho nasceu a 10 de Junho de 1939 na freguesia de S. Joaninho (povoação de Cujó que se tornou freguesia independente em 1949), concelho de Castro Daire, distrito de Viseu. Aos 20 anos de idade embarcou para Moçambique, donde regressou em 1976. Ler mais.